sexta-feira, 2 de setembro de 2011

NÃO ADIANTA FUGIR, NEM MENTIR PRA SI MESMO


Esta é a minha frase favorita da letra de Nelson Motta na música composta por Lulu Santos “Como uma Onda”. Usando a metáfora das ondas no mar, a música fala sobre a mudança constante que vivemos, mostrando como nada é permanente. Nesta frase, ela nos lembra do medo que temos das mudanças dizendo que não adianta tentar se esquivar e acrescenta que “agora há tanta vida lá fora, aqui dentro, sempre, como uma onda no mar”.

Esta feliz associação da impermanência com a vida em sua plenitude, desafia nosso medo e nossa tentativa ilusória de manter as coisas como se elas não fossem mudar, e também nos mostra que este movimento de constante mudança é a própria beleza da vida.

Talvez gostaríamos que a vida fosse como aquelas estórias que nos contavam quando éramos crianças que terminavam em “e foram felizes para sempre”. Mas as coisas não são assim. E se formos observar o desenrolar de tudo que vivemos, veremos que quanto mais nos apegamos a esta falsa noção de felicidade e segurança mais criamos as condições para sofrermos.

“Não adianta fugir, nem mentir”. A mudança é a realidade de nossas vidas e não aceitar este fato é perder a oportunidade de ver que “há tanta vida lá fora, aqui dentro, sempre”. Mudança é vida mesmo quando ela implica em profundas perdas que nos chegam, até mesmo, como morte. Vivemos nesta contínua experiência de nascer e morrer a cada instante, na maioria das vezes suave e invisível, mas em outras tremendamente forte e chocante. Se conseguirmos nos familiarizar previamente e compreender esta realidade, poderemos lidar com as mudanças de forma mais lúcida, menos sofredora e diria até que vibrante.

Na verdade, não é difícil entender que as coisas mudam. O problema começa quando não queremos permitir as mudanças das coisas e procuramos fazer com que as situações sigam segundo nossos desejos. Esta dificuldade surge porque não realizamos emocionalmente a sabedoria da impermanência. E o que nos impede disto é o apego emocional.

Para lidar com este apego é preciso um trabalho maior consigo mesmo, onde o nosso entendimento intelectual da impermanência penetre cada vez mais nossas experiências emocionais. Com a devida prática podemos alcançar uma tremenda liberdade diante das mudanças, não resistindo mais aos movimentos da vida, assim como um surfista que ganha a habilidade (e a alegria) de surfar uma grande onda, dançando no seu movimento, mesmo com todos os riscos que isto implica.

O primeiro passo para desenvolver esta habilidade emocional é não negar a impermanência, não tentar colocar ela debaixo do tapete e olhar para o outro lado. Muito pelo contrário, devemos contemplar a impermanência nas menores coisas possíveis e nos familiarizar com sua realidade permeando tudo a todo instante. Quanto mais nos familiarizarmos com este processo mais saberemos nos tornar destemidos e tranquilos com todas as mudanças que podemos passar.

Você pode perguntar se tem que fazer isso até mesmo com as coisas boas que está vivendo. E eu diria que principalmente com elas. São as situações boas que vivenciamos sem a sabedoria da impermanência que nos causam sofrimento quando elas acabam. Contemplar a impermanência nos faz perceber que toda esta solidez e realidade que damos às coisas e às experiências não têm fundamento. Tudo neste mundo como objetos, pessoas, sentimentos e pensamentos são fenômenos que surgem, ficam por um tempo e, depois, desaparecem. E não é muito inteligente colocar nossa confiança e suporte em coisas assim.

Pode parecer desalentador perceber isso e podemos achar que pensar desta forma vai nos tirar o prazer de viver. Mas, por exemplo, nós nos dispomos a ir ao cinema e nos emocionarmos com as alegrias, tristezas, excitações e tensões de um filme, sabendo que aquilo é apenas um filme e mesmo assim não deixamos de sentir estas emoções. E nós nos permitimos vivenciar isto porque nossa base existencial não está fundamentada no que se passa na tela, sabemos que aquilo não tem realidade e que não pode nos afetar verdadeiramente. E, cientes disso, além de nos divertirmos bastante, muitas vezes, após o filme ainda nos vemos profundamente influenciados pelo que assistimos.

Na medida em que contemplamos e meditamos na impermanência podemos descobrir que em meio a todo este movimento e instabilidade, há algo que está sempre presente: a lucidez de nossa mente livre. Quando libertamos nossa mente das ilusões sobre a realidade das coisas, descobrimos esta lucidez que explora destemidamente todo tipo de experiência.

Sem esta lucidez somos como um passarinho que vive numa gaiola com a porta aberta e que, por medo, não consegue sair. Sem esta lucidez somos como alguém que esqueceu que entrou numa sala de cinema e está apenas vendo um filme. E que, ao se identificar com a estória, os personagens e o ambiente do filme, acaba aprisionado pelas suas emoções diante dos acontecimentos que surgem da mágica exibição de luz e sombra, achando que esta é sua única realidade.

ALEXANDRE SAIORO ministra para grupos e empresas o Programa de Redução do Estresse - A Arte do Estresse - baseado em metodologias utilizadas na área de desenvolvimento humano e organizacional e em métodos de meditação e contemplação da tradição budista.
Para saber mais sobre o Programa vá até o final do Blog ou acesse: http://a-arte-do-estresse.blogspot.com/
Tara Bennett-Goleman and Daniel Goleman Emotional Alchemy

Summary: We all have coping strategies that let us adapt to adversity. Yet as we grow older these thought patterns are no longer needed and we can even pay a price if we continue to use them. According to Tara Bennett-Goleman, such thought patterns are what she calls schema - hidden mental habits that shatter our peace of mind.

"Schemas obscure the clarity and spaciousness of our true nature," says Tara. With over 20 years of study with Buddhist masters from Tibet, Nepal and Burma, Tara takes what she learns to the next level by combining it with a scientific structure based on cognitive therapy and neuroscience - the perfect balance between fact and faith.

In this dialogue she and her partner, Daniel Goleman, explore schemas and relate how to use emotional alchemy to change shadows and confusion of the mind into clarity and how to use mindful investigation to see things as they are rather than as we think they are. Their own relationship has grown more loving because of the schema work they have been doing.

"When you understand your emotional patterns, you take things much less personally," says Daniel. The Golemans point out that many times we may unwittingly be attracted to partners who trigger our schemas and the antidote, says Tara, "is mindfulness, which involves being aware of our emotions without being ruled by them."

Tara Bennett-Goleman has done post-graduate training at the Cognitive Therapy Center of New York and is the author of Emotional Alchemy: How the Mind Heals the Heart (Harmony Books 2000). Daniel Goleman is CEO of Emotional Intelligence Services in Sudbury, Massachusetts. He is the author of many books, including the worldwide bestseller, Emotional Intelligence (Bantam Books 1998).

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A microexpressão é um breve, expressão facial involuntária mostrado na face do ser humano de acordo com emoções experimentadas. Eles costumam ocorrer em situações de alto risco, onde as pessoas têm algo a perder ou ganhar. Ao contrário regulares expressões faciais, é difícil microexpressões falso.

Microexpressões expressar as sete emoções universal: nojo, raiva, medo, tristeza, felicidade, surpresa, desprezo e. No entanto, na década de 1990 Paul Ekman expandiu sua lista de emoções básicas, incluindo uma gama de emoções positivas e negativas dos quais nem todos são codificados em músculos faciais.

Estas emoções são de diversões, desprezo, vergonha, excitação, [desambiguação necessário] culpa, orgulho, alívio, satisfação, prazer e vergonha. Eles são muito breves em duração, com duração de apenas 1 / 25 para 1 / 15 de segundo.


História

Microexpressões foram descobertos por Haggard e Isaacs. Em seu estudo de 1966, Haggard e Isaacs descreveu a forma como eles descobriram esses "micromomentary" expressões enquanto "a digitalização de filmes de cinema de horas de psicoterapia, em busca de indicações de comunicação não-verbal entre terapeuta e paciente"

Esta reedição da pesquisa Ekman e Friesen de avanço sobre a expressão facial da emoção usa dezenas de fotografias mostrando emoções de surpresa, medo, nojo, desprezo, raiva, tristeza, felicidade e. Os autores de desmascarar a face explicar como identificar essas emoções básicas corretamente e como saber quando as pessoas tentam mascarar, simular, ou neutralizá-los.

Na década de 1960, William S. Condon foi pioneira no estudo das interações no nível fração-de-um-segundo. Em seu famoso projeto de pesquisa, ele examinou um quatro-e-um-metade-segundo filme quadro a quadro segmento, onde cada quadro representado 1/25th segundo.

Depois de estudar esse segmento filme por um ano e meio, ele discerniu micromovimentos interacional, como a esposa movimento do ombro, exatamente como as mãos do marido veio, o que combinado microrhythms rendeu.

Anos após o estudo Condon, o psicólogo americano John Gottman começou relações de gravação de vídeo-vivos para estudo de como os casais interagem. Ao estudar as expressões dos participantes facial, Gottman foi capaz de correlacionar expressões com que os relacionamentos durariam e que não iria.

Papel Gottman de 2002 não faz nenhuma reivindicação para a precisão em termos de classificação binária, e é uma análise de regressão, em vez de um modelo de dois fatores onde os níveis de condutância da pele e narrativas codificações de história oral são as duas únicas variáveis ​​estatisticamente significativas. Expressões faciais usando esquema de Ekman codificação não foram estatisticamente significativas.

No livro de Malcolm Gladwell "Blink", que foi escrita muitos anos depois de "Inteligência Emocional" já trouxe trabalho de Gottman a atenção do público, Gottman afirma que existem quatro principais reações emocionais que são destrutivos para um casamento: defensiva, obstrução crítica, , desprezo e. Entre estes quatro, Gottman considera desprezo o mais importante de todos eles.

[Editar] Tipos de Expressões MicroexpressionsSimulated: Quando uma expressão micro não é acompanhada por uma expressão genuína.

Expressões neutralizados: Quando uma expressão genuína é suprimido e permanece a face neutra.

Expressões mascarado: Quando uma expressão genuína é completamente mascarado por uma expressão falsificados.

Ação do Sistema de Codificação Facial (FACS) O Sistema de Ação Facial Coding ou FACS é usado para identificar expressões faciais. Isso identifica os músculos que produzem as expressões faciais. Para medir os movimentos musculares da unidade de ação (UA) foi desenvolvido. Este sistema mede o relaxamento ou a contração de cada músculo individual e atribui uma unidade.

Mais de um músculo podem ser agrupados em uma Unidade de Acção ou o músculo pode ser dividido em unidades de ação separada. A pontuação consiste em intensidade, duração e assimetria. Isto pode ser útil na identificação de depressão ou mensuração da dor em pacientes que são incapazes de se expressar.

[Editar] Assistentes ProjectMain artigo: Assistentes Projeto

A maioria das pessoas não parecem perceber microexpressões em si mesmos ou aos outros. No Projeto Wizards, anteriormente chamado de "Projeto Diógenes", os drs. Paul Ekman e Maureen O'Sullivan estudaram a capacidade das pessoas para detectar fraude. Dos milhares de pessoas testadas, apenas um seleto poucos foram capazes de detectar com precisão quando alguém estava mentindo.

Os pesquisadores do Projeto Assistentes chamado essas pessoas "Verdade Wizards". Até à data, o Projeto Assistentes identificou pouco mais de 50 pessoas com essa habilidade depois de testar quase 20.000 pessoas. Assistentes verdade use microexpressões, entre muitas outras pistas, para determinar se alguém está dizendo a verdade. Os cientistas esperam que, estudando assistentes que possam avançar as técnicas utilizadas para identificar engano.

Na cultura popular Este "Na cultura popular" seção pode conter referências menor ou trivial. Por favor, reorganizar este conteúdo para explicar o impacto do sujeito na cultura popular, em vez de aparências simples listagem, e remover referências trivial.

Microexpressões ea ciência associados são a premissa central para a série de televisão 2009 Lie to Me, no qual o personagem principal utiliza a sua consciência aguda de microexpressões para determinar quando alguém está mentindo ou escondendo algo.

Eles também desempenham um papel central na publicação póstuma Robert Ludlum, The Warning Ambler, em que o personagem central, Harrison Ambler, é um agente de inteligência que é capaz de vê-los. Da mesma forma, um dos principais personagens da novela de ficção Alastair Reynolds ciência, Gap Absolution, Aura, pode ler facilmente microexpressões.

Em Law & Order: Criminal Intent, o detetive Robert Goren era adepto em detectar microexpressões.

Referências ^ Paul Ekman (1999). Emoções básicas. Em T. Dalgleish e Poder M. (Eds.). Manual de Cognição e Emoção. Sussex, no Reino Unido: John Wiley & Sons, Ltd.

^ P. Ekman, "Expressão Facial da Emoção: uma antiga controvérsia e novas descobertas", Philosophical Transactions of the Royal Society, em Londres, B335 :63 - 69, 1992
^ Http://face.paulekman.com/aboutmett2.aspx

^ Haggard, E. A., & Isaacs, S. K. (1966). Micro-momentânea expressões faciais como indicadores de mecanismos ego na psicoterapia. Em LA Gottschalk & AH Auerbach (Eds.), Métodos de Pesquisa em Psicoterapia (pp. 154-165). New York: Appleton-Century-Crofts.
^ Http://journals.lww.com/jonmd/Citation/1966/10000

/ Sound_Film_Analysis_of_Normal_and_Pathological.5.aspx
^ Http://www.gottman.com/49853/Research-FAQs.html

^ Gottman, J. e Levenson, R.W., (2002). Um modelo com dois fatores para prever quando um casal vai Divórcio: Análise exploratória Usando de 14 anos de dados longitudinais, Processo de Família, 41 (1), p. 83-96

^ Gladwell, Malcolm (2005). Blink, Capítulo 1, Seção 3, A Importância da Contempt

^ Godavarthy, Sridhar. "Microexpressão spotting em vídeo usando tensão óptica". Web. http://scholarcommons.usf.edu/etd/1642. Recuperado 15 junho de 2011.

^ Camilleri, J., Assistente de Verdade sabe quando você está mentindo ", Chicago Sun-Times, 21 de janeiro de 2009

Análise Film som de padrões de comportamento normal e patológico, Condon, WS; Ogston, WD, Jornal de doença nervosa e mental. 143 (4) :338-347, outubro de 1966.

terça-feira, 19 de julho de 2011

mentiras

Quando as pessoas tentam deliberadamente ocultar suas emoções (ou inconscientemente reprimir suas emoções), um brief--1/15 muito a 1 / 25 de segundo - a expressão facial ocorre muitas vezes, invisível a quase todos que não tem treinado com Mett: o micro-expressão ferramenta de treinamento. Treinamento com Mett permite que você fica melhor spot, colocar as pessoas à vontade e ser querido pelos outros, e ser mais bem sucedido em vendas.

Pesquisas com Esquizofrênicos tem mostrado que aqueles que usaram Mett são mais capazes de reconhecer como os outros estão sentindo.

Apesar dos esforços para esconder qualquer sinal de emoção que é sentida vazamento pode ocorrer em muito pequena difícil reconhecer fragmentos de expressão. Essas pequenas mudanças também podem ocorrer quando uma emoção é apenas o começo, muitas vezes antes que a pessoa sabe que eles estão prestes a agir emocionalmente. Assist pode treinar as pessoas para "ver" estes sinais importantes.

Porque as pessoas diferem em sua acuidade visual, nem todos podem alcançar o mesmo nível de proficiência.

Expressões Micro dizer que a emoção está oculto. Mas eles não lhe dizer como ou por que ele estava escondido. Eles podem ser o resultado de uma escolha consciente e deliberado em que a pessoa sabe que ele / ela está sentindo, mas não quer que mais ninguém saiba. Ou, como resultado da repressão, em que a pessoa não sabe como ele / ela está sentindo e foi bloqueado a partir de sua consciência. Você terá que determinar se a ocultação é deliberada ou inconsciente, uma vez que a mesma aparência. O seu conhecimento da situação em que ocorrem devem ajudá-lo a descobrir isso, ou você pode precisar de fazer perguntas para descobrir.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Uma Mente Pura, Concentrada, e Luminosa:

Uma entrevista com Leigh Brasington

Somente para distribuição gratuita.
Este trabalho pode ser impresso para distribuição gratuita.
Este trabalho pode ser re-formatado e distribuído para uso em computadores e redes de computadores
contanto que nenhum custo seja cobrado pela distribuição ou uso.
De outra forma todos os direitos estão reservados.



Pergunta: Você descreve os jhanas como “o coração da prática do Buda.” Porque eles são tão pouco conhecidos pela maioria dos praticantes hoje em dia?

Leigh Brasington: (Risos) “Eu não sei” é a resposta curta. Eles estão sem nenhuma dúvida em todos os lugares nos suttas – eles são mencionados em cerca de metade dos suttas do Digha Nikaya e em cerca de um terço dos suttas do Majjhima Nikaya. O Buda definiu a Concentração Correta como a prática dos quatro jhanas, portanto parece óbvio que eles sejam conhecidos por todos, mas não são. Ao que parece, depois da morte do Buda, houve uma divisão concernente à importância dos jhanas, e essa disputa continua até hoje.

P: Porque a prática de jhana parece ter ficado do lado perdedor nessa divisão?

LB: Uma especulação que posso fazer é que à medida que a comunidade monástica se isolou nas florestas e começou a praticar os jhanas, eles passaram a levar a concentração para níveis cada vez mais profundos. Existe seguramente uma tendência humana de dizer “Se você não estiver fazendo tão bem quanto eu posso fazer, você não está fazendo o que deve ser feito.”

A idéia de níveis de concentração extremamente profundos foi promovida pelo Visuddhimagga, que diz que um meditador tem a probabilidade de um em cem milhões de aprender todos os oito jhanas. Enquanto que, se você for consultar os suttas, os discípulos estão entrando em jhanas em todas as partes.

P: Então os Ocidentais nunca foram muito expostos aos jhanas.

LB: Não é a prática que foi trazida para o Ocidente. O que principalmente veio para cá foi a tradição Vipassana de Mahasi Sayadaw, ou a meditação de insight da Birmânia, e algumas das tradições Tailandesas. Eu ouvi que apenas uma pequena porcentagem dos monges na Tailândia meditam. Agora, dessa pequena porcentagem, quantos estão de fato praticando jhanas? Minha professora, Ayya Khema, aprendeu por si mesma os jhanas, lendo os suttas e o Visuddhimagga. Mas ela não sabia se estava meditando corretamente.

E assim, quando ela estava no Sri Lanka, ela começou a inquirir sobre um mestre nos jhanas com quem ela poderia estudar. Por fim ela encontrou Matara Sri Nanarama Mahathera e teve uma entrevista com ele. Ela descreveu o que estava fazendo e perguntou, “Estou fazendo do modo correto?” Ele disse, “Sim. E além disso, você precisa ensiná-los. Os jhanas estão correndo o risco de se tornarem uma arte perdida.”

Portanto, mesmo num lugar como o Sri Lanka, que se considera o guardião do Budismo Theravada, os jhanas correm o risco de se tornarem uma prática desaparecida.

P: O que é conhecido sobre a história pré–Budista dos jhanas?

LB: Eles definitivamente existiam antes do Buda – ele aprendeu do primeiro ao sétimo jhana com o seu primeiro mestre e o oitavo, com o seu segundo mestre. Acredita-se que Anapanasati – observar a respiração como objeto de meditação – é uma prática com 5.000 anos. O Buda surgiu 2.500 anos depois e com certeza nesse intervalo as pessoas devem ter se deparado com esses estados elevados de consciência.

Isso ocorre com muita freqüência. Na maioria dos retiros que ensino, um número significativo de novos praticantes se deparam com um ou mais desses estados.

Portanto, considerando que houve 2.500 anos de prática de anapanasati, é de se supor que muitas pessoas descobriram esses estados, e na época do Buda eles os teriam sistematizado numa ordem crescente de sutileza do objeto de meditação.

É interessante notar que o Buda experimentou os jhanas pela primeira vez quando criança, sentado sob uma árvore durante um festival de semeadura. E na noite da sua iluminação, a primeira coisa que ele fez foi percorrer os jhanas. No estado mental pós-jhana, na última vigília da noite, ele penetrou as Quatro Nobres Verdades.

P: Nós sabemos exatamente o que o Buda estava fazendo?

LB: Nós não sabemos com certeza o que exatamente o Buda estava praticando. Há muitas disputas sobre como definir ou interpretar os jhanas. Talvez a pergunta mais útil seja, ‘Qual é a definição pragmática? Há algum nível de jhana que as pessoas podem de fato aprender e que irá ajudá-las no seu desenvolvimento espiritual?’ Espero que esse seja o nível que eu ensino.

P: Qual é a sua definição dos jhanas?

LB: Eu os definiria como oito estados de consciência elevada, cada um exigindo mais concentração do que o anterior, e cada um gerando mais concentração do que o anterior. A definição padrão dos jhanas, que é encontrada nos suttas, descreve os primeiros quatro estados em termos muito precisos [Veja Jhana]. Os últimos quatro jhanas se fundamentam no quarto jhana e são chamados de jhanas imateriais.

Cada jhana tem vários fatores. No primeiro jhana, os primeiros dois fatores são vitaka e vicara, que têm sido traduzidos desde “pensar e ponderar” até “atenção aplicada e sustentada no objeto da meditação.” Eu tendo a preferir “atenção aplicada e sustentada no objeto da meditação.”

Isto é, colocar a sua atenção no objeto e manter a sua atenção no objeto. Depois há piti e sukha, piti sendo uma sensação física de êxtase, de gozo percorrendo o corpo, uma libertação de energia; e sukha, uma sensação mental ou emocional de alegria e felicidade.

O primeiro jhana, então, é um estado no qual há a libertação dessa energia física elevadora, prazerosa, acompanhada por uma sensação mental de alegria e felicidade sobre a qual a atenção pode ser aplicada e sustentada.

No segundo jhana, piti decresce um pouco, mas não completamente. A alegria e felicidade passam para o primeiro plano e a atenção aplicada e sustentada desaparecem, sendo substituídas pela tranqüilidade interna e unicidade da mente - ekodi-bhavam. A consciência fica absorta em sukha - ekagatta.

No terceiro jhana, o êxtase – o componente físico desaparece e sukha se acalma da alegria para o contentamento/satisfação. A concentração se torna mais refinada e há a difusão do contentamento que permeia tudo. É um estado desprovido de desejos, um estado de completa satisfação.

O contentamento que surge no terceiro jhana contém prazer. No quarto jhana, o prazer se vai e a mente fica neutra. Os suttas dizem que “com o abandono da felicidade e do sofrimento e com o anterior desaparecimento da alegria e tristeza, um bhikkhu entra e permanece no quarto jhana, que possui nem felicidade nem sofrimento e a atenção plena purificada devido à equanimidade.” Esse estado é muito pacífico, muito repousante, muito quieto, muito tranqüilo.

P: E os quatro seguintes?

LB: Os quatro jhanas seguintes são refinamentos adicionais da concentração. A mente toma objetos cada vez mais sutis até que ela alcança um estado onde ela simultaneamente tem uma pequena noção do que realmente está acontecendo, apesar da consciência permanecer estável. Ela está muito concentrada.

P: Você disse que esses são estados que ocorrem naturalmente na mente. Os praticantes chegam a esses estados por si mesmos?

LB: Todos os oito jhanas, raramente. No entanto, com uma freqüência surpreendente os praticantes se deparam com um ou mais de um dos primeiros sete. E algumas pessoas relatam ter experimentado esses estados quando crianças.

P: Mas as pessoas não alcançam os jhanas assim de cara. Você recomenda que os praticantes tenham feito pelo menos dois retiros longos e que mantenham diligentemente uma prática diária de meditação para participar de um retiro de jhanas. Você poderia nos explicar como as pessoas alcançam os jhanas?

LB: Você tem que ter um certo nível de concentração para que o primeiro jhana surja. Isso é chamado de concentração de acesso. A concentração de acesso tem sila – virtude, como pré-requisito.

A descrição do primeiro jhana começa com “Afastado dos prazeres sensuais, afastado das qualidades não hábeis” (veja Jhana). Se você não estiver vivendo uma vida com virtude, você não pode esperar que irá sentar numa almofada de meditação e ficará afastado dos prazeres sensuais e afastado das qualidades não hábeis. Se não houver sila suficiente, há desejo em demasia, há raiva ou medo em demasia, há preocupações em demasia.

A concentração de acesso também exige que você esteja numa postura corporal que proporcione tanto conforto como vigilância; de outro modo, você sentirá dor ou estará muito sonolento para meditar.

A concentração de acesso pode ser induzida de várias formas. Há cerca de quarenta objetos distintos de meditação mencionados nos suttas e cerca de trinta são adequados para alcançar os jhanas. Por exemplo, se você tiver escolhido anapanasati como objeto de meditação, você coloca a atenção na respiração e mantém a atenção na respiração até que a concentração de acesso se estabeleça.

P: Como alguém sabe que a concentração é suficiente?

LB: Em geral, você está totalmente com o objeto de meditação. Se houver pensamentos, eles são fracos e em segundo plano, são incapazes de afastá-lo do objeto da meditação. Além disso, no caso da atenção plena na respiração, a respiração fica muito sutil, quase não detectável.

P: Esse tipo de concentração evidentemente também é alcançada por praticantes Zen e Tibetanos. Mas eu nunca ouvi esses estados mencionados como jhanas ou categorizados dessa forma. São jhanas?

LB: Esse tipo de concentração é apenas acesso – não é jhana, que é um refinamento adicional, específico. No entanto, curiosamente, a palavra jhana é dhyana em sânscrito, ch’an em chinês e em japonês, zen.

Literalmente, ela significa meditar. Os praticantes zen com os quais trabalhei não aprendem os jhanas. Eu vi todos os oito jhanas descritos na literatura tibetana, mas nunca ouvi que eles são ensinados.

Além disso, as tradições zen e tibetana possuem a maioria do cânone em pali, então a informação está disponível, mas não tem sido um elemento central nas práticas dessas tradições, pelo menos da forma como as conhecemos no Ocidente.

Sabemos também que os jhanas aparecem nos ensinamentos dos iogues. Uma possibilidade interessante é que a energia da kundalini seja o mesmo que a energia de piti – talvez uma manifestação ligeiramente diferente, mas eu diria que são muito semelhantes. Ambas, kundalini e piti são descritas como geradoras de calor em certas ocasiões.

As mulheres com quarenta e cinqüenta anos me dizem, “Tudo que você está fazendo é gerar ondas de calor!” Na tradição tibetana há a prática de tumo, gerar calor. Eu não me surpreenderia em descobrir que isso está relacionado com gerar piti. Se a partir disso eles evoluem para uma prática avançada que seriam os jhanas, eu não sei.

P: Então como os jhanas podem nos ajudar?

LB: O Buda diz que eles são a Concentração Correta e portanto, um dos fundamentos básicos do caminho para a libertação.

Na noite da sua iluminação, depois de percorrer os jhanas, ele se descreveu como possuidor de “uma mente concentrada, purificada, luminosa, pura, imaculada, livre de defeitos, flexível, maleável, estável, atingindo a imperturbabilidade.”

Essa foi a mente que ele direcionou para os três verdadeiros conhecimentos. O propósito dos jhanas é gerar uma mente que possa de modo mais eficiente obter o insight da natureza das coisas como elas na verdade são. É por isso que eles são importantes.

P: Eles também são descritos como a base para desenvolver poderes supra-humanos.

LB: Eu diria que qualquer busca de poderes supra-humanos é uma distração do caminho. O Buda com certeza advertiu contra a sua busca. Então, eu diria que os jhanas devem ser usados para gerar uma mente mais adaptada para o insight – particularmente sobre a mente e o corpo e as Quatro Nobres Verdades.

P: Como você disse, a meditação de insight é o tipo de meditação mais comumente ensinada no Ocidente. Mas, dadas as suas idéias e aquilo que aparece nos suttas, como as pessoas podem se dedicar à prática de insight sem preparar a mente com os jhanas?

LB: Bem, até o Buda ensinou a prática de insight sem os jhanas. Se você ler o Anapanasati Sutta, Majjhima Nikaya 118, dois dos dezesseis passos são piti e sukha, mas esses passos não são jhanas.

Os primeiros quatro passos, pode-se dizer, estão gerando a concentração de acesso.

Os oito passos seguintes estão gerando uma mente mais calma, tranqüila, concentrada e os últimos quatro passos são a prática de insight. O Buda ensinou a prática da atenção plena na respiração em muitas ocasiões diferentes, então é óbvio que ele não pensava que os jhanas eram o único caminho, mas, sem dúvida, eles são um caminho proveitoso.

P: Mas você enxerga a prática da concentração como essencial, não é mesmo?

LB: Minha opinião é que qualquer grau de concentração, que uma pessoa for capaz de alcançar, tornará a sua prática de insight muito melhor. Então, se você só conseguir obter a concentração de acesso e aí passar para o método do Mahasi Sayadaw, você terá um envolvimento menor do ‘eu’.

Se você conseguir concentrar a mente até o nível de concentração dos jhanas, o ‘eu’ irá se calar e ficar num canto. Qualquer prática de insight será aprimorada por ter uma perspectiva menos egocêntrica.

P: Você se vê numa posição divergente em relação à tradição Vipassana?

LB: De modo algum. Eu penso que aquilo que é ensinado [em lugares como Insight Meditation Society e Spirit Rock] é muito benéfico, muito profundo – no entanto, poderia ser ‘turbinado’ com a adição da prática de jhana como preliminar.

Não é que eu tenha uma posição divergente dos mestres de Vipassana; é que eu simplesmente penso que a prática de jhana poderia ser uma adição útil – especialmente para aqueles praticantes que acabam topando com esses estados.

P: Eu ouço as pessoas falarem que chegaram a um limite na sua prática de Vipassana. Você crê que os jhanas poderiam ter um papel nesses casos?

LB: Eles seguramente são um modo de superar os limites. Eu já ouvi de várias pessoas que participaram dos meus retiros dizerem que sentiam que a sua prática havia estagnado. E de repente, aqui estava algo que a colocou em movimento.


Parte daquilo que elas estavam experimentando é um pouco de êxtase e alegria que faz com que a prática de “insight seco” se torne muito mais cheia de vida, mas mesmo que seja só um pouco mais cheia de vida, e elas ficarem mais interessadas na prática, isso já é uma vantagem.

No longo prazo, a habilidade de concentrar a mente em níveis cada vez mais profundos aumenta a capacidade da mente para a prática de Vipassana. O entendimento da experiência tem o potencial de ser muito mais profundo.

P: Conte-nos sobre o seu relacionamento com a sua professora, Ayya Khema.

LB: Eu a ouvi falar pela primeira vez no San Francisco Zen Center. Uma amiga, Mary Wall, a quem eu sou eternamente grato, sugeriu que eu comparecesse à palestra e considerasse participar do retiro de Ayya que estava para acontecer. Eu participei do retiro sem nunca antes ter meditado na minha vida. Eu pensava que meditava, mas rapidamente aprendi que aquilo que eu fazia não era o que a Ayya Khema considerava ser meditação. Eu mal era capaz de seguir a minha respiração ao final daqueles dez dias. Mas uma das coisas que Ayya Khema ensinou foi o método da varredura. E isso eu podia fazer.

P: Você pode explicar o que é isso?

LB: A varredura é um movimento sistemático da atenção sobre cada centímetro quadrado do corpo, simplesmente observando quaisquer sensações que possam ser notadas. Pode haver sensações físicas como calor, frio, pressão, formigamento e também pode haver emoções que surgem.

Você simplesmente observa aquilo que está presente naquele momento e segue em frente com a varredura sistemática da atenção sobre o corpo.

A varredura tem o efeito de gerar concentração suficiente para que algumas pessoas entrem nos jhanas. É também uma prática de insight bastante eficaz.

P: Então foi assim que você chegou aos jhanas.

LB: Não exatamente. Ayya Khema também ensinava metta, (meditação do amor bondade), e eu gostava de praticar metta. Então, a minha prática durante os três primeiros anos era fazer dez minutos de metta, em seguida a varredura e depois observar a respiração. Isso me manteve seguindo adiante, e eu também participei de retiros com outros professores quando Ayya não estava disponível.

No meu segundo retiro, que foi no centro de meditação do [mestre Tailandês Ajaan] Buddhadasa na Tailândia, eu acabei topando com piti enquanto praticava a atenção plena na respiração.

A experiência de piti com certeza fez com que eu me interessasse muito mais pela meditação. Eu me tornei um viciado em piti durante alguns anos (risos). Algumas vezes eu ouço as pessoas preocupadas com o “vício do jhana”. Mas eu superei aquele hábito, mesmo sem um mestre – eu sabia que tinha que haver algo mais do que simplesmente “estar em transe”.

Então, participei de um outro retiro com Ayya Khema. Eu não fazia idéia que aquilo que eu estava experimentando estava relacionado com os jhanas. Quando eu tive a minha entrevista com ela, ela disse, “Conte-me sobre a sua prática de meditação,” e eu disse, “Eu posso experimentar piti,” e ela disse, “Ah! Que bom! Isso é o primeiro jhana; assim é como você alcança o segundo.” Não era exatamente o primeiro jhana porque eu não tinha nenhum controle sobre aquilo, mas eu aprendi rápido como controlar e comecei a aprender mais jhanas com ela.

Durante dois anos eu experimentei piti sem obter qualquer encorajamento de outros mestres – na verdade, recebi algum desencorajamento – mas eu insisti nessa prática porque eu senti que era isso que eu devia fazer. Quando compreendi que Ayya sabia o que estava acontecendo, e nessa altura tendo algum conhecimento do Budismo, eu pude realmente dar valor aos seus ensinamentos.

Quando o praticante está pronto, o mestre aparece.

P: Você seguiu praticando os jhanas? Ou você fez outras práticas?

LB: Na verdade, a maior parte do que fiz com Ayya Khema foi a prática de insight. Quando comecei a fazer o trabalho de insight empregando o estado mental pós-jhana, descobri que o número e amplitude dos insights eram surpreendentes. Aprendi muito mais num retiro de um mês com ela do que havia aprendido nos seis anos anteriores. Isso mudou a minha vida completamente. Até mesmo os meus amigos notaram a diferença.

P: Falando em retiros, como são os seus retiros de jhanas?

LB: Antes de mais nada, embora algumas vezes um retiro seja anunciado como um retiro de jhanas, na verdade é um retiro sobre o dhamma com os jhanas incluídos. Eu falo sobre os preceitos éticos, as Quatro Nobres Verdades, os cinco obstáculos e assim por diante.

Depois falo em detalhe sobre os jhanas, dou as instruções para o primeiro jhana e mais tarde, volto a falar sobre a prática de insight. Em geral uso como base o Grande Discurso sobre os Fundamentos da Atenção Plena , ensinando e guiando meditações baseadas nas práticas descritas nesse discurso.

Mas se for o primeiro retiro de uma pessoa comigo, e ela não tiver feito prática de jhana antes, então, em geral ela irá passar a maior parte do tempo trabalhando com a concentração, ao invés de trabalhar com as práticas de insight que eu estiver ensinando.

P: As pessoas vêm pensando que irão experimentar os jhanas com facilidade?

LB: Em todos os meus retiros, a primeira coisa que faço é alertar as pessoas para o fato de que nem todos no retiro irão experimentar os jhanas. Há uma porcentagem de participantes, que é relativamente constante, que experimenta pelo menos um jhana, uma vez. E há uma porcentagem menor que consegue ganhar uma boa habilidade na prática de jhana. A pior coisa que alguém pode trazer consigo para qualquer retiro é a expectativa de qualquer tipo que seja. E num retiro de jhana isso irá realmente atrapalhar muito.

A segunda coisa que explico é que se você começar a se envolver com estados profundos de concentração, você tem de estar preparado no caso da sua bagagem psicológica vir à tona.

Normalmente, andamos por aí com toda a nossa bagagem sob controle, mas uma vez que você entre em concentração profunda, a energia que é empregada para manter a bagagem sob controle não está mais presente e você terá de se defrontar com essa bagagem.

O principal objetivo de realizar entrevistas individuais é falar sobre o dhamma e as técnicas de prática. Mas se aquilo que estiver emergindo na prática for a sua bagagem, então podemos usar as entrevistas para tentar trabalhar com ela.

P: Você dá instruções mais específicas durante as entrevistas?

LB: Sim, eu checo com o praticante e ofereço instruções um pouco mais específicas. Como eu disse, para entrar no primeiro jhana é necessário que você gere um certo nível de concentração.

Para algumas pessoas a atenção plena na respiração é o melhor método para gerar a concentração de acesso.

Outras pessoas percebem que metta funciona melhor, e para outras ainda, o melhor é o método da varredura.

É interessante notar que alguns dos antigos praticantes de TM, (Meditação Transcendental), ressuscitam os antigos mantras e os empregam para obter a concentração de acesso.

Então, parte do meu trabalho nas entrevistas é descobrir qual método de concentração de acesso funcionará melhor para um determinado praticante.

P: Por que você é o único discípulo americano de Ayya Khema que ensina os jhanas?

LB: Ela tinha outros discípulos que eram mais capazes nos jhanas do que eu, mas eles não se entusiasmaram pelo ensino. Você tem de encontrar alguém que tenha proficiência nos jhanas, compreenda como eles operam e tenha vontade de ensinar. Essa combinação parece um tanto rara. Eu sou o único na América do Norte, mas há cerca de oito discípulos de Ayya Khema que ensinam os jhanas na Alemanha, e há mais um na Austrália.

P: Se os jhanas são estados mentais que ocorrem naturalmente e nos quais os meditadores acabam entrando mesmo sem querer, como foi a sua experiência, como é possível que os mestres não os ensinem? Você crê que isso seja um problema?

LB: Você está perguntando para a pessoa errada. Eu fiz essa mesma pergunta para Ayya Khema. Ela também não sabia. Depois da minha experiência, vendo o insight que pode ser produzido, eu fiquei surpreso que mais pessoas não os ensinem. Mas no meu caso, eu não vejo como não ensiná-los. A concentração mais profunda simplesmente parece conduzir a verdades mais profundas.





Fonte: Tricycle – The Buddhist Review. Winter 2004

www.tricycle.com

domingo, 1 de maio de 2011

A Realidade Condicionada



Ajaan Brahmvamso



Os temas que com freqüência surgem no Budismo são o condicionado e o incondicionado, especialmente se alguém está em busca da verdade, em busca da realidade, em busca da liberdade.

Pessoas que tenham estudado os princípios de psicologia, ou que tenham algum conhecimento da natureza das coisas, sabem o quanto somos condicionados por kamma, pelas nossas experiências e por tantas coisas diferentes.

Essas condições na verdade afetam o modo como vemos o mundo e como experimentamos a realidade. Elas também afetam as nossas escolhas e o modo como usamos a nossa vida.

Quando olhamos bem no fundo, podemos ver que as nossas escolhas condicionam as nossas vidas, mas as nossas escolhas não são livres. Há muitas influências que fazem com que façamos as coisas que fazemos.

A maneira que vemos as coisas não é "como elas na verdade são". Muitas pessoas já observaram que vemos, ouvimos e experimentamos aquilo que queremos experimentar e que queremos ver. Essa é a razão porque a nossa realidade difere da realidade da pessoa que está sentada ao nosso lado.

O Ciclo da Delusão

Nós criamos e fazemos a nossa própria realidade, o nosso próprio mundo. Vivemos nesse mundo. Condicionamos esse mundo. Falei brevemente antes sobre a idéia Budista de Deus, especialmente sobre a criação e se os Budistas acreditam no "Big Bang", ou no começo das coisas.

A pessoa que me fez essa pergunta mencionou corretamente que uma das coisas que podemos saber é que existe um criador dentro de nós. Nós criamos o nosso mundo.

O modo pelo qual condicionamos o nosso mundo depende em grande parte de influências externas. As pessoas querem ser livres e falamos muito no ocidente sobre a liberdade, mas se olharmos mais fundo, veremos que aquilo que tomamos como liberdade está preso pelos grilhões do condicionamento. No Budismo, o objetivo é ver esse condicionamento, reconhecê-lo e destruir esses grilhões.

Temos, no Budismo, um ensinamento chamado os dez grilhões. Grilhão é uma boa tradução da palavra, em pali, samyojana. Empregando as idéias da sociedade agrária na Índia 2.500 atrás, yojana significa o colar de madeira usado para unir um par de bois para tração.

Assim é como se uniam os bois para puxar uma carroça. Isso é um grilhão, uma atadura. A idéia no Budismo é reconhecer que estamos atados e depois desatar essa atadura para alcançar um tipo de liberdade que não é reconhecida neste mundo, a liberdade de uma pessoa iluminada.

As pessoas, algumas vezes, pensam que os monges estão unicamente apegados a regras: apegados ao celibato, apegados ao fato de terem poucas coisas e apegados à idéia de serem felizes.

Elas não se dão conta de que se trata da liberdade dos grilhões e da liberdade do condicionamento. As pessoas não se dão conta do que na verdade são esses condicionamentos.

Temos as nossas manchas cegas, aquilo que definitivamente não enxergamos, mas no entanto pensamos que somos livres-pensadores. Pensamos que somos racionais e científicos. Tendo trabalhado com a ciência como físico teórico na Universidade de Cambridge, eu percebi que mesmo ali muitos cientistas não são livres-pensadores. Eles são condicionados.

Muito daquilo que eles fazem está completamente carregado do sistema de valores que eles trazem consigo, e com freqüência eles encontram aquilo que estão querendo encontrar ao invés daquilo que ali está.

Li um artigo num jornal, acerca de um debate, sobre o fato da ciência ou o "método científico" estar ou não livre de valores, em outras palavras, se é subjetivo. O debate dizia respeito à engenharia genética nos alimentos.

Os cientistas diziam serem racionais, que não há nada de errado com a engenharia genética. Outras pessoas diziam que há muitas coisas erradas nisso.

Quem está certo e quem está errado? Os cientistas diziam que as outras pessoas eram completamente irracionais e só enxergavam o assunto através do seu sistema de valores.

Como os cientistas não possuem um sistema de valores, eles vêm as coisas como elas realmente são! A discussão estava encerrada para muitos cientistas e filósofos.

Mas quem diz que a ciência está livre de valores? Existem tantos condicionamentos na ciência que fazem com que somente aquilo que quer ser visto seja visto. Tanto assim que existe um velho ditado na ciência:

‘A eminência de um grande cientista é medida
pelo tempo que ele impede o progresso no seu campo de ação.'

Quanto mais famoso o cientista e mais proeminente ele for, tanto mais as suas idéias serão tomadas como verdades sagradas. Isso significa que um grande cientista é tão eminente que ele ou ela não podem estar errados. Assim eles na verdade obstruem o progresso durante muitos anos porque eles devem estar certos e todos os demais enxergam sob essa perspectiva.

O Buda delineou de modo muito claro todo o processo condicional. Ele explicou que nós vemos o mundo através de lentes coloridas. Ele explicou que aquilo que tomamos como verdade, como real, está muito distante da realidade. Ele chamou esse processo de condicionamento e lavagem cerebral, que provêm principalmente do nosso interior, de vipallasas.

Elas são o aspecto distorcido de todo o processo condicional. Elas são a razão porque aquilo que pensamos saber acaba se revelando incorreto. Alguma vez você tinha absoluta certeza de que estava certo e depois descobriu que estava errado? Isso acontece o tempo todo.
As vipallasas, essas distorções do processo condicional, operam num ciclo, um ciclo de delusão. As nossas idéias - que compreendemos como verdades, como realidade - influenciam as nossas percepções. Basicamente, as nossas idéias influenciam aquilo que escolhemos ver, ouvir e experimentar.

De todas as distintas impressões que a vida nos oferece há muitas coisas das quais você poderia ter consciência neste momento. Você poderia estar consciente daquilo que estou dizendo. Você poderia estar consciente somente da minha aparência.

Você poderia estar consciente de algumas fantasias dando voltas na sua mente. Como você decide ter consciência de uma coisa ao invés de outra? É porque as suas idéias guiam a sua escolha.

Se você sentir raiva de alguém, ou tiver má vontade, você irá encontrar algo neles para justificar aquela má vontade. A pessoa diz, "Tenha um dia maravilhoso hoje", e você pensa "O que diabos ela quer dizer com isso?" É o mesmo processo que a paranóia. Se alguém estiver realmente paranóico, ele poderá pensar que um monge é capaz de ler a mente. O monge diz, "Não, eu não sou," e ele diz "Eu sabia que você ia dizer isso."

Um psiquiatra me disse, faz alguns dias, que você pode apenas aumentar a paranóia, não é possível diminuí-la. Qualquer coisa que se diga, aquela pessoa irá tomar como confirmação da sua idéia. Se você estiver apaixonado por alguém não importa o que ele ou ela faça ou diga. Se ele ou ela enfiarem o dedo no nariz, assim o fazem com tamanho charme. Você pensa, "Eu amo o modo como você faz isso."

A percepção é completamente controlada pelas nossas idéias. Vou ler uma história apenas para ilustrar isso. A história é chamada de "A Perda de Harvard". O presidente da universidade de Harvard cometeu um erro ao prejulgar pessoas e isso lhe custou muito. Uma senhora num vestido de algodão puído, junto com o seu marido vestindo um terno caseiro surrado, chegaram num trem em Boston, Massachusetts, e com timidez foram para o escritório do presidente da universidade sem ter entrevista marcada. A secretária franziu a testa. Num instante ela foi capaz de estabelecer que aqueles caipiras não tinham nada a tratar na universidade de Harvard e provavelmente nem mereciam estar em Cambridge. "Nós queremos ver o presidente" o homem disse com suavidade. "Ele estará ocupado o dia todo" a resposta brusca da secretária. "Nós esperaremos", a senhora respondeu.

A secretária os ignorou por horas na esperança de que o casal finalmente desanimasse e fosse embora, mas eles não foram. A secretária começou a se sentir frustrada e finalmente decidiu perturbar o presidente, muito embora essa fosse uma tarefa que ela sempre lamentava ter de fazer. "Talvez se eles o virem por alguns minutos decidam ir embora", ela disse para o presidente da universidade de Harvard. Exasperado ele suspirou e concordou com a cabeça. Alguém tão importante como ele é óbvio que não teria tempo para gastar com essa gente, mas ele odiava que vestidos de algodão barato e ternos caseiros poluíssem a recepção do seu escritório. O presidente, com austera dignidade expressa no rosto, pavoneou em direção ao casal. A senhora lhe disse, "Nós tivemos um filho que estudou na Harvard durante um ano. Ele amava a Harvard e se sentia muito feliz aqui, mas faz um ano ele morreu num acidente. Então, meu marido e eu gostaríamos de erigir para ele um memorial em algum lugar no campus." O presidente não foi sensibilizado, ele estava chocado. "Madame", disse ele com irritação, "não podemos colocar uma estátua para cada pessoa que estudou na Harvard e que tenha morrido, se fizéssemos isso o lugar pareceria um cemitério." "Ah, não", a senhora rapidamente explicou. "Não queremos erigir uma estátua. Pensamos em doar um prédio para a Harvard." O presidente mexeu os olhos enfadado. Ele olhou para o vestido de algodão e o terno caseiro e exclamou, "Um prédio! Vocês têm alguma idéia de quanto custa um prédio? (Isso aconteceu faz muitos anos). Nós temos mais de sete milhões e meio de dólares em investimentos na Harvard." Por um momento a senhora ficou em silêncio. O presidente ficou satisfeito, ele poderia se livrar deles agora. A senhora se voltou para o marido e disse calmamente, "Se esse é o custo para começar uma universidade, porque não começamos a nossa," e o marido concordou com a cabeça. O rosto do presidente murchou com confusão e surpresa. O Sr. e Sra. Leyland Stanford foram embora, viajaram até Palo Alto na Califórnia, onde estabeleceram uma universidade conhecida como Stanford University que leva o nome deles. Foi um memorial para um filho em relação ao qual a Harvard já não mais se importava.

Não é uma bela história? Só porque aquelas duas pessoas estavam vestidas com roupas simples ninguém percebeu que elas eram milionárias e desse modo elas deram início à sua própria universidade. Não é isso que ocorre com tanta freqüência na vida?

Aquilo que estamos procurando é o que vemos. Essa é a razão porque o Buda ensinou que até mesmo a percepção neutra, já está condicionada. Mesmo aquilo que ouvimos - ou melhor aquilo que escolhemos ouvir - aquilo que escolhemos ver, escolhemos sentir, já foi filtrado pelo nosso condicionamento, pelos nossos apegos, pelos nossos desejos e cobiças. Essa é a razão porque mesmo o ensinamento de Krishnamurti, um tipo de atenção silenciosa, ou não-agir, não seria suficiente para descobrir a verdade genuína. Aquilo que vemos e ouvimos nunca é confiável. Essa é a razão porque algumas vezes quando dou palestras, digo uma mensagem, mas aquilo que vocês ouvem pode ser diferente. Alguma coisa acontece com as palavras que digo antes que elas cheguem na consciência de vocês. Algumas coisas são filtradas! Isso já aconteceu alguma vez com vocês? Vocês alguma vez já disseram uma coisa e foi completamente desentendida? Vocês dizem, "Eu não disse isso", e a outra pessoa diz, "Sim, você disse”. Você disse muitas coisas, mas elas foram filtradas ou retiradas do contexto original. Assim é como surgem os mal-entendidos. Quando começamos a entender o modo como esse processo cognitivo funciona, podemos entender como condicionamos até mesmo as nossas percepções genuínas.

Com essas percepções fabricamos os nossos pensamentos. Esse conhecimento básico que chega na mente quando sentimos, quando vemos, constrói os nossos pensamentos. E esses pensamentos por seu lado confirmam as nossas idéias. Temos esse ciclo de idéias flexionando as nossas percepções para satisfazer os seus propósitos, e essas percepções, novamente flexionando os pensamentos para confirmar as idéias. Essa é a razão porque temos diferentes idéias, filosofias e religiões no mundo. Uma dessas religiões é a ciência. Outra pode ser a psicologia, e outras podem ser o humanismo, o irracionalismo, o agnosticismo ou mesmo o Budismo. Todas essas são diferentes idéias e opiniões presentes no mundo. Aquilo que realmente me interessava quando eu era jovem era a origem dessas idéias e opiniões. Porque pessoas racionais acreditam num Deus que criou este mundo e que ao mesmo tempo criou o Diabo apenas para importunar as pessoas? Isso era muito difícil de entender. Outros pontos de vista, por exemplo, a idéia de condicionamento moldado pelas nossas idéias, pensamentos e percepções, esclarecia como isso estava acontecendo. Aquilo que recebemos do mundo está basicamente condicionado por aquilo que esperamos receber.

Negação (ou Não Aceitação)

Agora vou ler um poema. Ouçam este poema. É sobre o amor por uma mãe e todos sabem que isso é um sentimento maravilhoso.

‘Quando a sua mãe estiver envelhecendo e você estiver envelhecendo,
quando aquilo que antes era fácil e não requeria esforço se tornar um fardo,
quando os olhos, amados e leais, não mais encararem a vida como antes,
quando as pernas se tornarem cansadas e não mais quiserem carregá-la,
então ofereça o seu braço como apoio, acompanhe-a com alegria e felicidade,
porque chegará a hora, em lágrimas, em que você a acompanhará na sua última jornada;

E se ela lhe perguntar algo responda sempre, e se ela novamente perguntar fale assim mesmo,
e se ela mais uma vez perguntar, não responda num tom brusco mas com gentileza, em paz,
e se ela não compreendê-lo bem, explique tudo com bom humor,
porque chegará a hora, amarga hora, em que a boca da sua mãe não mais perguntará.’

Esse é um poema que foi traduzido do alemão, escrito em 1923 por um alemão muito conhecido chamado Adolf Hitler. Você sabia que Adolf Hitler era um poeta e que ele amava muito a sua mãe e que pensava muito no amor que ele sentia por ela? Não! Pois bem, não será porque as nossas idéias são que um homem como esse foi tão ruim e perverso que nunca poderíamos contemplar a idéia de que ele tivesse um lado emocional tão suave?

Quantos de vocês podem imaginar os seus ex-maridos ou ex-esposas como um "Adolf Hitler"? Vocês percebem o que estou dizendo? O processo de condicionamento significa que se pensamos que alguém é um inimigo, então pensamos que eles não prestam. Pensamos que eles são ruins e isso é tudo que vemos. Podemos pensar, "eu não presto", "eu sou ruim", "eu sou horrível", e isso é tudo que vemos. O processo de condicionamento é tão forte que as pessoas algumas vezes ficam tão deprimidas que são capazes de se suicidarem. Ou elas ficam tão convencidas que se tornam egocêntricas e não ouvem ninguém. Tudo isso é apenas o condicionamento operando de três formas. Não pense que você está livre disso. Mesmo agora você não está ouvindo aquilo que estou dizendo mas aquilo que você quer ouvir, aquilo que você espera ouvir. Essa é a dificuldade para os seres humanos, ser capaz de saber a verdade das coisas.

Outro exemplo é o renascimento ou reencarnação. É um assunto fascinante: não se é falso ou verdadeiro, mas porque as pessoas acreditam que seja falso ou verdadeiro. Isso é algo que me fascinou durante anos. Porque é que quando alguém possui alguma recordação de um renascimento e elas se lembram daquilo com clareza, as outras pessoas com freqüência dizem, "Não, não pode ser isso, tem de haver alguma outra explicação"? Ou, porque é que quando algo lhe acontece, você acredita que aquilo se deve a algum acontecimento numa vida passada? Porque as opiniões em cada lado são tão fortes? Eu tenho um interesse especial na razão porque as pessoas se recusam a acreditar no renascimento. Como um cientista ou uma pessoa racional, no mínimo as pessoas deveriam ter a mente aberta. Para mim era algo bastante óbvio, algo com o que eu convivi desde criança. Meus pais não eram Budistas mas o renascimento sempre me pareceu algo tão óbvio. Não sei como adquiri essa idéia, mas ela estava presente. Descobri que nos países do Ocidente, como a Austrália, ou quando vou visitar meus familiares na Inglaterra, existe uma grande resistência contra a idéia do renascimento. Não é que as pessoas tenham mentes abertas; na verdade elas têm as mentes bem fechadas, uma porta trancada contra essa idéia. Quando olhei em profundidade, vi com clareza que as pessoas sentem um forte antagonismo contra a idéia do renascimento. A principal razão pela qual as pessoas temem o renascimento é porque elas não querem renascer. Elas querem apenas viver esta vida e fim. Essa é uma das razões porque as pessoas se recusam até mesmo a considerar evidências claras de que elas tiveram uma outra vida antes e de que irão viver novamente.

Quer seja Budismo, Cristianismo ou Hinduísmo, ou qualquer outra, o renascimento conduz a uma nova vida. Não importa a religião ou a sua crença, a próxima vida sempre depende do que você tenha feito nesta vida. Basicamente, a maioria das pessoas se comporta tão mal que elas têm medo do que lhes possa acontecer na próxima vida. Elas preferem acreditar que não haverá uma nova vida. Elas se recusam a reconhecer uma verdade desagradável! De onde vem essa negação? Novamente, é o condicionamento e a lavagem cerebral, "Eu não quero acreditar que isso seja verdade. Eu não quero ver isso e portanto não vejo."

Outro exemplo vem de uma aluna. Muitos anos atrás, ela estava com um grande problema porque o seu marido estava abusando sexualmente dos filhos. Ele foi para a cadeia. Durante muitos meses ela não foi capaz de ver o que estava acontecendo. Ela era uma mãe carinhosa e esposa dedicada. Como acontece algumas vezes nesses casos terríveis, tudo foi descoberto na escola. Os professores perceberam alguns indícios e ao investigarem descobriram que a situação tinha sido avaliada corretamente e que as crianças estavam sendo vítimas de abuso sexual. A mãe se sentiu muito culpada, mas como pode ter acontecido dela não ter sido capaz de enxergar os indícios? Como monge Budista - que conhece a mente, conhece o condicionamento, conhece a psicologia disso tudo - eu tive que lhe explicar a razão porque ela não conseguia ver aquilo que os outros viam. A situação era tão horrível que no subconsciente ela não queria ver aquilo. Se você não quiser ver algo, simplesmente não será capaz de ver. Não é uma questão de supressão, que é feita às claras. O bloqueio ocorre no nível subconsciente. Ocorre antes que o processo entre na consciência. Já foi filtrado antes disso.

Há um experimento muito interessante que foi feito faz alguns anos na universidade de Harvard. Os psicólogos projetaram imagens instantâneas numa tela e pediram aos estudantes voluntários que escrevessem o que eles pensavam que as imagens representavam. A projeção foi tão rápida que no início eles não eram capazes de perceber do que se tratava. Pouco a pouco o tempo de exposição foi aumentado até que eles pudessem registrar alguma idéia do que se tratava. Então o tempo de exposição foi aumentado ainda mais de modo que os estudantes pudessem registrar se a imagem era aquilo que eles pensavam, até que o tempo de exposição foi longo o suficiente para que eles pudessem dizer com certeza do que se tratava.

O resultado pode ser ilustrado com um exemplo. A imagem projetada era de um lugar bastante conhecido no campus, um lance de escadas que levava a um dos prédios administrativos. Havia uma bicicleta ao lado dos degraus. Um estudante viu aquilo como um navio no oceano, mas como a imagem foi projetada por tão pouco tempo, foi apenas um palpite. No entanto, uma vez que aquela idéia entrou na sua mente, quando o tempo de exposição foi sendo aumentado gradualmente, ele ainda assim, a cada vez, viu um navio no oceano. Ele viu um navio mesmo quando todos os demais foram capazes de enxergar que se tratava daquele lugar no campus. Ele insistiu que era um navio no oceano até que o tempo de exposição foi tão longo que ele por fim acabou vendo e corrigindo o seu erro. A lição foi que uma vez que uma idéia tenha sido formada, ela interfere tanto com as nossas percepções que mesmo estando a imagem na frente do nariz, não somos capazes de vê-la. Vemos de um modo diferente daquilo que na verdade é.

Uma das imagens no experimento custou muito trabalho para que os estudantes identificassem; era uma fotografia de dois cães copulando. Era uma imagem tão obscena ou desagradável de ser vista que os estudantes simplesmente negaram a sua existência, uma vez, outra vez, outra vez, até que por fim estava tão óbvio que tiveram de enxergar o que era na verdade. Essa é uma sólida evidência daquilo que o Buda chamava de distorções do nosso processo cognitivo. Muito embora pensemos que sabemos aquilo que o nosso parceiro está dizendo, muito embora pensemos que sabemos quem ele/ela é, com muita freqüência estamos errados. Isso ocorre não somente no relacionamento com os outros, mas também no relacionamento conosco mesmo.

Vendo a Verdade e a Realidade

Particularmente, quero mencionar a relação com a verdade. Será o Budismo apenas mais uma crença condicionada como todo o resto, sem qualquer maior legitimidade do que a ciência ou qualquer outra religião? Não existe uma verdade? Será tudo relativo de acordo com o nosso condicionamento? Em outras palavras, como podemos romper esse modo condicionado de ver e perceber? Lembremos que o motivo porque flexionamos as nossas percepções, pensamentos e idéias é devido ao desejo. Nós vemos e ouvimos aquilo que desejamos ver e ouvir, e negamos aquilo que não desejamos ver, ouvir ou sentir. É o desejo que é o problema. É o desejo que condiciona o nosso afastamento da verdade.

O Buda se tornou um Iluminado abrindo mão de todo desejo. Ao invés de desejar ver o universo de um modo particular, ou desejar ver a si mesmo de algum modo particular, ele superou todo esse desejo ou cobiça. Isso não é algo fácil de ser feito. É chamado de "abrir mão", aquietar. O sinal do desejo é o movimento. O sinal do apego é não ser capaz de abrir mão. O sinal do ego é o controle. É por isso que encontramos tudo isso na meditação: desejos, apegos e controle, repetidamente. Essas coisas nos impedem de ver a verdade e a realidade. Temos que abrir mão por completo de todo desejo e cobiça, temporariamente, na nossa meditação.

A maioria de vocês meditou por apenas meia hora. No final da meditação eu lhes disse para verem como se sentem, para analisarem aquilo que funciona e o que não funciona na meditação. Esse é um exercício de superação do condicionamento. É verdadeiramente uma limpeza da mente de todos os seus condicionamentos, todos os seus desejos, todos os anseios de ver as coisas de um modo ou de outro. É abrir mão de tudo isso, abrir mão de todas as idéias, porque estas são os tijolos e a argamassa do condicionamento. Vocês já perceberam que quando nos deparamos com alguma coisa, nós a interpretamos com os pensamentos? De onde vêm todos esses pensamentos? Porque vemos aquilo deste modo e não de um outro modo? A razão é o nosso condicionamento.

Alguns dias atrás alguém deu para os monges um refresco no que parecia ser uma garrafa de vinho. Parecia vinho, mas não era vinho; não continha álcool; era apenas um refresco. Esse incidente fez com que os monges conversassem sobre álcool e ingestão de bebidas alcoólicas. Os outros monges contaram sobre experiências que eu também tive na minha juventude, quando pela primeira vez fui a um bar na Inglaterra para tomar o meu primeiro copo de cerveja. Minha primeira reação foi, "Esse negócio é horrível; como pode alguém bebê-lo? Porque as pessoas gastam tanto dinheiro bebendo esse tipo de coisa?" Essa primeira percepção provavelmente foi verdadeira; a cerveja amarga era nojenta. Mas, passado algum tempo, eu comecei a gostar. Eu fiquei me perguntando o que teria acontecido. Porque foi que quando provei a cerveja pela primeira vez foi horrível e depois quando eu tinha dezoito ou dezenove anos, eu estava bebendo muito daquilo? Eu vi que o motivo foi porque beber cerveja era aceito socialmente e todos diziam que era delicioso. Eu recondicionei os meus sentidos para gostar daquilo. Como a sociedade dizia que era delicioso, aquilo se tornou delicioso. Eu gostava porque queria gostar. Isso é tudo.

Também vi isso com a arte moderna. O que há de belo na arte moderna? Alguém me contou que houve um artista na França que convenceu uma galeria de arte a montar uma exposição sua. Eram apenas molduras vazias numa parede vazia. Aquilo foi uma afirmação; ele vendeu os quadros por milhares de dólares. Você alguma vez já viu isso acontecer no mundo? O que foi isso que acabamos de ouvir? Foi um belíssimo som ou o ruído incomodativo de um telefone celular? Não é o nosso condicionamento que faz com que vejamos de um modo particular? Se sabemos que a mente é condicionada, porque não condicioná-la de um modo sábio que gere felicidade? Se for um telefone celular você terá duas opções. Você poderá dizer, "Esse é um som muito agradável, muito musical, não como os telefones antigos, 'ring, ring, ring, ring'. Pelo menos nestes dias temos um pouco mais de charme." Ou você poderá dizer, "Não se deveriam permitir telefones celulares aqui. Quem fez isso? Vou falar com eles mais tarde. Deveríamos expulsá-los da Sociedade Budista. Não vamos mais permitir a entrada deles aqui." Então, qual resposta você prefere? Vocês podem ver como nos condicionamos?

Uma vez que saibamos como o condicionamento funciona podemos nos condicionar com a compaixão e a felicidade. Uma das primeiras coisas que podemos fazer é dizer, "Bem, eu tenho escolha. Posso desenvolver o condicionamento positivo ou o condicionamento negativo. Posso olhar para uma pessoa e ver as suas qualidades positivas ou posso olhar para a mesma pessoa e ver as suas qualidades negativas. Ambas estão ali." Desde que me tornei monge, eu me condicionei ao longo dos muitos anos a ver nas pessoas as suas boas qualidades, tanto assim que sou advertido pelas pessoas para ser um pouco mais crítico. Mas agora não posso fazer isso. O condicionamento é demasiado forte. As pessoas no monastério, ou os monges com os quais convivo, algumas vezes fazem coisas erradas. Outro dia, enquanto eu estava fora, houve uma discussão com algum rancor sobre uma decisão a respeito dos livros no nosso monastério. Conversei com uma das pessoas - que estava se sentindo muito ofendida - e disse, "Veja bem, eu não posso me sentir ofendido por nenhum dos monges neste monastério. Eles são pessoas tão amáveis e boas. Nós sabemos que nem todos são iluminados e que todos nós também temos qualidades ruins." Eu estava sendo absolutamente honesto. Eu não consigo ficar irritado com nenhum dos monges no monastério, não importa o que eles façam, porque eu vejo neles muitas coisas boas. Mesmo as pessoas que vêm ao Centro Budista, não importa o que vocês façam, vocês possuem tantas boas qualidades. Assim é como o meu condicionamento funciona agora. Quando você percebe as qualidades boas numa pessoa é impossível ficar irritado ou aborrecido com ela. Vocês todos são meus amigos e se eu os vejo dessa forma é muito difícil enxergar outra coisa. Se você tentar fazer alguma coisa para me ferir, eu diria, "Não, não, eu me lembro de todas as coisas boas que você fez."

Porque é que quando alguém diz alguma coisa para irritá-lo, só isso é lembrado? Nunca nos lembramos de todas as gentilezas que nos foram feitas, todas as palavras gentis que nos foram ditas. Eu sou o oposto. Esqueço todas as coisas desagradáveis que as pessoas disseram a meu respeito e só me lembro das coisas boas. Qual dos dois é mais verdadeiro? Ambos são igualmente errados. Mas eu escolho aquele que é errado, porém feliz. É interessante que esse tipo de condicionamento - ver o lado positivo, ver a felicidade, o positivo em você mesmo, a felicidade na vida, a felicidade nas outras pessoas - também é o caminho que conduz ao descondicionamento e ao incondicionado, a ver as coisas com clareza.

Quando você cultiva a felicidade na sua vida - livrando-se da negatividade e da má vontade em relação a si mesmo e aos outros - isso proporciona espaço suficiente para estar em paz. Estar em paz significa abrir mão dos desejos. Uma vez que você se sinta satisfeito no momento presente, então existe a oportunidade para abrir mão do desejo e estar em paz. Esse é o caminho ensinado pelo Buda. Tendo uma atitude positiva em relação à vida, cultivando a felicidade na mente, a mente se torna pacífica e tranqüila. Com essa tranqüilidade, quando os desejos e cobiças são subjugados temporariamente, você começa a ter clareza mental – a não ver as coisas como você quer vê-las, mas como elas na verdade são. Você só será capaz de fazer isso a partir de um estado de tranqüilidade e felicidade.

É parecido com um truque para fazer com que você se sinta muito feliz e em paz. Lendo os suttas eu percebi que assim é como o Buda ensinava. Ele despertava o interesse nas pessoas falando sobre coisas do dia a dia e depois, quando ele percebia que a audiência estava realmente ouvindo e que estavam se sentindo felizes, então ele comunicava o ensinamento. Ou como disse um monge Tibetano, quando todos estavam rindo com as bocas abertas, então ele colocava o remédio. O remédio é a quietude e a paz, porque descobrimos que aqui não há ninguém, anatta, não-eu. Descobrimos que aquilo que considerávamos livre escolha é completamente condicionado. Você pensa que está controlando tudo. Você pensa que escolheu vir aqui. Você pensa que decidiu tossir ou mover o seu braço deste modo ou daquele modo. Eu analisei as minhas escolhas, a minha vontade, durante muitos anos, estudando aquilo que era condicionado e o que tinha origem no meu eu, e descobri que tudo era condicionado. É por isso que repito sempre as mesmas piadas, não posso fazer nada. Não sou eu, é o condicionamento.

Onde a Vontade Cessa

Já faz muitos anos que venho dando palestras em Perth. Alguns anos atrás, sucedeu algo comigo; eu tive uma experiência que me deixou profundamente chocado. Foi uma dessas experiências fortes. Isso aconteceu antes deste Salão do Dhamma ter sido construído. Costumávamos dar as palestras do Dhamma no centro comunitário vizinho e a nossa biblioteca estava no que é hoje a recepção. Um sábado pela manhã, eu estava dando uma olhada nas fitas de áudio e vi uma fita K7 de uma palestra que havia sido dada fazia sete anos. Era o mesmo tema da palestra dada na noite anterior. O que havia sido dito na noite anterior ainda estava fresco na minha memória e pensei em comparar as duas palestras para ver o quanto tinha mudado em sete anos. Queria ver se a palestra dada na noite anterior tinha diferenças marcantes daquela dada há sete anos. Quando ouvi aquela fita, senti calafrios na espinha. Percebi que eu estava repetindo parágrafos inteiros quase que palavra por palavra depois de sete anos de intervalo entre as duas palestras. Na noite anterior eu realmente pensei que estava escolhendo cada palavra com completa liberdade de escolha e que a minha interpretação e percepção eram novas, mas a coincidência foi demasiada. Se eu realmente tive livre escolha porque o resultado foi o mesmo, parágrafo por parágrafo? Isso me mostrou que aquilo que eu pensava ser livre, não era livre de jeito nenhum, mas completamente condicionado.

Isso realmente me afetou porque abalou o meu sentido de eu, meu sentido de vontade, meu sentido de direção no mundo. Quem na verdade estava mexendo os pauzinhos? Quem decidia e fazia as escolhas? Isso me assustou muito, mas também me deu uma intuição que fui capaz de seguir e que me conduziu a uma meditação profunda. Quando não resta ninguém, quando não há mais volição, quando as escolhas cessam e têm fim, aí é que podemos na verdade entender algo sobre o incondicionado.

Muitas pessoas têm dificuldades em aceitar a idéia do não-eu porque o nosso condicionamento não nos permite ver isso. As pessoas têm muita dificuldade com o ensinamento do Buda sobre o sofrimento, dukkha. Porque? Porque elas não querem admitir que a vida é sofrimento. A idéia de monges celibatários é muito difícil. Nós ainda queremos ter os nossos relacionamentos sexuais. Os artigos nas revistas, escritos por pessoas que estão tentando ter sexo e realizar a iluminação ao mesmo tempo, parecem não ter fim. Isso é o que as pessoas querem. Como diz o velho ditado, "elas querem comer o bolo e guardar o bolo ao mesmo tempo." Não é possível guardar o bolo e comê-lo ao mesmo tempo. O que o velho ditado quer dizer é que se você comer o bolo não haverá mais bolo. Você não pode guardar o bolo e consumi-lo também. Você pode ter uma coisa ou outra. Com freqüência quando digo isso as pessoas ficam chocadas. "O que você quer dizer, o celibato é necessário para a iluminação?" Eu digo, "Sim, isso é verdade", e elas dizem, "Com certeza não é assim," dando voltas e contorcendo-se, inconformadas.

Isso que eu disse provavelmente é algo com que vocês não irão concordar. Porque essa idéia vai completamente contra as suas percepções. Tomando conhecimento dessa idéia, os pensamentos a rejeitam. Vocês estão presos a esse ciclo. Mas e o Ajaan Brahm, ele não está aprisionado ao seu ciclo de idéias e percepções e pensamentos? Esse não seria também um condicionamento de monge? A única maneira de descobrir essas coisas é abrindo mão de todas as idéias e noções pré- concebidas - fazer com que a mente fique tão vazia e quieta que você possa na verdade ver as coisas como elas são realmente e não através dos olhos de um monge. Ver as coisas não através dos olhos de um homem ou mulher envolvidos na sexualidade, não através dos olhos de um Oriental ou Ocidental. Mas ver as coisas vazias de todos esses rótulos e pontos de vista, abrir mão um tanto que todas essas idéias, pontos de vista, pensamentos e sentimentos desapareçam por completo. Você quer saber como isso se chama? É chamado jhana, meditação profunda.

O que você tem de fazer para ser capaz de ver a verdade é chegar sorrateiramente, silenciosamente, invisível. Essa é a única forma de superar o condicionamento. No Budismo dizemos que os cinco obstáculos - desejo sensual, má vontade, inquietação e ansiedade, preguiça e torpor, dúvida - são aquilo que nos impedem de ver com clareza. Basicamente, o desejo sensual e a má vontade são os dois principais obstáculos. Eles só são superados naqueles estados meditativos profundos chamados jhanas. Os místicos, as pessoas que meditam e penetram estados profundos da mente, superam todos os seus condicionamentos temporariamente. Eles abrem mão de tudo que foram ensinados, tudo que eles alguma vez pensaram, tudo que possa ser verdade ou não, e aí, eles podem ver a realidade independente da condicionalidade. Aquilo que eles vêm não é o que eles esperam encontrar. Todos os insights profundos e a sabedoria iluminadora irão sempre causar um choque profundo, e eu realmente quero dizer um choque profundo. O que você não espera, aquilo que você não consegue imaginar é que é a verdade.

É por essa razão que toda intelectualização imaginável e cogitação não podem nunca chegar na verdade. Todo movimento da mente não chega ao objetivo. Só quando a mente estiver em silêncio, em profunda quietude, você poderá entender a verdade. Você compreenderá, particularmente, a natureza da mente, a natureza da felicidade, e só então você será capaz de ter um lampejo daquilo que no Budismo chamamos de "incondicionado." Somente quando se abre mão de tudo - tudo que foi aprendido, tudo que se esperava, tudo que foi descoberto ou que não se quer descobrir – é que a verdade é vista. Esse é o caminho para a iluminação. Essa é a razão porque todos os seres iluminados que conheci na minha vida, pessoas como Ajaan Chah, eram totalmente imprevisíveis. O condicionamento simplesmente não estava mais presente. Por essa razão, mesmo observando essas pessoas durante muitos anos, elas ainda assim nos surpreendem. Esse foi sempre o indicador de uma pessoa muito sábia. Ao invés de sempre agir com base no condicionamento elas são inovadoras incríveis, fazendo as coisas de um modo inesperado. Essa era uma das coisas surpreendentes em Ajaan Chah; você sempre tinha que estar de sobreaviso porque nunca poderia imaginar o que ele iria fazer. Ele sempre causava um choque, num instante rasgando-o em pedaços por fazer algo que você pensou ser irrelevante e em seguida oferecendo-lhe uma xícara de chá ou mandando uma xícara de chá especialmente para você. Com esse grau de "estar além das condições," não se sabia o que ele faria ou porque. Isso é o que queremos dizer com superar as condições.

Portanto, a moral da história é que, o quer que seja que você pense ser a verdade, você está enganado. Aquilo que você pensa ser correto não captou o essencial. Você pensa que tem controle dessas coisas, mas não tem. Mas você nunca será capaz de aceitar isso. É horrível demais. Veja por exemplo nibbana. As pessoas possuem idéias estranhas com relação a nibbana. Mas essas idéias na verdade não são nibbana, elas são apenas aquilo que as pessoas querem que nibbana seja. O que você quer que nibbana seja? É isso que você acreditará que nibbana é. Por essa razão, algumas vezes ensino aos monges que nibbana é a completa cessação, tanto assim que os monges chamam isso o buraco negro de Ajaan Brahm. Tudo é "chupado para dentro" e não sobra nada.

Os monges perguntam, "Porque você faz isso? É esse o objetivo, o objetivo disso tudo é alcançar o completo suicídio espiritual, mental e físico, com tudo cessando?" As pessoas querem desfrutar de nibbana quando este ocorrer. A cessação é muito difícil de ser compreendida e aceita pelas pessoas. Mas eu digo que essa é a verdade. Como você interpreta isso? Você vai ter que descobrir por si mesmo! O Buda disse que os Budas só indicam o caminho. Eles indicam o caminho mas é cada um de nós que tem de caminhar por si mesmo.

Se você quiser descobrir o quanto você é condicionado, o quanto você foi completamente submetido à lavagem cerebral, então desenvolva meditações profundas e tenha a coragem de ficar chocado. Tenha a coragem de abrir mão de tudo incluindo o seu ego e o eu. Tenha esse grau de força pois somente os fortes alcançam a Iluminação. Não estou falando de força no corpo; estou falando sobre os corajosos dispostos a abrir mão de tudo em nome da verdade. Assim é como o condicionamento e a lavagem cerebral são superados, e finalmente a liberdade é conquistada. As pessoas neste mundo pensam que a liberdade é ser capaz de fazer o que elas quiserem, mas a cobiça, a raiva e a delusão as estão controlando. Elas não estão livres. Se vocês realmente quiserem a liberdade, superem esses condicionantes e vejam a realidade. Ela os surpreenderá, mas a verdade da Iluminação é muito agradável.







Fonte: Palestra no Dhammaloka Buddhist Centre no dia 7 de Julho de 2000. Publicada no livro "Simply this Moment".
As Diversas Graduações da Visão Clara


Ajaan Brahmavamso




Meditação é o caminho para a renúncia. Primeiro você renuncia a todas as percepções de tempo para entrar no momento presente que é atemporal. Aí você abandona o diálogo interno para ficar tranquilamente no estado de atenção silenciosa.

Em seguida, você abandona a maior parte da atividade dos seus cinco sentidos só mantendo a atenção na sua respiração. Depois você abandona a sua respiração e fica observando o seu desaparecimento.

Nesse estágio, você não pode mais ver, ouvir, sentir, degustar ou sentir o tato. Parece que o seu corpo desapareceu e no seu lugar você está ciente de uma linda luz, o nimitta. O nimitta é um reflexo da citta, (mente), vista através do sexto meio dos sentidos. Daí você abandona todo o controle para ser absorvido pela luz e entrar no êxtase do mundo do jhana. Assim, os jhanas acontecem automaticamente quando você realmente renuncia; eles são descritos como estados profundos de renúncia, abandono.

O Buda, repetidas vezes e de modo muito claro, afirmou que a plena iluminação não pode ser alcançada sem a experiência dos jhanas. No entanto, na atualidade, alguns mestres afirmam que o grau de desapego proporcionado pelos jhanas é desnecessário.

Com freqüência, o Bahiya Sutta (Udana I.10), é mencionado como evidência disso. Bahiya não era um bhikkhu. O sutta não registra que ele praticasse a generosidade, ou que tivesse tomado refúgio na jóia tríplice, ou que observasse os preceitos de virtude.

Além disso, o sutta não dá nenhuma indicação de que Bahiya praticasse a meditação, quanto mais experimentar os jhanas. No entanto, depois de receber um breve ensinamento do Buda, Bahiya se iluminou tornando-se um arahant, numa questão de segundos!

Este episódio é bem conhecido nos círculos Budistas porque dá a impressão que a iluminação é tão fácil. Parece que não é necessário ordenar-se como bhikkhu, que a pessoa pode ser egoísta e não praticar a generosidade, que não é necessário tomar refúgio ou observar os preceitos e que até mesmo a meditação pode ser evitada! Que alívio! Só a inteligência é necessária. (Todos sabemos que somos inteligentes, não é mesmo?). Isso torna a realização de Bahiya atraente e notória.

Então, qual foi o contexto desse ensinamento? Aqui vai a minha própria tradução:

Bahiya, você deveria se treinar assim: no visto haverá somente o visto; no ouvido haverá somente o ouvido; no sentido [1] haverá somente o sentido; no conscientizado haverá somente o conscientizado. Praticando desta maneira, Bahiya, você não será “por causa disso”. Quando você não é “por causa disso”, você não está “nisso”. E quando você não está “nisso”, então, você não estará nem aqui, nem além, nem entre os dois. Exatamente isso é o fim do sofrimento.

E então Bahiya se tornou iluminado. Parece fácil, não é? Você acabou de ler o mesmo ensinamento. Você conseguiu se iluminar? Não?! Porque não?

Como ocorre com freqüência, a história do sutta registra apenas os pontos principais de um longo episódio. Da mesma forma que as fotos de um casamento não registram o primeiro encontro, o namoro, as brigas e discussões, muitos suttas não registram tudo o que aconteceu antes.

Então qual é a história completa de Bahiya? Como podemos encaixar o final, retratado para a posteridade neste sutta, no seu contexto apropriado? Felizmente, toda a história está registrada no Apadana (histórias dos Budas e dos seus principais discípulos) e nos comentários.

Numa de suas vidas passadas, Bahiya havia sido um bhikkhu sob o Buda Kassapa. Ele e mais seis outros bhikkhus escalaram uma montanha íngreme e jogaram a escada fora, determinados a permanecer no topo da montanha até que alcançassem a iluminação ou morressem.

Um dos bhikkhus se tornou uma arahant, outro um anagami e os cinco restantes morreram na montanha sendo que Bahiya era um desses cinco. Na sua última vida, Bahiya havia sido um marinheiro muito viajado e que acabou naufragando e alcançando a terra firme tendo perdido todas as suas posses e roupas. Ele se vestiu com cascas de árvores e passou a esmolar alimentos numa cidade chamada Supparaka. As pessoas da cidade ficaram impressionadas com a aparência e modos de Bahiya oferecendo-lhe um modo de vida confortável, e assim ele não regressou ao seu ofício de marinheiro. As pessoas consideravam Bahiya um arahant e Bahiya pensava da mesma forma.

Nesse ponto um deva se deu conta do que Bahiya pensava e por compaixão o repreendeu. Esse deva era o seu antigo companheiro na montanha que havia falecido como um anagami. Ele relatou a Bahiya que havia um verdadeiro arahant, o Buda, que se encontrava no outro lado da Índia, em Savatthi. De imediato Bahiya saiu de Supparaka, (Sopara na atualidade, situada ao norte de Mumbai), levando uma noite para chegar em Savatthi.

Bahiya encontrou o Buda, que estava esmolando alimentos, e pediu que ele lhe desse um ensinamento. O Buda primeiramente se recusou, pois ele vinha numa hora não apropriada. Mas ao ouvir o pedido pela terceira vez, o Buda interrompeu a esmola de alimentos e deu o famoso ensinamento que apresentei acima. Segundos depois de ouvir esse Dhamma, Bahiya se iluminou. Alguns minutos mais tarde, o arahant Bahiya foi morto por uma vaca com seu bezerro.

Portanto, as circunstâncias de Bahiya eram excepcionais. Ele havia sido um bhikkhu sob o Buda anterior, Kassapa. A sua determinação era tão forte que ele foi para a montanha com o objetivo de se iluminar ou morrer. Na sua última vida ele podia ouvir os devas e foi capaz de percorrer cerca de 1.300 km numa noite. Se tivéssemos uma história como esta e os mesmos poderes supra-humanos de Bahiya, então talvez só de ler o discurso estaríamos iluminados também.

Usualmente, uma pessoa necessita de samadhi produndo – jhanas - para atingir poderes supra-humanos como esses. Levando-se em conta a sua vida passada, seguramente Bahiya deve ter tido uma predisposição para a meditação. Além disso, ambos os poderes supra-humanos, do “ouvido divino”, que o capacitou a ouvir o deva, e o outro que fez com que ele viajasse tão rápido, sugerem ter ele sido praticante de jhana antes de ouvir o deva. Talvez essa fosse uma outra razão porque ele se considerava um arahant. Mas há outras evidências que sugerem que Bahiya praticava os jhanas, embora isso não esteja mencionado nos textos.

Poucas pessoas sabem que o mesmo ensinamento deste sutta também foi dado pelo Buda para o bhikkhu ancião Malunkyaputta, (SN XXXV.95). Malunkyaputta aparece várias vezes nos suttas. Particularmente no MN 64, que com certeza relata um evento anterior ao que Malunkyaputta recebeu o ensinamento igual ao de Bahiya. O Buda primeiro menospreza Malunkyaputta pelo seu entendimento incorreto e aí o ensina sobre a necessidade de atingir pelo menos um dos jhanas para destruir os cinco primeiros grilhões [2] (e assim, atingir o nível daquele que não retorna). O Buda disse na frente do Malunkyaputta que era impossível atingir o nível de anagami (quanto mais a iluminação completa), sem um jhana, assim como era impossível alcançar o cerne de uma árvore sem primeiro passar por sua casca e pelo alburno. Pense nisso.

Assim, o Venerável Malunkyaputta foi primeiro ensinado sobre a necessidade de jhana e então mais tarde ele recebeu o ensinamento igual ao de Bahiya. Depois de ouvir esse ensinamento, “permanecendo só, isolado, diligente, ardente e decidido,” Malunkyaputta logo se tornou um arahant. É certo, no entanto, que ele atingiu jhana antes que o ensinamento de Bahiya pudesse ter seus efeitos ou o Buda teria sido flagrantemente inconsistente. Isso também adiciona peso à inferência de que Bahiya teria também experiência em jhana antes de ter ouvido o mesmo ensinamento – pois do contrário ele teria atingido o cerne da árvore sem passar pela sua casca e alburno!

Distorcendo o Entendimento

Então, o que fez Bahiya e Malunkyaputta verem nas palavras do Buda que gerou a experiência de arahant? Qual é o significado de “no ver haverá somente o visto”?

Isso quer dizer ver sem nenhuma distorção dos dados, sem adicionar ou subtrair nada. Como a moderna psicologia entende, o que chega até nós como “o visto” já foi filtrado e distorcido pelos nossos desejos e aversões. Esse processo de distorção ocorre antes do evento da cognição. É impossível ver esse processo enquanto ele ocorre. É subconsciente. Podemos apenas inferir a sua ocorrência: descobrimos que as nossas preferências embelezaram os dados para apresentar para a nossa mente o que nós queremos ver, enquanto a hostilidade negou qualquer acesso para a mente daquelas características que nós não queremos ver. O que nós vemos raramente é puramente o visto. Aquilo que nós vemos com a assim chamada atenção plena, não baseada no jhana, quase nunca é a verdade. Não é como as coisas são; é só como as coisas parecem ser.

Nós deveríamos ser suficientemente experientes para saber isso. Quando vocês homens vêem uma mulher bonita, o que é que vocês vêem? A maioria das pessoas, mesmo os bhikkhus, não vêem o que está ali realmente – só músculo, tendões, pele e cabelo – eles vêem, ao invés disso, uma mulher atraente. De onde vem isso? Nosso desejo sexual adicionou isso, distorcendo a realidade. Quando você vê o corpo recém-falecido da sua mãe, o que você vê? Novamente, você não vê o que está ali na verdade – só músculo, tendões, pele e cabelo. Ao invés disso, você vê uma tragédia, porque o seu apego adicionou uma profunda tristeza, distorcendo a realidade.

No nordeste da Tailândia, há muitos anos atrás, nos monastérios pobres no meio de florestas isoladas, eu tive de comer gafanhotos, sapos, formigas e outros insetos rastejantes. Isso era tudo que havia para comer. Um prato comum era guisado de ovo de formiga. Quando você ler isso agora, você estará praticando “no visto haverá apenas o visto” ou você acrescentou seu próprio nojo? Gafanhotos fritos eram na verdade muito apetitosos. Quanto dos nossos próprios gostos e desgostos nós adicionamos ao visto?

Vinte e cinco séculos antes da moderna psicologia o Buda identificou o processo que distorce a cognição e chamou-a de vipallasa.[3] Ele explicou esse processo essencialmente circular começando do nosso entendimento. Nossas opiniões modificam as nossas percepções para concordarem com as nossas idéias. As percepções então formam a evidência para os nossos pensamentos. Aí os nossos pensamentos argumentam em favor das nossas idéias. É um ciclo que se auto-justifica. Idéias geram percepções que criam pensamentos que apóiam as idéias. Esse é exatamente o processo da delusão.

Por exemplo, alguém acredita em Deus. Ela tem uma concepção teísta. Essa concepção nega acesso para a mente de qualquer percepção que desafie essa concepção. Fatos científicos, como aqueles dos campos da astrofísica, física quântica, geologia e bioquímica, se tornam percepções sem acesso. Elas são rejeitadas antes mesmo de entrar na consciência porque elas são antiéticas para a concepção. Somente percepções que apóiem e se harmonizem com a concepção de Deus sobrevivem ao processo de filtração subconsciente. Essas percepções pró-Deus então formam os dados com os quais os nossos pensamentos trabalharão. Os dados são convincentes; eles confirmam as nossas concepções. Nós nos tornamos convencidos de que existe um Deus e nossa opinião fica cada vez mais resistente à contestação. Assim é a origem e progresso de muitas religiões, que estão completamente convencidas de que elas estão certas. Elas tomam erroneamente as coisas como elas parecem ser por como elas são.

Ou tome o debate sobre o aborto. Você é “pró-vida” ou “pró-escolha”? Qualquer uma dessas duas idéias corromperá a sua percepção através da seleção das percepções que apoiarão a sua idéia cegando a sua consciência para quaisquer outras percepções que a contestem. Seu pensamento será construído a partir das suas percepções, da mesma maneira que uma casa é construída de tijolos. Esse pensamento mal informado justifica sua idéia tão poderosamente que você simplesmente não pode entender porque todas as demais pessoas não vêem isso de modo correto, que é o seu modo!

Um último exemplo: Pergunte-se se a meditação é fácil para você. Se você pensar que meditação é difícil, e você estiver muito apegado a essa idéia, então meditação parecerá difícil. De onde vem essa opinião? Talvez, há muito tempo atrás, alguém com autoridade falou para você que meditação era difícil e você acreditou. Infelizmente, essa opinião permaneceu. Ou talvez, você começou a meditar sem uma instrução clara e precisa e daí você passou a achá-la difícil. Com base numa experiência limitada você formou uma opinião sólida, meditação é sempre difícil. E apesar disso, essa opinião surgiu, e uma vez lá, ela faz com que a meditação seja difícil! Seu apego a essa opinião distorce as suas percepções. As únicas percepções que acabam se tornando conscientes são aquelas que percebem as dificuldades da meditação. Baseado nessas percepções negativas, você pensa que meditação é de fato difícil. Você, e somente você, fez a meditação se tornar difícil!

Quando nós temos algum entendimento do que está acontecendo, nós temos a possibilidade de mudar essa opinião a respeito da meditação. Permita-me fazer uma lavagem cerebral em você! Deixe-me convencê-lo de que, apesar de quem disse o que, apesar de toda a sua falta de sucesso, MEDITAÇÃO É FÁCIL! MEDITAÇÃO É FÁCIL! Deixe-me fazê-lo acreditar que você pode meditar bem. Nesta vida você renasceu com um corpo humano precioso e está agora lendo os ensinamentos do Budismo, que não têm preço. Você está vivendo numa época em que o Dhamma está prosperando e você foi capaz de encontrar esse Dhamma maravilhoso. Você é um ser muito raro. Você trabalhou durante muitas vidas para ter uma oportunidade como essa. Com tantas coisas passadas a seu favor, é claro que você será capaz de meditar bem. O fato de você estar lendo isto prova que você tem um enorme estoque de kamma bom apoiando-o. Outras pessoas, muito menos capazes do que você atingiram jhana, então por que não você! Uma vez que você tenha criado uma opinião positiva da sua habilidade para a meditação – rapidamente – você perceberá só sucesso na meditação. Você acabou de tornar a meditação uma coisa fácil! Você abriu a porta para a tranqüilidade, felicidade interior e para os jhanas. Tente!

Descobrindo a Verdade

O ponto é que a idéia de que meditação é difícil para você ou que a meditação é fácil são ambas erradas. Elas são o produto de uma distorção daquilo que é visto, ouvido, sentido e conscientizado.

Ambas são delusão. Só que a idéia positiva é a delusão mais proveitosa. Na realidade, é a idéia que o levará a descobrir a verdade.

O Buda explicou que são os cinco obstáculos que distorcem a percepção e corrompem o nosso pensamento. Ele chamou de cinco obstáculos o alimento que sustenta a ignorância (AN X.61). O primeiro obstáculo, desejo sensual, seleciona o que nós queremos ver, ouvir, sentir e conscientizar. Ele sempre embeleza a verdade. Ele apresenta para a nossa consciência o produto do nosso desejo. O segundo obstáculo, má vontade, é o impulso negativo que nos impede de ver, ouvir, sentir ou conscientizar o que nós não queremos saber. Ele nos cega para o que é desagradável e para o que é contrário à nossa opinião. A psicologia conhece o segundo obstáculo como o processo de negação da realidade. O terceiro obstáculo é a preguiça e o torpor. Esse não distorce o que vemos, ouvimos, sentimos ou conscientizamos; ao invés, ele enterra tudo num nevoeiro de modo que somos incapazes de discernir claramente. O quarto obstáculo, inquietação e ansiedade, mantém os nossos sentidos se movendo rapidamente, tão rápido que não temos tempo suficiente para ver, ouvir, sentir ou conscientizar completamente. A visão não tem tempo de se formar completamente na nossa retina, pois ela já tem uma outra imagem no seu background com a qual lidar. Os sons são escutados com dificuldade quando nos pedem para escutarmos algo. O quarto obstáculo, inquietação e o seu caso especial, ansiedade, (inquietação interior devido a uma má conduta), é como o chefe ultra-exigente no seu escritório, que nunca lhe dá tempo suficiente para terminar um projeto adequadamente. O quinto obstáculo, dúvida, é aquele que interrompe a coleta de dados com perguntas prematuras. Antes que tenhamos experienciado completamente o visto, o ouvido, o sentido ou o conscientizado, a dúvida interfere no processo, como um estudante arrogante interrompe o professor com uma pergunta no meio de uma palestra. São esses 5 obstáculos que distorcem a percepção, corrompem o pensamento e mantêm a opinião deludida.

É bem conhecido entre os estudantes sérios do Budismo que a única maneira de suprimir os cinco obstáculos é através da prática de jhana. Como o Nalakapana Sutta (MN68) diz, para aqueles que não atingem jhana, os cinco obstáculos (mais descontentamento e cansaço) invadem a mente e permanecem. Qualquer coisa que não for jhana não será poderosa e duradoura o suficiente para suprimir os cinco obstáculos adequadamente. Portanto, mesmo que você esteja praticando atenção plena momentânea, se os cinco obstáculos ainda estiverem ativos num nível subconsciente, você não verá as coisas como elas são na verdade; você estará vendo apenas as coisas como elas parecem ser, distorcidas por esses cinco obstáculos.

Assim, para agir de acordo com os ensinamentos do Buda para Bahiya e para o venerável Malunkyaputta, para que “no visto haja só o que é visto, no ouvido haja só o que é ouvido, no sentido haja só o que é sentido e no conscientizado haja só o que é conscientizado”, os cinco obstáculos têm que ser suprimidos e isso significa jhana!

Vendo as Coisas como Elas São Na Realidade

É verdade que os cinco obstáculos são suprimidos no momento que precede o jhana, os comentários chamam-no de upacara samadhi, “imobilidade da mente que está para entrar em jhana” (tradução do Ajahn Brahm). Então, como é que você pode saber com certeza que esses insidiosos cinco obstáculos, que geralmente operam no nível subconsciente, estão totalmente suprimidos? Como é que você sabe que está em upacara samadhi? O teste decisivo é que você pode passar sem esforço nenhum da entrada para o primeiro jhana. Em upacara samadhi, não existe nenhum impedimento ou obstáculo entre você e o jhana. Se você não puder entrar em jhana, os cinco obstáculos ainda estão presentes. Portanto, para ter certeza que eles se foram, você tenta entrar em jhana e entra.

Quando a mente emergir do jhana, ela fica em upacara samadhi por um longo período, como quando você sai de casa, você fica na porta outra vez. É nesse ponto, durante o período imediatamente depois da experiência do jhana, quando os cinco obstáculos ainda não invadiram a mente, que a pessoa é capaz de finalmente praticar “no visto há apenas o visto, no ouvido há apenas o ouvido, no sentido há apenas o sentido e no conscientizado há apenas o conscientizado”. Como o Buda disse repetidamente, (por exemplo, no AN VI.50), só como resultado do jhana, (samma samadhi), é que uma pessoa conhece e vê as coisas como elas na verdade são (yatha-bhuta-ñanadassanam) e não como elas parecem ser.

O Fim da Idéia da Existência de um Eu

Uma experiência de jhana pode desmontar uma pessoa. O que eu quero dizer com isso? Quero dizer que a informação proporcionada pela experiência de jhana, contemplada imediatamente depois, em upacara samadhi, quando os obstáculos não podem distorcer nada, destrói a delusão do eu, alma e meu.

No primeiro jhana na maioria das vezes, e nos jhanas mais elevados completamente, a capacidade de fazer, de exercer a vontade e de fazer escolhas – o que eu chamo de “o fazedor” – desapareceu. Falando de uma maneira bem simples, a informação é tão clara e os cinco obstáculos não são mais capazes de fazer com que você não veja que não existe uma pessoa controlando o seu corpo e mente. Vontade não é o eu ou um produto do eu. Vontade é só um processo natural impessoal que pode chegar à cessação total. Você viu isso por você mesmo, e pode confiar nisso porque isso tudo ocorreu quando os cinco obstáculos, que distorcem, estavam suprimidos. Esse insight é o mais correto que você já teve: livre-arbítrio é uma delusão. Você, o leitor, será incapaz de concordar comigo. Isso porque os seus cinco obstáculos ainda estão ativos e eles farão com que você não enxergue isso. Portanto, experiencie um jhana primeiro, aí investigue esse assunto logo em seguida. Aí, tente discutir comigo! Além disso, em jhana - o verdadeiro, não os falsos - a visão, a audição e os sentidos desaparecem. Os cinco sentidos externos cessam. Essa informação também é clara. Quando a pessoa reflete na completa ausência dos cinco sentidos durante a experiência de jhana, no estado livre dos obstáculos do pós-jhana upacara samadhi, ela verá com certeza que não existe o eu, ou alma, ou o meu eu observando a visão, ouvindo os sons ou sentindo cheiros, sabores e toques. Não existe nenhum eu, alma ou meu eu compreendendo o que foi compreendido. Todas as formas de consciência são também como um processo impessoal que pode chegar a uma completa cessação. Em resumo, você não é o mesmo que a sua mente. A mente é apenas um processo natural. Ela pode parar completamente. Ela realmente pára, de uma vez para sempre em parinibbana!

Uma vez mais, você, meu leitor, será incapaz de concordar comigo. Os cinco obstáculos, que agora estão ativos dentro de você, sob a superfície da conscientização, impedem-no de ver a verdade. Uma experiência de jhana desafia o seu entendimento mais básico, o entendimento de que “Você é!” Não se preocupe com esses desentendimentos por enquanto. Ao invés disso, medite até que você tenha experienciado jhana e tenha suprimido os cinco obstáculos. Então, veja se tenho razão ou não!

A Parte Final do Ensinamento para Bahiya

"Bahiya, você deve treinar assim: Com relação ao que é visto, haverá apenas o visto.... Com relação ao que é conscientizado, haverá apenas o conscientizado. Practicando dessa maneira, Bahiya, você não será “por causa disso”. Quando você não é “por causa disso”, você não está “nisso”. E quando você não está “nisso”, então, você não estará nem aqui nem lá, nem no meio. Isso é o fim do sofrimento."

O que significa, “você não será ‘por causa disso’? Em Pali é na tena. Tena é a palavra chave para “isso”. Na é a forma negativa. Significa, literalmente, “não por causa disso, não através disso, não por isso.” Significa, em essência, que você não assumirá que existe um eu, uma alma, ou um meu eu, só por que existe o ver, ouvir, cheirar, degustar, tocar, (sentir), ou conscientizar. O Buda estava dizendo que uma vez que você tenha penetrado a verdade da experiência sensorial, através da supressão dos obstáculos no jhana, você verá que não existe o “fazedor” ou “sabedor” por trás da experiência sensorial. Você não será mais capaz de usar a experiência sensorial como evidência para um eu. A famosa frase de Descartes “Eu sou por que eu penso” é refutada. Você não será por causa do pensamento ou por causa do ver, do ouvir ou do sentir. Nas palavras do Buda, “Você não será por causa disso (qualquer experiência dos sentidos).”

Quando os processos sensoriais são descartados como evidência defensável para a existência de um eu, uma alma ou meu eu, então você não estará localizado na experiência sensorial. Nas palavras do Buda, “Você não estará ‘nisso.’’ Você não verá mais, considerará, perceberá ou mesmo pensará que existe um “eu” envolvido na vida. Usando as palavras do médico, na versão original do seriado Star Trek, “É vida, Jim, mas não como nós a conhecemos!” Não existirá mais qualquer percepção de um eu ou alma no centro da experiência. Você não estará mais “nisso”.

Para fechar a abertura que poderia deixar você pensando que pode escapar da inexistência de um eu ou alma através da identificação com um estado transcendental de ser além do que é visto, ouvido, sentido ou conscientizado, o Buda bramiu, “e você não estará nem aqui (com o visto, ouvido, sentido ou conscientizado), nem além (fora do visto, ouvido, sentido ou conscientizado), nem entre os dois” (em nenhum mundo, nem além do mundo). A última frase confundiu os sofistas!

Em resumo, o Buda aconselhou ambos, Bahiya e o venerável Malunkyaputta a experienciar o jhana para suprimir os cinco obstáculos.

Só deste modo a pessoa pode discernir com certeza a ausência de um eu ou de uma alma por trás do processo sensorial. Consequentemente, a experiência sensorial não será mais tomada como evidência da existência do “fazedor” ou “sabedor”, de tal modo que você nunca mais voltará a imaginar um eu ou uma alma no centro da experiência, ou além dela, ou em algum outro lugar. O ensinamento para Bahiya formula de modo resumido o caminho para a realização do não-eu, anatta. Só isso, concluiu o Buda “é o fim do sofrimento.”

Conclusão

Espero que o meu argumento tenha sido forte o suficiente para desafiá-lo ou, mais do que isso, confundir as vipallasas que dirigem seus processos cognitivos. O ensinamento breve do Buda para Bahiya e para o venerável Malunkyaputta não é um atalho para os superinteligentes. A prática do “no visto haverá apenas o que é visto...” requer a supressão dos cinco obstáculos. A supressão dos cinco obstáculos requer jhana. Jhana requer o resto do nobre caminho óctuplo, os primeiros sete fatores. Ele requer fé na jóia triplice, a observação dos preceitos de virtude e a prática de dana. Existe apenas um caminho para nibbana, que é o nobre caminho óctuplo. Não existem atalhos.

Maggan' atthangiko settho ...
Eso'va maggo, natthi anno
Dassanassa visuddhiya

O melhor dos caminhos é o caminho óctuplo...
esse é o único caminho, não existe nenhum outro
para a purificação da visão.[4]