Contentamento
Ajaan Brahmavamso
O texto que segue é uma transcrição editada de uma bela e breve palestra dada por Ajaan Brahm a um grupo que estava praticando em um dia de observância dos Oito Preceitos. Nela, o Ajaan explica a importância do contentamento na meditação e na vida.
Hoje é uma oportunidade para passarmos o dia mantendo os Oito Preceitos, praticando meditação, estudando o Dhamma, colocando todo o nosso foco na prática. Um dia de observância dos Oito Preceitos nos dá a oportunidade de deixar de lado todas aquelas coisas com que geralmente nos ocupamos para focarmos no que é realmente importante.
Vocês devem notar nas suas vidas que, frequentemente, tudo que vocês consideram extremamente importante ou valioso é aquilo com que vocês mais despendem seu tempo. Pessoas que gostam muito de esportes passarão o dia de hoje assistindo esportes. Pessoas que querem ir ao shopping e comprar mais coisas vão fazer isso porque elas acham que isso é o mais importante.
Tudo aquilo que valorizamos ganha prioridade nas nossas vidas. Acontece o mesmo com a meditação e a prática do Dhamma. Aqueles que realmente valorizam o Dhamma vão perceber que este ocupará mais espaço nas suas vidas. Eles tenderão a ouvir palestras, ler Suttas e meditar.
Algumas vezes as pessoas somente passam a dar importância ao Dhamma mais tarde na vida, e então elas passam a despender mais e mais tempo estudando, praticando, discutindo e contemplando.
O Dhamma é algo que cresce dentro de nós. E uma vez que entendamos algum dos grandes ensinamentos do Buda, estes realmente passam a ter um enorme valor para nós. Não somente tem valor por nos darem um rumo na vida, mas também por trazerem uma enorme sensação de paz e satisfação.
Nessa manhã, eu estava conversando com um colega monge, e ele me perguntou se eu estava feliz aqui. Eu disse sim, estou feliz aqui. Eu sempre estou feliz, onde quer que eu vá.
Voltei recentemente da Alemanha e durante o período em que lá estive, me certificava que a cada dia, em todos momentos, em todos os lugares, que me sentia feliz. O Dhamma nos ensina a fazer isso.
Quer estejamos em casa, quer estejamos com saúde ou enfermos, quer o clima esteja frio ou quente, o que quer que aconteça, podemos desenvolver esse belo contentamento através do Dhamma.
Vendo esse mundo tal como ele é, que não podemos controlá-lo, que faz parte da vida às vezes estar quente, às vezes frio, às vezes obtermos êxito, às vezes fracassarmos, às vezes fazermos coisas maravilhosas, às vezes fazermos coisas tolas.
Essa é a natureza da vida, mas podemos nos contentar com ela, podemos estar em paz com ela. É uma questão de mudarmos nossa atitude em relação à vida. E esse é um dos grandes ensinamentos do Dhamma. Quando as pessoas desistem de tentar mudar o mundo e mudam sua atitude em relação a ele, em outras palavras, ficam em paz com o mundo, elas realmente estão desenvolvendo compaixão e sabedoria.
Essas pessoas podem estar contentes em qualquer lugar, onde quer que estejam, mesmo num local desagradável tal como esperando um avião num aeroporto ou fazendo uma longa viagem. Seja se estiverem em casa cozinhando, seja se estiverem fazendo uma limpeza, seja se estiverem apenas descansando de noite, qualquer coisa que elas estejam experimentando, é sempre possível mudar a atitude em relação ao que estiver acontecendo.
Essa é uma parte tão importante do Dhamma: simplesmente aprender a estar contente no maior número de momentos possível. Esse contentamento significa não querer estar em nenhum outro lugar do mundo, fazendo alguma outra coisa qualquer, ao invés de simplesmente estar no aqui e agora.
Toda manhã no retiro que estava coordenando recentemente em Frankfurt eu levantava cedo. A maioria das pessoas de lá levanta tarde, mas está no meu sangue levantar cedo. Sempre me levanto por volta das quatro horas da manhã.
Como lá era verão, o sol nascia bem cedo, acabo de me lembrar que estava sentado sozinho na varanda com uma bela paisagem, tomando uma xícara de café, estando tão contente e feliz simplesmente por estar lá. Isso me preparava para o dia todo.
Vocês podem fazer algo semelhante. Sentem-se em seus jardins, ou nos seus quartos, ou nos seus monastérios, somente refletindo quão maravilhoso é o lugar e como vocês estão contentes por estar lá, assim vocês terão esse sentimento maravilhoso. Vocês não querem estar em nenhum outro lugar no mundo, o que significa que vocês não têm mais desejos, não anseiam por mais nada, e isso lhes dá uma profunda sensação de paz.
Toda paz vem do enfraquecimento desse desejar e ansiar. Não é que desejar cause sofrimento, desejar já é sofrimento. Sempre que desejamos algo não conseguimos desfrutar daquilo que já temos.
O desejo é a distância entre aquilo que somos e aquilo que queremos ser. Não adianta, isso sempre irá causar sofrimento porque há essa lacuna. Isso é chamado de Dukkha, isso é chamado sofrimento.
Quanto mais momentos no dia despendemos simplesmente estando contentes, nesses momentos encontraremos a paz, encontraremos a quietude, encontraremos o êxtase. Encontraremos até mesmo meditações mais profundas.
Então lembrem-se, se vocês desejarem estar em algum outro lugar, se vocês quiserem se livrar desse momento para estarem em outro lugar, vocês sempre estarão sofrendo, isso é Dukkha. Se vocês não desejarem estar em algum outro lugar, em qualquer outro lugar no mundo inteiro, isso é liberdade.
Vocês não precisam de um belo cenário ou de um corpo saudável para estarem contentes. Pessoas sábias podem estar contentes com qualquer coisa. Simplesmente estando contentes, onde quer que estejamos, o que quer que estejamos fazendo, veremos que sempre encontraremos uma profunda sensação de paz e liberdade.
Então na meditação de hoje lembrem-se do contentamento. Contentamento é a superação do desejo. Contentamento leva à quietude da mente. Não é possível ter uma meditação profunda se não tivermos contentamento. Meditações profundas, especialmente os Jhanas, são somente o resultado do acúmulo de momentos de contentamento, um depois do outro. Então, quanto mais contentes estivermos durante o dia, mais fácil será meditar.
Não se trata do que é experimentado na meditação, o que muda é como a meditação é experimentada. Se estivermos aborrecidos, estaremos contentes com isso? Se realmente estivermos contentes, o aborrecimento não durará.
Toda inquietação é uma tentativa de fuga. Fuga através do que? Através do descontentamento. Se estivermos descontentes com a nossa inquietação, esta estará sendo alimentada. Se estivermos felizes por estar aqui com essa mente velha e estúpida, então a mente para. É como dirigir um carro e desligar a gasolina.
O que acontece quando nós desligamos o combustível do descontentamento? Simplesmente estaremos felizes por estar aqui, não importa onde. O veículo vai ficando mais e mais lento até que finalmente para. Como não desejamos ir a nenhum outro lugar, não iremos a nenhum outro lugar. Ficamos parados. Então esse nível de contentamento cria uma sensação do tipo "feliz por estar aqui".
Esse "feliz por estar aqui" pode parecer um pouco artificial no começo. Mas se praticarmos dessa forma o contentamento irá se fortalecer, fortalecer e fortalecer. Até que atinjamos um contentamento tão intenso e perceberemos que ele é tão cheio de paz, tão calmo, tão cheio de êxtase, que isso nos levará para meditações mais profundas.
E perceberemos que esse contentamento fortalecido na meditação também mostra como superar o senso de "eu". Isso porque o senso de um "eu" é sempre, por natureza, descontente. Ele nunca quer sossegar.
Então quando desenvolvemos essa sensação de contentamento, o senso de "eu" desaparece, passa a não ter mais significado. Assim como o Buda disse, um tronco caído não tem um senso de "eu" porque ele simplesmente fica ali parado.
Quanto mais contentes estivermos, mais "nós" desaparecemos. Todo o nosso senso de "eu" desaparece. Se quisermos entender anatta, o senso de "eu", ou atta, é sempre descontente, está sempre sofrendo. Quando desaparecemos, somente quando isso ocorre é que encontramos uma sensação de contentamento.
Então é isso que fazemos: meditamos para ver o Dhamma, vemos o Dhamma para meditar. Somos contentes, pacíficos e livres. Então vejam quanto contentamento vocês podem acumular. Ele supera o desejo e produz paz e felicidade, até mesmo a iluminação. Então tentem e se esforcem para não ficarem descontentes com nada no dia de hoje. Mudem suas atitudes em relação à vida, ao em vez de mudar a vida.
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