Atenção plena nas sensações e emoções:
Introdução e meditação guiada
Ayya Khema
Introdução
Esse método de meditação é com frequência chamado de vipassana, mas esse é na verdade um nome incorreto, porque vipassana significa “insight”. Não se pode dizer que um método é insight; insight se manifesta com a claridade da mente.
Portanto, nós comumente o chamamos de “varredura”, porém não devemos fazer nenhuma conexão com uma vassoura. A “varredura” que vamos fazer é chamada “parte por parte.”
Em um aspecto, esse é um método de purificação. Porque o caminho todo do Buda é o da purificação, e qualquer coisa que possamos usar para nos ajudar ao longo dele é uma ajuda bem-vinda. Esse método de purificação é bem específico e se torna claro quando nos lembramos que nossas reações físicas às nossas emoções são constantes e imediatas e que somos incapazes de pará-las.
Se estamos felizes, que é uma emoção, nós provavelmente sorrimos ou damos risada. Se estamos infelizes, nós provavelmente choramos ou fazemos um cara infeliz, ou franzimos as sombrancelhas. Se estamos zangados, podemos ficar vermelhos ou com a fisionomia enrigecida. Se estamos ansiosos, por exemplo, no meio de um trânsito pesado, nossos ombros se contraem; existem muito poucas pessoas que não têm tensão nos ombros. Embora seja irrelevante saber que emoção está ligada a esta ou aquela parte do corpo.
Nossas reações emocionais não têm nenhuma outra maneira de se manifestar que não através do nosso corpo. Desde o nascimento, nós lidamos com as nossas emoções dessa maneira, ou talvez, nós poderíamos dizer que lidamos mal. O corpo tem sempre reagido e talvez retido algumas dessas reações em forma de tensões e bloqueios.
Esse método de meditação tem o potencial de remover esses bloqueios ou pelo menos de transformá-los em algo menos obstrutivo, dependendo da força da nossa concentração e também do nosso kamma.
Imagine por um momento que algumas pessoas têm vivido nesta sala nos últimos trinta anos, e nunca a limparam. Elas teriam deixado restos de comida, excremento, roupas sujas e louça suja; e nunca teriam varrido o chão. Agora o lugar estaria sujo e bagunçado, do chão até o teto. Então, um amigo viria e diria aos ocupantes: “Porque vocês não varrem pelo menos um cantinho, onde vocês possam se sentar confortavelmente?” Nossos amigos que estariam vivendo aqui fariam isso e descobririam que esse cantinho é muito mais confortável do que anteriormente, apesar deles não terem sido capazes de imaginar isso antes da limpeza. Agora eles se sentem motivados a limpar todo o restante da sala.
Eles descobrem que eles podem agora ver lá fora, através das janelas e toda a perspectiva de viver neste lugar se torna muito mais agradável. É claro que qualquer pessoa poderia ter se mudado para algum outro lugar quando a bagunça se tornasse muito insuportável, mas todos nós somos muito presos ao nosso corpo. Não podemos nos afastar dele. Podemos mudar a nossa residência muitas vezes durante a nossa vida – seja de cidade ou país, de um apartamento ou de uma casa, de estar com amigos a estar sozinho, de um país para outro – mas o nosso corpo nos acompanha sempre. É a nossa vivenda permanente até que ele se desagrega e morre, e vira pó. E enquanto temos o nosso corpo, poderíamos também tentar fazer o melhor uso dele, pois de outro modo, teremos perturbação e aborrecimento na nossa meditação. Acontece todo tipo de coisas que não queremos que aconteça.
Quando nós tomamos um banho, tudo que podemos fazer é lavar a nossa pele. Todos nós sabemos que consistimos de muito mais do que só pele, mas ainda assim é tudo que podemos limpar. Dia após dia, temos uma pele limpa e agradável e provavelmente cabelo limpo também. Isso é tudo que conseguimos fazer. O método vipassana na sua primeira aplicação pode se parecer com um banho interno. O que a mente plantou através de reações emocionais, ela pode remover através do abandono.
O abandono é o segredo da purificação. Cada vez que movemos de um ponto no corpo para o próximo, temos o abandono do que quer que tenha surgido no ponto anterior. No final, nós deixamos ir todas as sensações e emoções através da ponta dos nossos dedos das mãos e dos pés para o interior da sala de meditação, porque não existe mais nenhuma outra parte do corpo para a qual nós possamos mover a nossa atenção. E através disso, nós fazemos uma limpeza, tomamos um banho interno e fazemos a remoção de alguns bloqueios interiores. E como isso é de grande ajuda fisicamente, nossa mente também fica mais relaxada. E agora como já não temos tantas dificuldades com o corpo, podemos usar nossa energia mental livre do desconforto.
Essa técnica tem também uma propriedade de cura. Qualquer pessoa com alguma concentração pode facilmente se livrar de uma dor de cabeça ou mesmo dor nas costas. Algumas doenças que já estão profundamente enraizadas serão mais difíceis de erradicar, podendo até mesmo ser impossível se livrar delas. A técnica tem no entanto, muitas outras possibilidades.
Um dos seus importantes aspectos é que aprendemos a abandonar os nossos sentimentos, de forma que não precisemos reagir a eles. Os sentimentos compreendem as sensações físicas e as emoções. A única porta, em toda a origem dependente mundana, através da qual nós podemos sair do samsara, é a não reação a essas sensações e emoções, e com isso vem o abandono do apego. Apego tem sempre o significado de “querer ter” ou “querer se ver livre de”. Não precisamos estar viciados, no sentido estrito da palavra, só o fato de querer manter a posse ou de querer mais de algo, ou rejeitar algo, ou querer destruir, já é o suficiente. Aqui nós temos um método através do qual podemos realmente nos tornar conscientes das nossas sensações, sem que seja necessário qualquer reação.
Mesmo se a raiva surgir, essa é uma ocasião em que sabemos com certeza que ninguém a causou. E essa poderá ser a primeira vez na nossa vida que estaremos conscientes da raiva surgindo, sem que nada fora de nós a tenha despertado. O mesmo se aplica à dor, preocupação, medo ou qualquer outra das nossas sensações e emoções.
Esse método também nos dá a oportunidade de nos tornarmos conscientes das sensações que de vez em quando são desagradáveis. Se as abandonarmos e movermos nossa atenção para a próxima parte do nosso corpo, nós desempenharemos a mesma ação – isto é, não reação a uma sensação desagradável através do abandono da rejeição. Nós abandonamos uma sensação quando colocamos a nossa atenção em algum outro lugar.
Esse método nos ensina a lidar com todas as nossas sensações e emoções com equanimidade. Porém, a repetição para nós mesmos, inúmeras vezes, de que esse é o único modo de lidar com as sensações e emoções, mas sem praticá-lo, não nos capacitará nesta tarefa. A compreensão – estar intelectualmente consciente – é o primeiro passo, mas a menos que tenhamos uma prática estruturada, nós não poderemos aprender isso ou qualquer outra habilidade.
Gosto de comparar nossas sensações a um brinquedo de criança, o boneco pulador, que consiste de um palhaço preso numa mola, que pula para fora da caixa cada vez que a tampa é acionada. A criança só precisa tocar na tampa da caixa de leve e o palhaço pula para fora. Aí alguém arranca o palhaço da caixa e quando a criança voltar a tocar a tampa, o palhaço não mais pulará para fora. Isso é o que acontece dentro de nós. Nossas emoções estão embutidas no nosso coração. Nós só precisamos de uma pequena impulsão e ser tocados de leve que a raiva ou medo, ou desejo saltam para fora. E quando estes finalmente se vão, nem mesmo batendo com um martelo pode fazer com que eles reapareçam.
A purificação que nós aspiramos necessita de um caminho. É evidente que podemos praticar no nosso dia-a-dia, onde somos frequentemente tão confrontados por reações emocionais, mas um método de meditação é uma ajuda enorme e serve como um sistema de apoio. Em primeiro lugar, porque não existe um agente externo e portanto fica bem claro que tudo está acontecendo dentro de nós. Na quietude e paz da prática da meditação é também muito mais fácil não reagir do que na imediatidade da confrontação – no calor da batalha, por assim dizer.
Aqui nós temos também um método de ganhar insight de várias maneiras. Durante a meditação guiada, mencionei solidez, calor, movimento. Todos os corpos consistem de quatro elementos primários e esses podem ser facilmente experienciados nessa meditação em particular. Os elementos primários são: terra, água, fogo e ar. Terra é o elemento da solidez, a dureza que nós podemos sentir quando nós tocamos o corpo ou quando o corpo toca a almofada, o chão ou a cadeira. O elemento água não é só saliva, urina, suor e sangue, mas o elemento de coesão. Quando derramamos água num pouco de farinha, ela se torna uma massa. É por isso que setenta e oito por cento do nosso corpo é feito de água. Se assim não fosse, todas as partes estariam se movendo separadamente. Teríamos uma aparência um pouco estranha, mas talvez não tivéssemos um sentimento tão forte em relação ao nosso ego, se nós pudéssemos realmente observar todas as nossas células separadas. A água mantém juntas todas as partes do nosso corpo. O elemento fogo é temperatura; nosso corpo sente o calor o frio ou o meio-termo. E existe o ar que são os ventos no corpo – a respiração e todos os movimentos físicos.
Quando experienciamos algum ou todos esses elementos dentro de nós, temos uma boa oportunidade de relacionar essa experiência com tudo ao nosso redor. Tudo que existe consiste desses quatro elementos e cada um deles contém os outros três em proporções variadas. Por exemplo, a água tem que ter solidez, de outro modo nós não poderíamos nadar or remar um barco. Ganhar insight sobre o fato de que nós consistimos desses elementos nos ajuda a compreender que nós não somos diferentes do nosso meio ambiente. Não importa para onde olhemos, encontraremos esses quatro elementos. À medida que fixamos a nossa atenção nessa realidade, nosso sentimento de separação diminuirá e nós passaremos a nos sentir como parte de toda manifestação nesse universo. Poderemos nos sentir inseridos nessa totalidade e não mais ameaçados pelas outras pessoas ou por catástrofes naturais ou não. Nós somos parte de um todo, o todo é parte de nós; não existe separação, nem alienação.
Quanto mais pudermos viver nessa realização, mais fácil será a purificação das nossas emoções com amor bondade, (metta).Quando não nos sentirmos mais separados dos outros, uma unidade única no meio de tantos, mas pudermos ver apenas uma manifestação universal, será muito mais fácil sentir metta pelos outros, porque essencialmente estaremos direcionando esse sentimento para nós mesmos.
Quando nos observamos à luz dos quatro elementos primários, nós também perdemos um pouco da nossa consciência profundamente impregnada do ego, que é a causa de todos os problemas que possam surgir. É impossivel encontrar o atributo “eu” numa combinação de terra, água, fogo e ar. Portanto, uma investigação contemplativa desses aspectos em nós mesmos pode produzir resultados de longo alcance.
Todos nós sabemos sobre a impermanência e provavelmente já ouvimos a palavra muitas vezes. E existem poucas pessoas no mundo que questionariam a impermanência, estejam elas seguindo uma prática espiritual em particular ou não. Nós provavelmente poderíamos perguntar ao carteiro ou ao encarregado da loja da esquina se tudo é impermanente e eles com certeza concordariam que é assim mesmo. Todos nós concordamos, mas temos que experienciar a impermanência para que ela deixe uma impressão em nós, e mesmo assim, nem sempre é o suficiente. Mas, quanto mais experienciarmos a impermanência, mais frequentemente nossa mente se voltará do seu modo habitual de pensar para o modo do Dhamma, que é uma virada de 180 graus. E é por isso que temos grandes dificuldades em pensar e viver no modo do Dhamma. Mas, finalmente, se perseverarmos durante um período de tempo suficiente, se formos bem determinados e recebermos uma pequena ajuda no caminho, conseguiremos. À medida que nos distanciarmos do pensamento mundano, a impermanência se tornará uma das características proeminentes em tudo que nós experienciarmos. Nesse método de meditação, nós focamos na impermanência de cada sensação e de cada emoção bem como no seu surgimento e cessação. Nós não só experienciamos a impermanência, como também compreendemos que nós só tomamos consciência de algo quando fixamos nossa atenção ali. Se nós levarmos essa realização para o nosso dia-a-dia, notaremos que a vida se torna muito mais fácil. Não temos que colocar a nossa atenção em coisas que trazem problema, fazendo a vida mais difícil para nós mesmos. Quando experienciamos negativismo, não precisamos mantê-lo na nossa consciência. Somos livres para movermos nossa atenção para o que é realmente verdadeiro, ou seja, impermanência, insatisfação e o não-eu. Ou podemos nos conectar com as emoções puras do amor bondade, compaixão, alegria altruísta e equanimidade. Depende inteiramente de nós aonde nossa atenção é focada. Como resultado da meditação, aprendemos que nós podemos escolher o que pensar, que é uma nova e valiosa abordagem aos nossos estados mentais. É dessa maneira também que finalmente mudamos nossa consciência para a consciência do Dhamma o tempo todo. Teremos então aprendido como abandonar aqueles pensamentos que não estão de acordo com a verdade absoluta.
A impermanência das nossas sensações e emoções, experienciada durante a meditação, deveria dar origem a um insight em relação à natureza impermanente de todo o nosso ser. E o fato do nosso corpo parecer tão sólido na sua forma é apenas uma manifestação do elemento terra, e na verdade não é nada mais do que ilusão ótica. Quando experienciamos as sensações e emoções como totalmente impermanentes, sabendo que nós habitualmente vivemos reagindo a elas, nós começamos a nos ver pequenos e menos sólidos do que antes, e pode ser que comecemos a questionar onde é que um “eu” pode ser encontrado dentro dessa constante mudança. Isso nos dá a oportunidade de colocar menos importância nas nossas emoções, da mesma forma que aprendemos a considerar os nossos pensamentos menos importantes quando os rotulamos durante a nossa prática de meditação e vemos de quão pouca utilidade eles são – que eles são na realidade dukkha, porque eles estão constantemente se movendo, mudando e perturbando.
A maioria das pesssoas reagem automaticamente às suas emoções e justificam isso com a asserção de que simplesmente é assim que elas sentem. Todos nós já fizemos isso. Existem esses letreiros de pára-choques na América que proclamam, “se é bom, deve ser correto”. Essa afirmação não só é tola, mas perigosa.
Podemos ver em tudo isso quanta importância têm as emoções. E enquanto a nossa consciência não tiver se tornado uma consciência do Dhamma, nós cairemos nessa armadilha. Agora nós temos uma oportunidade para uma nova abordagem. Emoções e sensações são impermanentes e inteiramente dependentes de onde nós fixamos a nossa atenção. Como podem elas ter uma significância real, que vai além do seu surgimento e cessação? Obviamente, nós não nos lembraremos sempre de adotar essa nova abordagem, mas pelo menos temos um método para lidar com as nossas emoções que, por fim, se tornará parte do nosso ser. Quando nos sentamos em silêncio, e nada acontecendo, é mais fácil aprender novos métodos para lidar com nós mesmos. De fato, não é nada difícil abandonar uma sensação ou emoção e cuidar de outra. Mas precisamos ser capazes de trazer essa habilidade para o escritório e para a cozinha, quando alguém nos dá uma “bronca” ou exige atenção; e quando tivermos feito isso repetidamente na meditação, isso se tornará muito mais fácil. Nós não mais seremos pegos pelas nossas emoções e pelas nossas reações a elas.
Essa atitude nos traz para um ponto dentro da origem dependente que é a porta que nos levará para fora da esfera do nascimento e morte: isto é, a prática da equanimidade em resposta às sensações, ao invés do costumeiro “gosto” e “não gosto”, em resumo, “desejo” e “raiva”. Através da atenção plena nós aprenderemos a fazer o tipo certo de escolha. E se escolhermos o Dhamma, encontraremos tranquilidade e harmonia dentro de nós.
Meditação Guiada da Atenção Plena nas emoções e sensações ou Varredura
Nesse momento precisamos nos familiarizar com o ponto no corpo que chamamos de “topo da cabeça”, que é uma depressão bem raza que todos temos no topo da nossa cabeça. Num bebê, é a moleira, onde os ossos crescem e se juntam mais tarde. Podemos encontrá-la tres ou quatro dedos de largura, para trás da raiz dos cabelos na testa. O outro ponto é a coroa da cabeça, que é mais ou menos do tamanho de uma moeda grande, onde o cabelo cresce em várias direções. Algumas pessoas têm-na do lado esquerdo, outras do lado direito e algumas bem no meio da cabeça. Onde quer que a tenhamos, este é o ponto.
Comece prestando atenção à sensação gerada pelo ar da respiração nas narinas. Tome consciência dessa sensação por algum tempo.
Agora transfira a sua atenção para o “topo da cabeça”, abandone a respiração e deixe tudo o mais para trás. Ponha a sua total atenção no topo da cabeça e note qualquer sensação que possa ser sentida ali: cócegas, peso, pressão, formigamento, se é agradável ou desagradável, movimento, imobilidade, calor, frio – qualquer uma dessas ou qualquer outra. Você não precisa nomear a sensação, mas se quiser, pode. Eu as estou nomeando para exemplificar.
Lentamente, mude a sua atenção do topo da cabeça para a coroa, movendo a sua atenção para trás do topo da cabeça, ponto por ponto, consciente de cada ponto. Note a sensação, a emoção; deixe-a e siga para o próximo ponto. Tente cobrir todo o topo da cabeça. Sensação é física e emoção é emocional. Note qualquer coisa que possa surgir; abandone-a e foque no próximo ponto: solidez, suavidade, pressão, formigamento, contração, expansão, calor, pulsação, batimento, golpe, desagrado... a sensação pode ser na pele ou sob a pele. Pode ser profunda ou na superfície. A única coisa que realmente importa é estar consciente dela.
Agora concentre-se na coroa, uma pequena área. Fique consciente da sensação. Tente voltar para dentro de si mesmo de tal modo que os sentimentos e sensações se tornem aparentes.
Vagarosamente mude a sua atenção da coroa para toda a parte de trás da cabeça até a base do crânio, onde o pescoço se junta com a cabeça. Dê a sua total atenção para cada ponto, notando, abandonando o que notou e seguindo adiante para o próximo ponto.
Agora coloque a sua completa atenção no lado esquerdo da cabeça, lentamente movendo-a do topo para baixo até a linha da mandíbula, e da raiz do cabelo, na frente, até a parte detrás da orelha. Concentre-se em cada ponto, movendo a sua atenção vagarosamente para baixo, tornando-se consciente de cada emoção ou de cada sensação... notando solidez, toque, tensão, relaxamento, qualquer coisa que surgir. Note, abandone-a e siga adiante para o próximo ponto.
Traga a sua atenção para o lado direito da cabeça, lentamente movendo do topo da cabeça para a linha da mandíbula, da raiz do cabelo, na frente, até a parte detrás da orelha. Dê total atenção a cada ponto à medida que você move a sua atenção para baixo, conscientizando-se da sensação, conscientizando-se da emoção, na pele ou sob a pele, dentro ou na superfície. Estar consciente é o que conta.
Coloque toda a sua atenção na raiz do cabelo sobre a testa e lentamente mova-a para baixo, abrangendo toda a extensão da testa até as sombrancelhas, ponto por ponto. Note o que quer que surja: pulsação, movimento, pressão, batimento, agradável ou desagradável.
Agora volte toda a sua atenção para o olho esquerdo, e tudo envolta dele, o globo ocular, as pálpebras; note a sensação ou qualquer emoção: pressão, peso, escuridão, luz, o contato, tremor, imobilidade.
Em seguida, transfira a sua atenção para o olho direito. Tudo em volta dele, o globo ocular, as pálpebras; note a sensação ou qualquer emoção da qual você tenha consciência.
Concentre-se no ponto entre as sombrancelhas. Lentamente mova-a para baixo para a ponta do nariz, notando ponto por ponto: solidez, suavidade, formigamento, pode ser qualquer uma destas ou qualquer outra sensação da qual você tenha consciência.
Agora fixe a sua atenção nas narinas. Vagarosamente mova-a para dentro do nariz, notando a sensação do ar, movimento, espaço, confinamento, abertura, coceira, humidade, sequidão, contato.
Concentre-se na pequena área entre a ponta do nariz e o lábio superior, a extensão toda do lábio superior. Note qualquer sensação ou qualquer emoção que surja: contato, movimento, tremor, imobilidade, peso, leveza.
Mova a sua atenção para os lábios, superior e inferior. Note o contato, pressão, contração, humidade, sequidão, agradável ou desagradável, qualquer uma destas ou quaisquer outras.
Coloque a sua atenção dentro da boca. Fique consciente de qualquer sensação ou emoção. Mova de um ponto para outro, cobrindo toda a área.
Coloque toda a sua atenção no queixo. Fique consciente de como é que você o sente.
Mova a sua atenção para a bochecha esquerda, movendo-a lentamente para baixo, do olho até a linha da mandíbula. Com a sua atenção em cada ponto, note qualquer sensação ou emoção; abandone-a e mova para o próximo ponto.
Concentre-se na bochecha direita, movendo vagarosamente para baixo, do olho até a linha da mandíbula, ponto por ponto. Conscientize-se da sensação ou emoção; notando, abandonando e movendo para o próximo ponto. A sensação pode ser fraca ou definida, não importa.
Coloque sua atenção na garganta. Movendo lentamente da linha da mandíbula para onde o pescoço se junta ao tronco, ponto por ponto, do lado de dentro ou do lado de fora, notando o contato, calor, obstrução, peso, leveza, pulsação.
Mova a sua atenção para a parte de trás da garganta, começando na base da cabeça, movendo lentamente para baixo onde o pescoço se junta ao tronco. Observe cada ponto, tenso, relaxado, nodoso, agradável ou desagradável, como se houvesse algo cutucando, golpeando, cócegas, formigamento – qualquer uma destas ou quaisquer outras.
Coloque toda a sua atenção no ombro esquerdo. Movendo lentamente do pescoço ao longo do topo do ombro até onde o braço esquerdo se junta. Observe cada ponto, tornando-se consciente de cada sensação ou emoção: tenso, relaxado, pesado, sobrecarregado; o que quer que surja, observando, abandonando e seguindo diante para o próximo ponto.
Agora volte a sua atenção para a parte superior do braço esquerdo, movendo lentamente para baixo, do ombro até o cotovelo, por todo o braço, conscientizando-se de cada ponto à medida que você percorre essa área. Observe a sensação, a emoção; abandone-a e continue até o próximo ponto. Note o contato, calor, movimento, peso, leveza, contração, expansão.
Concentre-se no cotovelo esquerdo. É uma pequena área, portanto deixe que tudo o mais se vá. Preste atenção exclusivamente no cotovelo esquerdo e em nenhuma outra parte do corpo e observe a sensação e a emoção que surgir.
Ponha toda a sua atenção no antebraço esquerdo. Vagarosamente mova do cotovelo até o pulso, por todo o antebraço, ponto por ponto; observe, abandone e continue até o próximo ponto, na pele ou sob a pele, na superfície ou mais profundamente. Chegue bem perto das sua próprias sensações e emoções.
Mova a sua atenção para o pulso esquerdo, por todo o pulso. Note a pulsação, batimento, contração, contato.
Em seguida, concentre-se no dorso da mão esquerda, do pulso até onde os dedos se juntam. Coloque a sua atenção na palma da mão esquerda, do pulso até onde os dedos se juntam. Foque a sua atenção na parte de baixo dos cinco dedos da mão esquerda. Lentamente mova ao longo dos dedos até a ponta. Coloque toda a sua atenção na ponta dos cinco dedos e aí mentalmente faça um movimento da ponta dos dedos para longe deles, para o interior da sala de meditação.
Coloque toda a sua atenção no ombro direito. Movendo vagarosamente do pescoço ao longo do topo do ombro até onde o braço direito se junta. Note cada ponto: peso, contração, nodoso, tenso, relaxado, sobrecarregado, dor, tristeza, raiva, resistência, qualquer coisa, seja o que for. Observe, abandone e siga para o próximo ponto.
Mova a sua atenção para o braço direito. Movendo lentamente do ombro para o cotovelo, por todo o braço. Ponto por ponto, na pele ou sob a pele: solidez, suavidade, calor, frio, contato, movimento, imobilidade.
Concentre-se no cotovelo direito. Deixe que tudo o mais se vá; preste atenção só nesta pequena área e observe as sensações: latejante, contraído, elétrico.
Coloque a sua atenção no antebraço direito. Movendo lentamente do cotovelo para o pulso, por toda parte. Observe a superfície ou bem profundamente.
Em seguida, mova a sua atenção para o dorso da mão direita, do pulso até onde os dedos se juntam. Ponha a sua atenção na palma da mão direita, do pulso até onde os dedos se juntam. Foque a sua atenção na parte de baixo dos cinco dedos da mão direita. Lentamente mova ao longo dos dedos até a ponta. Coloque toda a sua atenção na ponta dos cinco dedos e aí mentalmente faça um movimento da ponta dos dedos para longe deles, para o interior dentro da sala de meditação.
Ponha toda a sua atenção no lado esquerdo da parte da frente do tronco. Mova lentamente do ombro esquerdo até a cintura, tocando cada ponto à medida que você move a sua atenção. Observe a emoção ou sensação: restrição, expansão, golpes, peso, leveza, formigamento, solidez, suavidade, rejeição, resistência, preocupação, medo, o que quer que surja na superfície, observe, deixe que se vá e continue até o próximo ponto.
Mova a sua atenção para o lado direito da parte da frente do tronco; movendo lentamente do ombro direito até a cintura, tocando em cada ponto com plena atenção.
Coloque toda a sua atenção na parte da frente da cintura. Observe a sensação: firmeza, flacidez. Mova lentamente da cintura para a virilha, até a parte mais baixa do tronco, ponto por ponto, tomando consciência da sensação, da emoção, abandonando-a e movendo para o próximo ponto, tornando-se consciente de como você sente cada ponto.
Coloque a sua atenção do lado esquerdo das costas, movendo lentamente do ombro até a cintura, prestando atenção a cada ponto, tornando-se consciente da sensação e da emoção, abandonando-a e observando o próximo ponto: tensão, nodoso, preocupação, contato, calor, movimento, solidez, suavidade, formigamento.
Coloque toda a sua atenção no lado direito das costas, movendo lentamente do ombro até a cintura, com plena atenção em cada ponto.
Ponha toda a sua atenção na parte de trás da cintura: contraída, expandida, espasmódica, golpes, cutucação. Começando da cintura, mova lentamente até a nádega esquerda, onde a perna se junta. Observe ponto por ponto, na pele, sob a pele, mais profundamente ou na superfície. Observe, abandone e mova para o próximo ponto: peso, contato, pressão.
Mova para o lado direito da parte de trás da cintura. Vagarosamente desloque a atenção para a nádega direita, até onde a perna se junta. Observe cada ponto, cada sensação.
Concentre-se na coxa direita. Movendo vagarosamente da virilha até o joelho, por toda parte; observando a pressão, contato, sensação desagradável, dor aguda, cutucação. Observe, abandone e continue até o próximo ponto.
Concentre-se no joelho direito, por toda parte, dentro e fora.
Coloque a sua atenção na perna. Movendo lentamente do joelho até o tornozelo, por toda parte, reconhecendo cada ponto.
Coloque a sua atenção no tornozelo direito. Observe a pressão, contato, solidez, suavidade.
Ponha a sua atenção no calcanhar direito, uma área pequena. Deixe que todo o resto se vá e dê toda a sua atenção para essa área.
Coloque toda a sua atenção na sola do pé direito, movendo do calcanhar até onde os dedos do pé se juntam. Fique consciente de cada ponto. Observe a sensação ou emoção: maciez, aspereza, calor, contato, golpes, repuxo.
Coloque a sua atenção no peito do pé direito, do tornozelo até onde os dedos do pé se juntam, ponto por ponto, observando dentro e fora. Ponha a sua total atenção na base dos 5 dedos do pé direito. Lentamente movendo ao longo dos dedos até a ponta. Ponha a sua atenção na ponta dos cinco dedos e faça um movimento com a mente para longe deles, da ponta dos dedos para dentro da sala de meditação.
Em seguida, mova a sua atenção para a coxa esquerda. Lentamente mova da virilha para o joelho, por toda parte, ponto por ponto. Observe, abandone e vá para o próximo ponto.
Ponha toda a sua atenção no joelho esquerdo, por toda parte, em volta, dentro, fora, completamente consciente das emoções e sensações.
Concentre-se na perna esquerda. Lentamente mova do joelho para o tornozelo, por toda parte. Observe a pressão, peso, solidez, dureza, contato, golpes, pontadas, formigamento. Seja o que for, observe, abandone e mova a sua atenção para o próximo ponto.
Ponha toda a sua atenção no tornozelo esquerdo, por toda parte. Observe o contato, pressão, resistência, rejeição.
Mova a sua atenção para o calcanhar esquerdo, uma pequena área. Deixe que tudo o mais se vá. Dê total atenção para essa área.
Coloque toda a sua atenção na sola do pé esquerdo. Lentamente movendo do calcanhar para onde os dedos do pé se juntam. Observe cada ponto: pressão, contato, calor.
Coloque toda a sua atenção no peito do pé, do tornozelo até onde os dedos do pé se juntam, ponto por ponto, observando, completamente consciente. Mova a sua atenção para a base dos cinco dedos do pé esquerdo. Movendo vagarosamente ao longo dos dedos até a ponta. Ponha toda a sua atenção na ponta dos cinco dedos. Faça um movimento com a mente para longe deles, da ponta dos dedos para o interior da sala de meditação.
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Mensagem da tradutora para o Português:
Já faz alguns anos quando pela primeira vez, durante um retiro, o falecido monge Birmanês Rewata Dhamma expôs para o nosso grupo a meditação da varredura, a minha primeira reação foi – não gostei. Usei o método algumas vezes, sempre com restrições, e acabei abandonando-o por completo. Até que no ano passado, num retiro longo de jhanas, liderado pelo Leigh Brasington, (discípulo sênior norte-americano da falecida mestra Ayya Khema, autorizado por ela a ensinar os jhanas), voltei a ouvir sobre esse método e ele não só enfatizava a sua prática, como a recomendava principalmente para aqueles que sentiram algum tipo de aversão por ela. Assim, por insistência dele, nesse retiro, acabei incorporando esse método às minhas meditações diárias, e o resultado foi que a minha concentração deu um salto qualitativo, não só imediatamente depois de cada varredura, mas durante o dia todo. É claro que quanto mais o praticarmos, mais aparentes serão os seus efeitos. A purificação das emoções torna os pensamentos mais compreensíveis e com isso, a mente se tranquiliza e a meditação se torna menos árida e mais atrativa.
Saí do retiro com a idéia de traduzir esta meditação guiada e disponibilizá-la no Acesso ao Insight para que outras pessoas também pudessem se beneficiar. (Yvone Beisert)
Algumas dicas do professor Leigh Brasington:
Coloque a sua atenção numa área pequena, de mais ou menos 4 cms de diâmetro.
Se, no início, ao colocar a sua atenção no topo da cabeça, a concentração estiver fraca e você não puder sentir nenhuma sensação, depois de colocar a sua atenção ali, mova-a para a parede à sua esquerda e em seguida volte ao topo da cabeça. Mova a sua atenção deste modo várias vezes. Se você perder a concentração no meio da varredura, vá para o ponto onde você sentiu alguma sensação e mova a sua atenção para a parede à sua direita, mova-a várias vezes até sentir a concentração recuperada. Faça a varredura no corpo todo em não menos do que 30 minutos e no máximo 50 minutos, para que ela não se torne maçante.
Se sentir náusea durante a varredura, é por que você está eliminando lixo emocional do passado, é muito bom sinal.
Aulas teóricos-práticas com Julio Cesar Tafforelli fone (011) 3422-9135
sábado, 30 de abril de 2011
Conselhos Práticos para Meditação
Bhikkhu Khantipalo
Conteúdo:
Prefácio
Duas Correntes de Meditação
Conselhos Práticos para Meditadores
As Moradas Divinas e seu Aperfeiçoamento
A Paciência e seu Aperfeiçoamento
A Energia e seu Aperfeiçoamento
A Concentração e seu Aperfeiçoamento
Perigos na Meditação
Apêndice: 40 Exercícios de Meditação
Notas
Prefácio
As páginas que seguem, inicialmente, foram escritas para compor as novas seções a serem adicionadas na segunda edição do meu livro introdutório sobre o Dhamma, O Que é o Budismo (What is Buddhism?).
No entanto, como muitas pessoas possuem um grande interesse na prática de meditação mas estão distantes das fontes onde se encontram as tradições vivas, espero que o texto que segue produza benefícios, mesmo estando separado das seções do livro às quais serve de complemento.
Quando pensamos em meditação, nunca é demasiado enfatizar a importância de termos as razões corretas ao adotarmos a sua prática. Meditação,ou, a melhor tradução de samadhi - concentração - é somente um aspecto da prática Budista, e deve, para ser bem sucedida, andar de mãos dadas com outras práticas tais como a generosidade, nobreza, não violência, paciência, contentamento e humildade.
Se essas genuínas qualidades do Dhamma, inicialmente, não existirem na pessoa, nem se desenvolverem através da prática, então existe algo de muito errado e somente uma pessoa muito tola tentaria prosseguir.
A prática da concentração se apóia sobre uma sólida base de virtude (sila) e não será bem sucedida se a pessoa não fizer um esforço verdadeiro para seguir os preceitos de maneira rigorosa. Os sinais de "progresso" na concentração não são visões estranhas, sensações peculiares ou outras coisas do gênero (embora seja concebível que elas também possam surgir nos casos em que o progresso é realizado), mas, particularmente, um crescimento abrangente e harmonioso no caminho do Dhamma.
Se alguém não possui um mestre, deve estar duplamente vigilante, pois de outra forma, não terá consciência se alguma das distrações de Mara estiver prestes a ter êxito, ou, se na verdade está avançando na prática do Caminho do Meio.
Este ensaio é uma síntese de Buddhism Explained, a segunda edição (revisada e ampliada) do livro anteriormente conhecido como What is Buddhism? publicado por The Social Science Press of Thailand, Phya Thai Road, Chula Soi 2, Bangkok.
Bhikkhu Khantipalo
Duas Correntes de Meditação
Duas correntes de meditação Budista, aparentemente distintas, podem ser distinguidas, embora elas sejam vistas como complementares quando a meditação estiver estabelecida.
Pode ser produtivo para algumas pessoas, cujas mentes são muito ativas e que sofrem com a distração, acompanhar com atenção plena as acrobacias da mente traquinas. Como a mente é na verdade uma série de eventos mentais que surgem e desaparecem com incrível rapidez, sendo que, cada um desses eventos é uma mente completa com os seus fatores mentais de apoio, no início este tipo de atenção plena é na verdade uma mente "plenamente atenta" observando outras "mentes" (que logicamente estão todas dentro do próprio contínuo mental da pessoa).
Através disso a pessoa desenvolve a habilidade de olhar para a mente e ver para onde ela está indo. Ela foi para o passado, presente ou futuro ? Foi para a materialidade, ou para as sensações, ou talvez para as percepções, para as atividades volitivas, ou ela foi para a consciência? Através deste método, "Para onde ela foi”?, a mente distraída, pouco a pouco, irá se encontrar sob a vigilância da mente plenamente atenta, até que a atenção plena crie uma base sólida para desenvolvimentos adicionais.
Importante, embora mundana, a clareza mental é ao mesmo tempo necessária e desenvolvida através desta prática, que no entanto deve ser equilibrada pela tranqüilidade das absorções (jhanas). Quando a mente tiver se acalmado, a pessoa deve começar a praticar a concentração (jhanas), que será por seu lado a base para o surgimento do verdadeiro insight. Este método é denominado "a sabedoria que conduz à tranqüilidade".
Outro método, adequado para aquelas pessoas cujas mentes no início não são tão perturbadas, inclui os tradicionais quarenta objetos de meditação (veja o Apêndice); e esses envolvem o uso de um objeto esepcifico para a concentração. Esse objeto pode ser o próprio corpo ou uma parte dele, uma cor ou um desenho, uma palavra ou uma frase, ou a contemplação abstrata e assim por diante. Todos esses métodos envolvem um tanto de disciplina mental, firme porém gentil, em que cada vez que a mente começar a vagar, ela precisa ser trazida de volta gentilmente (com a atenção plena, é lógico), para se concentrar novamente no objeto escolhido.
Algumas pessoas possuem a idéia equivocada de que esse tipo de prática deve necessariamente conduzir à tranqüilidade, praticamente de imediato. Elas poderão se surpreender ao iniciar a prática, visto que, de fato experimentarão mais problemas do que tinham antes. Isso ocorre, primeiro, porque elas na verdade nunca olharam antes dentro da própria mente para saber o estado em que ela sempre esteve; e segundo, porque ao disciplinar a mente, é como se a pessoa agitasse um lago estagnado com uma vara , ou cutucasse com uma vara um fogo latente sob as cinzas.
O elefante selvagem da mente, há muito tempo acostumado a vagar pela floresta dos desejos, não aceita a domesticação de bom grado, ou ser amarrado ao poste da prática com as correias da atenção plena. No entanto, a diligência e o zelo irão finalmente assegurar os frutos da tranqüilidade.
Todos os quarenta objetos fazem parte do segundo método em que a calma obtida com a prática é então usada para despertar a sabedoria. Por isso eles são chamados de métodos da "tranqüilidade que conduz à sabedoria" e são muito importantes nos tempos atuais de distrações. A sua explicação completa pode ser encontrada no Path of Purification (Visuddhi-magga), embora nem mesmo o grande ensinamento contido nesse livro possa substituir o contato pessoal com um mestre.
Conselhos Práticos para Meditadores
Mudando do aspecto psicológico para o prático, a meditação para pessoas leigas pode ser dividida em duas categorias: aquela que é feita de forma intensiva e aquela que é praticada em conjunto com os demais afazeres da vida diária. A meditação intensiva também é de dois tipos: meditação sentada diária e a prática ocasional em retiros.
Meditação Sentada Diária
Primeiro discutiremos o período diário regular de prática intensiva que deveria, sempre que possível, ocorrer todos os dias na mesma hora. A pessoa deve evitar que isto se torne apenas um ritual, encarando a prática com seriedade e permanecendo intensamente consciente da razão por que medita. As sugestões a seguir também podem ajudar.
Quanto às condições físicas, o lugar para meditar deveria ser bem silencioso. Se tiver um pequeno quarto que possa ser usado para esse propósito, tanto melhor, e de todos os modos é melhor meditar só, exceto se outros membros da casa também meditarem. Quando esse for o caso a pessoa deve garantir a pureza da sua mente em relação aos outros, pois de outra forma a cobiça, a raiva e todo o resto da quadrilha de ladrões, com certeza, irão roubar os frutos da meditação.
O silêncio pode ser conseguido despertando cedo, antes que os demais despertem; e essa também é a ocasião em que a mente está clara e o corpo descansado. Portanto, o meditador sincero observa os horários, pois ele sabe como é importante ter horas de sono em quantidade suficiente para despertar renovado.
Após despertar e lavar-se a pessoa deve sentar-se com roupas limpas e confortáveis no local de meditação. A pessoa pode ter um pequeno altar com objetos Budistas, mas isso não é essencial. Algumas pessoas consideram benéfico começar fazendo oferendas de flores, incenso e velas, refletindo com cuidado enquanto fazem isso. É muito comum nos países Budistas prefaciar a meditação silenciosa com um cântico suave para si mesmo, "Namo tassa bhagavato arahato samma-sambuddhassa," com os Refúgios e Preceitos. Se a pessoa conhece as passagens em Pali em homenagem ao Buda, Dhamma e Sangha, elas também podem ser usadas nesse momento.
Uma outra prática preliminar proveitosa é uma reflexão, uma recitação discursiva, sobre algumas verdades do Dhamma, tal como o trecho sugerido a seguir:
"Obtendo esta preciosa oportunidade de um nascimento humano, tenho duas responsabilidades no Dhamma: o meu próprio benefício e o benefício dos outros. Todos os demais seres, quer sejam humanos ou não humanos, visíveis ou invisíveis, grandes ou pequenos, próximos ou distantes, todos esses seres eu tratarei com nobreza e desejarei que eles vivam em paz. Que eles possam ser felizes…Que eles possam ser felizes…Que eles possam ser felizes…! Eu os ajudarei quando estiverem sofrendo e compartirei das suas alegrias quando estiverem felizes. Que eu possa também desenvolver a incomparável equanimidade, a mente em perfeito equilíbrio que nunca está perturbada!
"Ao me preocupar com o bem estar dos outros, eu não me esquecerei do meu próprio progresso no caminho do Dhamma. Que eu venha a entender, realmente, como, empurrado aqui e ali pelos ventos do kamma, sofri uma infinidade de vidas em todos os planos de existência! Eu também devo voltar a minha mente para o quão curta e passageira é esta vida. Que a mente e o corpo estão mudando constantemente, surgindo e desaparecendo momento a momento. Que nem a mente nem o corpo me pertencem, nenhum deles é meu. Eu também devo voltar a minha mente para tomar em consideração o quanto esta breve vida é importunada por problemas. Tendo sido gerado pelo desejo e nascido da ignorância, preciso compreender que não há como escapar da morte, que o envelhecimento e a enfermidade são acontecimentos naturais da minha condição. Preciso me esforçar para entender, por meu próprio benefício e benefício de outros, que esta pessoa chamada 'eu' é um complexo de mente e materialidade em que nenhuma entidade permanente, tal como uma alma ou eu, pode ser encontrado.
"Que eu possa através desta prática experimentar o insight da impermanência, sofrimento e não-eu! Que eu possa ser um dos que permanece no Vazio! E tendo entendido essa verdade sublime que eu possa mostrar o caminho para outros!"
Ao sentar para meditar, deve-se tomar cuidado para que o corpo permaneça ereto, porém relaxado. Não deve haver tensão, mas, tampouco a cabeça deve baixar e nem a região lombar ceder. O corpo deve ser sentido aprumado e equilibrado. Embora a posição com as pernas cruzadas (tal como a postura de lótus) seja a ideal se o meditador estiver sentado sobre um tapete suficientemente macio, uma cadeira pode ser usada por aqueles desabituados com a postura de lótus ou então incapazes de treinar para sentar nessa posição. Sentar na postura em lótus ou meio lótus será muito mais fácil se uma almofada mais firme for usada para levantar as nádegas. Dessa forma os joelhos irão tocar o solo e uma firme posição sentada apoiada sobre três pontos (dois joelhos e as nádegas) será obtida.
O tempo de meditação deve ser o mesmo todos os dias até que, tendo mais habilidade em concentrar a mente, automaticamente a pessoa irá ter vontade de ampliar a prática. Um método amplamente usado para medir o período de meditação é meditar durante o tempo que leva para consumir uma vareta de incenso. Tendo colocado as mãos relaxadas sobre o regaço em posição para a meditação, os olhos podem ser cerrados ou deixados semi abertos de acordo com o que for mais confortável.
Os métodos usados para auxiliar na concentração da mente são muitos e as duas principais vertentes na meditação clássica foram brevemente comentadas na seção acima. Outros métodos que podem ajudar incluem a repetição de uma palavra ou frase, quiçá com o uso de um rosário. Se a pessoa praticar a atenção plena focada na respiração pode ser que considere bom o uso de uma palavra como "Buddho," ou "Araham" para acalmar a mente. A primeira sílaba é repetida silenciosamente ao inspirar e a pessoa se concentra na segunda sílaba ao expirar. A contagem da respiração também (em geral não acima de dez para evitar que a mente vagueie) é usada como um auxílio para a concentração. Mas todos esses auxílios devem ser abandonados quando a concentração se tornar aprimorada. Quando a meditação se utiliza de apenas uma frase, um rosário pode ser usado em conjunto, cada repetição marcada por uma conta.
A meditação estará se desenvolvendo bem se a pessoa se der conta de que a mente está cada vez mais absorvida no objeto de meditação escolhido, mas a pessoa não deve deduzir que a meditação é inútil apenas porque por um período longo ou curto não forem experimentadas muito mais do que sonolência e distrações. Esses obstáculos devem ser enfrentados; e se eles surgirem, não será através da irritação ou desespero, mas através da observação calma, com atenção plena, que eles poderão ser superados. Para obter-se êxito, é necessário uma grande persistência e esforço equilibrado.
O período de meditação pode ser encerrado com alguma recitação, cujo objeto normalmente é o bem-estar e a distribuição dos méritos para outras pessoas. Uma tradução, ou o original em Pali, do Karaniya Metta Sutta (O Discurso do Amor Bondade) pode ser recitado nesse momento e como não é um texto muito longo, pode ser memorizado facilmente. Como os métodos de recitação podem variar, pode ser útil obter-se gravações feitas por bhikkhus dos trechos que a pessoa queira aprender.
Aproveitando o tema de recitação, é muito útil conhecer alguns discursos do Buda em algum dos idiomas clássicos do Budismo e de usá-los para unificar a mente se houver alguma ocasião em que nenhuma concentração possa ser obtida. Nessas ocasiões o meditador não deve se sentir deprimido mas deve continuar sentado, recitando suavemente para si mesmo. Isso é o que os monges Budistas fazem duas vezes por dia como parte do seu desenvolvimento mental e é também útil para estimular uma abordagem mais devocional, necessária, como contrapeso para os indivíduos com inclinações intelectuais. Um outro método proveitoso para a superação da distração é a meditação andando, que pode ser feita em qualquer corredor da casa ou em uma área isolada no jardim. Uma distância de vinte ou trinta passos será suficiente, pois se for mais longa, a mente tenderá a vagar e se for mais curta, a distração poderá aumentar. A pessoa pode caminhar no rítmo que for natural, com as mãos juntas e os braços relaxados na frente do corpo. Ao final da caminhada a pessoa deve fazer a volta na direção horária.[1]
Talvez seja adequado mencionar algumas palavras sobre devoção, pois ela é muito importante na prática de meditação. Ninguém que não seja um Budista devoto adotaria a meditação Budista, pela simples razão de que ele não teria os ideais Budistas presentes no seu coração. Tomar com seriedade o Refúgio Tríplice e a compreensão da Jóia Tríplice está intimamente ligado com a meditação Budista. Um Budista realmente devoto, que dedica toda sua vida ao Dhamma, não enfrentará dificuldades insuperáveis na prática de meditação. Quaisquer obstáculos que ele encontre, ele irá superá-los, sustentado pela devoção. Ele está preparado para um caminho longo e difícil, pois ele compreende que ele é quem o fez assim. Se ele encontrar o seu caminho bloqueado, a sua meditação não progredindo e ele próprio sem um mestre, ele não vacilará ou hesitará no caminho. Ele pensa, "Eu estou agora experimentando os resultados de ações intencionais (kamma) praticadas por mim no passado". E ele se recorda das últimas palavras do Buda: "Dessa forma, bhikkhus, eu os encorajo: todas as coisas condicionadas estão sujeitas à dissolução. Esforçem-se pelo objetivo com diligência". Todas as dificuldades são coisas condicionadas e por fim irão mudar; enquanto isso, muito pode ser realizado com atenção plena, energia e devoção.
Se a pessoa não se sentir demasiado cansada após o trabalho e se houver uma oportunidade à noite, um outro período de meditação poderá ser feito. De qualquer modo, antes de dormir, praticar meditação é um hábito sábio, mesmo que sejam apenas alguns minutos, de forma a purificar a mente antes de deitar. A pessoa pode pensar da seguinte forma: "Não existe certeza, ao me deitar, que irei despertar". Uma pessoa pode, portanto, estar se deitando para morrer e essa é uma boa reflexão para estimular estados mentais hábeis e benéficos e banir estados inábeis e prejudiciais. Se a pessoa praticar dessa forma, "deitar-se pronta para morrer", será uma excelente preparação para o acontecimento real, que irá ocorrer de qualquer forma em algum momento no futuro. Pode até mesmo gerar as condições adequadas para o surgimento do insight que permite à pessoa "morrer", soltando-se do apego às coisas que não lhe pertencem, isto é, a mente e o corpo. A repetição de uma frase ou palavra do Dhamma também pode ser usada até que a pessoa adormeça. Dessa forma o dia se inicia e se encerra com a prática dos ensinamentos Budistas. E além da dedicação o dia inteiro a eles, o que poderia ser melhor?
Retiros
Com relação à segunda divisão da prática intensiva, isto é, quando feita em retiro, muito irá depender das facilidades disponíveis para o estudante sério. Existem alguns lugares no Ocidente em que se pode buscar instruções de meditação. A coisa mais importante é ter contato direto com um mestre de meditação capaz (livros servem no início, pois até mesmo um mestre pode, mais tarde, se mostrar deficiente de alguma forma). Após satisfazer essa condição, uma outra se faz necessária: a pessoa tem que se esforçar com diligência para praticar e realizar os ensinamentos. Se essas duas condições forem satisfeitas, então essa pessoa será uma das mais afortunadas entre os seres humanos.
Muitos não terão acesso a um mestre e alguns podem querer tentar um período de meditação solitária em alguma parte remota do seu país. Isso deveria ser tentado apenas se a pessoa já desenvolveu um bom poder de atenção plena. De outra forma, aquilo que se intencionava como estímulo para a meditação pode se transformar num período inútil e até mesmo acompanhado pela aparente intensificação das contaminações mentais.
Vida Diária
Quanto ao outro tipo de prática meditativa que é feita na vida diária, embora muito possa ser escrito a respeito, as seguintes breves palavras podem servir como um guia. Primeiro, a pessoa não deve enganar a si mesma com relação à concentração da mente. Não faz nenhum sentido enganar a si mesmo ou aos outros de que a vida diária é meditação - a não ser é claro que alguém já possua grandes poderes de concentração. Somente uma pessoa muito experiente, com freqüência alguém que tenha praticado durante muitos anos observando a disciplina monástica é capaz de perceber a vida do dia a dia como meditação; e é muito improvável que tal pessoa contasse para os outros esse fato. Recusando-se a dar ao orgulho uma oportunidade para distorcer a verdadeira situação do seu estado mental, a pessoa deveria ser leal para consigo mesma e admitir as suas próprias limitações. Isso já seria um grande passo adiante. A pessoa leiga que já se considera um Arahant criou de maneira muito eficaz um bloqueio para o verdadeiro progresso; enquanto que a pessoa honesta tem pelo menos a sabedoria de ser humilde.
Muito pode ser alcançado com a atenção plena, enquanto que sem ela não existe nenhuma esperança de meditação na vida diária. Como eventos comuns podem ser transformados em meditação? Por meio da atenção plena que, para começar, pode ser definida como consciência daquilo que se está fazendo no presente momento. Inicialmente, é necessário um grande esforço para que uma pessoa mantenha a atenção plena naquilo que supostamente ela estiver fazendo, nem ela deve esperar que essa atenção plena seja sempre agradável. Para escapar de uma tarefa ou situação tediosa ou que não seja apreciada, tendemos a apelar para mundos de fantasia, esperanças ou então para memórias, que são respectivamente as fugas delusas para o presente, futuro ou passado. Mas para alguém que esteja realmente interessado em conhecer a si mesmo, nenhuma dessas alternativas é muito recompensadora, já que elas são compostas de delusão com vários ingredientes tais como medo, desejo e ignorância. Enquanto que na prática estrita de meditação a atenção plena irá seguir todas as perambulações da mente, na vida diária é melhor que a mente retorne constantemente para a tarefa a ser realizada. A pessoa não deve "mandar" a mente para nenhum lugar, nem para um mundo de sonhos nem para o passado, nem para o futuro. O Buda comparou esses períodos de tempo da seguinte forma:
"O passado é como um sonho,
o futuro como uma miragem,
enquanto que o presente é como as nuvens."
Esse símile pode ser útil ao ilustrar a mente que se movimenta rapidamente entre sonhos, miragens e nuvens, todos sem substância, embora o presente em constante mutação, tal como as nuvens no céu, seja o único aspecto do tempo que pode ser comparado a coisas de maior realidade. A pessoa também pode considerar a meditação como sendo o exercício de atenção plena que mantém a mente "dentro" deste corpo, isto é, sempre focada em alguma das suas facetas. É claro que somente os meditadores mais sinceros, que percebem nisso uma vantagem maior do que qualquer prazer oferecido pelo mundo, é que provavelmente praticarão dessa forma, já que isso corta não somente o interesse por objetos externos mas também o entretenimento com idéias agradáveis e intrigantes.
De fato, com um trabalho que seja realmente interessante, o caminho da atenção plena é o único meio de transformar o seu dia em algo que vale a pena. Os dias passam e nos aproximam cada vez mais da morte e de um renascimento desconhecido, enquanto que agora é que existe a oportunidade de praticar o Dhamma. Ao invés de reagir com aversão ou fantasias deludidas em relação ao que não se gosta (ou em outras situações se entregando à cobiça), o Caminho da Atenção Plena constitui a Prática do Caminho do Meio que transcende esses padrões arcaicos de reação. Não existe necessidade de ser governado pela cobiça ou pela raiva, nem de ser dominado pela delusão; mas somente a atenção plena pode mostrar o caminho para superá-los.
Trazer a mente constantemente de volta e soltá-la dos seus enredos é a prática básica na vida do dia a dia. É sábio, também, aproveitar aqueles momentos inesperados que surgem durante um trabalho, enquanto se está aguardando para fazer algo, para encontrar alguém, ou esperando um ônibus ou trem, ou a qualquer momento em que se esteja sozinho por alguns minutos. Ao invés de pegar um jornal como distração, o celular ou uma outra pessoa para fofocar, é mais produtivo fazer um "retiro interior". Desligando a atenção dos objetos exteriores, coloque a atenção na respiração, ou na repetição de alguma frase do Dhamma, ou numa palavra importante tal como "Buddho" ou "Arahant," fazendo isso até que novamente tenha que dar atenção à sua tarefa. Voltar para dentro de si sempre que possível será muito benéfico, fortalecerá a prática sentada da mesma forma que, por sua vez, fortalecerá a habilidade de fazer os retiros interiores.
A atenção plena na respiração é particularmente boa como um método de concentração para uso durante viagens e durante os períodos em que se está esperando impacientemente por um ônibus ou trem. Porque ficar agitado ou impaciente? Um pouco de atenção plena na respiração é a prática adequada para esses momentos, já que ela acalma os movimentos exaltados da mente e os movimentos inquietos do corpo. A pessoa não precisa fitar a paisagem sem propósito enquanto viaja! Porque ser um escravo do "domínio do olho" quando um pouco de prática proveitosa pode tomar o seu lugar? A pessoa não precisa ouvir a conversa fútil dos outros, então porque ser um escravo do "domínio do ouvido"? Não se pode fechar os ouvidos, mas qualquer um pode de certa forma controlar a sua atenção ao praticar a atenção plena na respiração.
É a atenção plena, também, que auxilia a colocar o foco em contemplações neutralizadoras. A luxúria, por exemplo, é rapidamente dissipada com o pensamento de um corpo em decomposição. Os olhares concedidos a lindas garotas (ou homens bonitos) parecem ridículos quando se pensa que velhas senhoras e igualmente homens anciãos nunca atraem esse tipo de atenção cheia de desejo. Somente quando se vê como a cobiça incendeia aquele que a ela se entrega é que parece valer a pena abandoná-la.
Igualmente com a gula, que mesmo de uma forma suave, pode ser demolida ao contemplarmos os processos corporais associados à comida. A comida mastigada tem uma aparência muito menos palatável do que aquela que, ainda não misturada com a saliva, é servida bem apresentada no prato. O vômito é exatamente a mesma substância em processo de mudança, mas não estimula exatamente o desejo. O excremento, mesmo se colocado no mais fino prato de ouro, não será atrativo - no entanto, esse é o remanescente da comida que foi devorada com tanta avidez! Quando houver contemplado a comida nesses três estágios, a cobiça terá desaparecido completamente e a comida será tomada como se fosse um medicamento para conservar o corpo.
A atenção plena também é responsável por tornar-nos suficientemente conscientes num momento de raiva para que dirijamos a mente para outros objetos ou pessoas. É a atenção plena que nos adverte sobre uma situação em que a raiva poderá surgir, e é ela que possibilita que evitemos essa situação e permaneçamos com equanimidade, ou com amor bondade (metta) quando as Moradas Divinas estiverem bem desenvolvidas.
Quando a inveja mostra a sua cara feia, a atenção plena proporciona presença de espírito para saber que "a inveja surgiu" e se o esforço para despertar a alegria com a felicidade dos outros falhar, será a atenção plena que irá ajudar a permanecer com equanimidade, ou se tudo falhar, ajudará a desviar a atenção para outros objetos.
O Buda verdadeiramente disse, "A atenção plena, eu declaro, ajuda em todas as situações."
As implicações sociais da meditação deveriam ser óbvias pelo que foi dito acima. Aqueles que possuem a delusão peculiar de que o Budismo é uma religião de isolamento meditativo, que não oferece nenhum benefício social para a sociedade, devem compreender que um Budista acredita que a sociedade só pode ser mudada para melhor e com algum grau de permanência, começando o trabalho consigo mesmo. Os ideais Budistas de sociedade estão expressos num grande número de importantes discursos dirigidos pelo Buda a pessoas leigas e neles o desenvolvimento do individuo é sempre enfatizado como um fator necessário. As vantagens de uma sociedade em que existe um grande número de pessoas vivendo em paz consigo mesmas não precisam ser enfatizadas. O desenvolvimento de sabedoria e compaixão em uma pessoa tem o efeito de fermentar toda a 'massa de pão' materialista que se encontra à sua volta. O chamado Budista, portanto, consiste em primeiro conquistar a paz no próprio coração, quando então surgirá, muito naturalmente, a paz no mundo. Tentar obter a paz pelo caminho contrário não será prático, nem irá produzir uma paz duradoura, pois as raízes da cobiça, raiva e delusão ainda terão o pulso firme sobre o coração das pessoas. Impraticável? Apenas para aqueles que não praticam. Aqueles que se dedicam ao cultivo da atenção plena acabam descobrindo por si mesmos como ela ajuda a solucionar os problemas da vida.
Embora muitas viagens a lugares remotos e atrativos sejam agora realizadas com facilidade, o caminho que conduz a Nibbana ainda requer esforço. Mas se o caminho às vezes é sombrio tendo como única luz guia a atenção plena, pelo menos através da reflexão saberemos que o objetivo é glorioso e de grande valor, não somente para si mesmo mas para os outros também.
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As Moradas Divinas e o seu Aperfeiçoamento
(Brahma-vihara)
O caminho em direção ao objetivo passa pelo que chamamos de Moradas Divinas, onde as emoções profundamente enraizadas são transformadas de inábeis e prejudiciais em hábeis e benéficas de acordo com o Dhamma. Como já foi enfatizado acima, o objetivo de uma pessoa, bem como de todos os seres, é conquistar condições que produzam a felicidade. Portanto, a pessoa deve agir de tal forma que a felicidade resulte das suas ações. A pessoa deveria, nesse caso, tratar os outros da maneira como ela gostaria de ser tratada, pois cada ser vivo tem muita estima por si mesmo e deseja o seu próprio bem-estar e felicidade. A pessoa não pode esperar ter uma felicidade isolada que surja sem uma causa ou que não surja de si mesma, nem a felicidade pode ser esperada se alguém maltrata outros seres, humanos ou não. Todos os seres desejam a vida e temem a morte, sendo isso verdadeiro tanto para nós como para as outras criaturas.
Somente uma pessoa, que conduz a sua vida com dignidade e compaixão constantemente, tem realmente estima por si mesma, pois ela pratica ações que produzem grandes benefícios, grande felicidade. Outras pessoas, embora pensem que têm estima por si mesmas, são na verdade os seus piores inimigos, pois elas fazem para si mesmas aquilo que apenas um inimigo lhes desejaria.
A boa conduta depende de uma mente bem treinada que gradualmente se libertou das garras da cobiça, da raiva e da delusão. Ter tanta estima pelo próximo quanto verdadeiramente se tem por si mesmo é fácil de falar mas difícil de fazer. É um mérito particular dos ensinamentos do Buda sempre indicar como um método deve ser traduzido em experiência, o método neste caso é o treinamento da mente nas Moradas Divinas. Quando mencionamos "mente", essa palavra deve ser compreendida não no sentido restrito dos processos intelectuais, mas, particularmente, ela deve incluir o escopo completo da mente-coração, intelecto e emoções.
Existem quatro estados que pertencem às Moradas Divinas: amor bondade, compaixão, alegria altruísta e equanimidade. Esses, e especialmente o primeiro, são objetos de meditação muito populares nos países Budistas. O que segue é uma breve explicação de cada um.
Amor bondade (metta) é um amor altruísta estendido a todos. Isto se torna fácil quando as absorções (jhanas) são conquistadas e só então a qualidade do amor bondade se torna uma parte integral do caráter da pessoa. Da forma como as coisas normalmente são, as pessoas apenas "amam" aquelas poucas pessoas às quais estão especialmente ligadas por laços de família, etc. Esse é o tipo de amor com apego sensual, um amor limitado, e aqueles que se encontram fora desse amor ou são ignorados ou não se gosta deles. O amor sensual, portanto, não somente está ligado ao apego (cobiça) mas também à raiva e à delusão, de forma que a pessoa que está satisfeita com esse amor paga um alto preço por ele. Um amor sem apego dificilmente pode ser concebido por muitas pessoas, mas esse tipo de amor é muito superior ao anterior, não tendo apego ele pode se tornar infinito e não precisa estar confinado a este ou aquele grupo de seres. Como ele pode se tornar infinito, sem deixar ninguém de fora, não surge a questão das três raízes inábeis e prejudiciais estarem vinculadas a ele.
O amor bondade pode ser desenvolvido gradualmente a cada dia como parte da prática de meditação, mas para ser realmente eficaz ele precisa se mostrar na vida diária da pessoa. Ele torna a vida mais fácil transformando as pessoas que antes eram antipáticas e odiadas em indiferentes, inicialmente, mas depois, à medida que a prática vai se fortalecendo, em objetos para o surgimento do amor bondade. É o remédio do Buda para a enfermidade da raiva e da antipatia. Finalmente, o amor bondade tem dois inimigos: o"próximo", que é o apego sensual, com freqüência denominado de "amor" de forma incorreta, enquanto que o inimigo "distante" do seu desenvolvimento é a má vontade. No desenvolvimento do amor bondade é necessário tomar cuidado com os dois.
Compaixão (karuna) é sensibilizar-se em relação aos sofrimentos de outros seres no mundo. A compaixão supera a indiferença insensível para com os infortúnios dos seres que sofrem, humanos ou não. Da mesma forma, mostra-se na vida diária de uma pesssoa através da vontade de sair da sua rotina para proporcionar ajuda aonde for possível e de auxiliar aqueles que se encontram em aflição. Tem a vantagem de reduzir o próprio egoísmo pela compreensão dos sofrimentos dos outros. É o remédio do Buda para a crueldade, pois como alguém pode causar dano aos outros tendo visto o quanto eles estão sofrendo? A compaixão também tem dois inimigos: o "próximo" que é a simples pena ou dó; enquanto que o inimigo "distante" é a crueldade.
Alegria altruísta (mudita) é alegrar-se com os outros pelos seus êxitos, ganhos e felicidade. A alegria altruísta supera a atitude de rancor em relação aos outros e a inveja que pode surgir ao saber da alegria dos outros. Mostra-se na vida de uma pessoa como uma alegria espontânea no momento exato em que ela toma conhecimento de que outras pessoas obtiveram algum tipo de ganho, material ou imaterial. Tem a vantagem de fazer com que a pessoa seja franca com as demais e elimina a dissimulação. Uma pessoa que desenvolve a alegria altruísta atrai muitos amigos que lhe são devotados e com eles e os demais ela vive em harmonia. É o remédio do Buda para a inveja e o ciúme que podem ser completamente inibidos. Os dois inimigos da alegria altruísta são a simples alegria pessoal ao refletir sobre os próprios ganhos - esse é o inimigo "próximo"; enquanto que o "distante" é a aversão ou o descontentamento.
Equanimidade (upekkha) deve ser desenvolvida para lidarmos com situações difíceis cuja mudança, deveríamos admitir, está acima das nossas forças. A equanimidade supera a preocupação e a distração inúteis em relação a assuntos que, ou não dizem respeito à pessoa, ou não podem ser mudados por ela. Deve aparecer na vida diária da pessoa como uma habilidade para enfrentar situações difíceis com tranqüilidade e paz mental imperturbável. A vantagem no seu desenvolvimento é que simplifica a vida com o desligamento de atividades inúteis. É o medicamento do Buda para a distração e a preocupação e os seus inimigos são a pura indiferença, que é o inimigo "próximo"; enquanto que a cobiça e o seu parceiro ressentimento, que envolvem a pessoa de maneira inábil em tantos assuntos, são os seus inimigos "distantes".
A mente que praticou bem essas quatro virtudes e depois treinou bem o seu uso na vida diária, já conquistou muito.
Três das perfeições (parami), ou qualidades, praticadas por muitos Budistas que aspiram à Iluminação também podem ser esboçadas a seguir, já que elas também possuem uma influência profunda na prática da meditação.
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A Paciência e seu Aperfeiçoamento
(Khanti-parami)
A paciência é uma excelente qualidade, muito elogiada nas escrituras Budistas. Ela pode ser desenvolvida com facilidade apenas se a inquietação e a raiva já estiverem subjugadas na mente, tal como é feito na prática de meditação. A impaciência, que tem a tendência de fazer com que a pessoa se apresse muito e por isso perca muitas oportunidades boas, resulta da inabilidade em ficar parado e permitir que as coisas se resolvam por si mesmas - o que algumas vezes pode ocorrer sem que alguém tenha que intervir. A pessoa paciente acaba obtendo muitas coisas de graça que não são obtidas pela pessoa empreendedora. Uma delas é uma mente tranqüila, pois a impaciência agita a mente e traz consigo as conhecidas enfermidades decorrentes da ansiedade do mundo moderno dos negócios. A paciência tolera em silêncio - é essa qualidade que faz com que ela seja tão valiosa no treinamento mental e particularmente na meditação. Não há motivo para esperar a iluminação instantânea depois de cinco minutos de prática. O café pode ser instantâneo, mas a meditação não é e só haverá dano ao tentar apressá-la. Ao longo dos anos o lixo foi se acumulando, uma pilha enorme de lixo mental, e então quando alguém começa a removê-lo com uma pequena colher de chá, com que rapidez pode-se esperar que ele irá desaparecer? A paciência é a resposta acompanhada pela energia decidida. O meditador paciente realmente obtém resultados duradouros; aquele que busca "métodos rápidos" ou "iluminação instantânea" está condenado por sua própria atitude a um grande desapontamento. De fato, em pouco tempo deve ficar claro para qualquer um que investigue o Dhamma, que esses ensinamentos não servem para as pessoas impacientes. Um Budista enxerga a sua vida atual como algo breve, talvez com uma duração de oitenta anos, mais ou menos, e a última das inúmeras vidas vividas até agora. Tendo isto em mente, ele determina fazer o máximo que possa nesta vida para alcançar a Iluminação. Mas ele não superestima a sua capacidade; ele calmamente e pacientemente segue vivendo o Dhamma no dia a dia. Precipitar-se em direção à Iluminação (ou àquilo que a pessoa pensa ser), é como um touro em uma loja de cristais, ele não irá fazer muito progresso, isto é, exceto se a pessoa for de uma natureza excepcional que seja capaz de suportar esse tipo de tratamento e, o mais importante, que seja dedicada a um mestre de meditação bastante habilidoso. Com paciência a pessoa não irá se magoar, mas irá seguir pelo caminho de maneira cuidadosa, passo a passo. Aprendemos que um Bodisatva está bem consciente disso e que ele cultiva a sua mente com essa perfeição de forma que ele não seja perturbado por nenhuma das ocorrências desagradáveis comuns neste mundo. Ele decide que será paciente com as condições externas - não se perturbando se o sol estiver demasiado quente ou o clima demasiado frio. Ele não ficará agitado se outros seres atacarem o seu corpo, tal como insetos e mosquitos. Nem ficará perturbado quando as pessoas disserem palavras grosseiras, mentiras ou insultos a seu respeito, quer seja diretamente ou pelas costas. A sua paciência não se abala nem mesmo quando o seu corpo for submetido ao sofrimento, golpes, paus e pedras, torturas e até mesmo a própria morte; ele irá suportar tudo isso firmemente, tão inabalável é a sua paciência. Aos monges Budistas se recomenda praticar da mesma forma.
Na tradição Budista a perfeição da paciência é particularmente mais conhecida do que as outras. Isso se deve ao exemplo dado em uma extraordinária História de Nascimento (Jataka). A História do Nascimento de Khantivadi (O Mestre da Paciência)[2] deve ser lida com freqüência e ser objeto de profunda e freqüente reflexão. Somente uma pessoa excepcionalmente nobre, neste caso Gotama, em uma das suas vidas anteriores, quando ele era chamado de o Mestre da Paciência, chegou a exortar um monarca enraivecido e bêbado que devido à sua raiva enciumada vagarosamente esquartejava o seu corpo. O Bodisatva possuía esse tipo de nobreza e essa nobreza, tolerância constante e benevolência, é exigida de todos que tentam alcançar o objetivo da Iluminação.
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A Energia e o seu Aperfeiçoamento
(Viriya-parami)
Assim como é inconcebível a Iluminação se a pessoa não tiver paciência, a Iluminação também não pode ser alcançada sem esforço. O Dhamma nunca encoraja a doutrina do fatalismo e os verdadeiros Budistas nunca pensam que os eventos sejam rigidamente predeterminados. Esse tipo de fatalismo é combatido pela própria atenção plena e pela própria energia. Esta perfeição é a contrapartida da anterior e é equilibrada pela prática, ambas asseguram que o Budista sincero nem aceitará passivamente aquilo que ele deve combater, nem se precipitará perturbando a si mesmo e aos outros quando ele deveria ter paciência. Deveria ser mencionado aqui, como aviso, que no mundo Budista podem ser encontrados um grande número de "métodos" que aparentam prometer as riquezas do Dhamma num piscar de olhos. A pessoa ouve comentários do tipo, "Qual a utilidade de livros e estudo?" Ou mesmo, "O desenvolvimento da concentração é uma perda de tempo! A pessoa deveria apenas praticar vipassana." Esse tipo de abordagem tendenciosa não reflete a sabedoria do Buda, que sempre ensinava a necessidade de um desenvolvimento equilibrado da mente. Livros e o seu estudo são úteis para algumas pessoas que desejam obter uma boa base daquilo que o Buda realmente disse, antes de adotar uma prática mais intensiva. Quanto à outra afirmação, nenhum insight verdadeiro (apenas idéias deludidas) irão surgir na pessoa cuja mente não experimenta a concentração. Idéias como essas, que usualmente estão baseadas em alguma experiência peculiar dos "mestres" que as originam, são capazes de enganar a muitos, já que o desejo por resultados rápidos, combinado com a antipatia pelo trabalho duro necessário, são facilmente estimulados. Tem que haver paciência para aceitar que as condições requeridas para obter sucesso na meditação (tal como descrito aqui) têm que ser satisfeitas e que o único resultado, se assim não for feito, será desviar-se do Caminho. O meditador se dedica com firmeza a qualquer tarefa que tenha que desempenhar e ao concluí-la, não se sente cansado mas imediatamente toma um novo objetivo.
Com respeito a isso, é interessante que há dois tipos de cansaço: aquele relativo à exaustão física e o outro tipo que é induzido mentalmente e que envolve os fatores inábeis e prejudiciais da preguiça e do torpor. Enquanto que o primeiro é obviamente inevitável, o último ocorre apenas quando a raiz inábil e prejudicial da delusão (ou embotamento) se torna predominante na mente. Isso ocorre quando há uma situação que é desagradável para "mim", não desejada e da qual "eu" quero escapar. As pessoas se queixam que ficam muito mais cansadas ao praticar meditação sentada intensamente do que quando por exemplo se dedicam a uma leitura pesada. Quando o eu se sente ameaçado por um evento que poderá revelá-lo, então esse eu, enraizado na ignorância, cria uma densa névoa de torpor que tem sua origem na delusão. Por outro lado, muitos que têm praticado muita meditação observam que já não precisam dormir tanto quanto antes, enquanto que a energia, quando se torna uma perfeição tal como praticada pelo Bodisatva, é totalmente natural e não forçada.
Esta perfeição é ilustrada pela história do líder de uma caravana que salvou os mercadores, homens e animais confiados ao seus cuidados, através da ação vigorosa. Quando outros teriam se entregado à morte, já que a caravana havia tomado um caminho errado no deserto e todos os suprimentos estavam exauridos, o líder forçou um deles a que cavasse em busca de água, que foi encontrada. Dessa forma, em uma vida passada Gotama, como o líder da caravana, fez esforço não somente pela sua própria vida mas também pelo bem estar dos outros. Os monges também são chamados de "líderes de caravana" em muitos textos das escrituras em Pali, mostrando que não é somente o Buda ou um Bodisatva que é capaz de guiar outros. Se conduzirmos o nosso treinamento com energia então nós também teremos energia para o progresso dos outros. Muitas outras histórias como essa podem ser encontradas nos textos Budistas mostrando o quão necessária é a energia, da qual nascem a persistência e a determinação para ver aquilo que é verdadeiramente real, Nibbana.
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A Concentração e o seu Aperfeiçoamento
(Samadhi-parami)
Tomando em conta os significados dessa palavra em conjunto com outros termos especializados como desenvolvimento da mente (bhavana), absorções (jhana), insight (vipassana), unicidade da mente em um só ponto (ekaggata) e exercício de meditação (kammatthana), poderemos agora examinar o que constitui a concentração perfeita. O que distingue particularmente a boa prática Budista, quer seja de um Bodisatva ou não, daquela de um meditador comum, (de qualquer religião), é que este último irá muito provavelmente se apegar firmemente aos prazeres que ocorrem nos níveis superiores do reino da esfera sensual, ou aos puros prazeres do reino da matéria sutil e, como resultado, irá renascer em um desses estados divinos. Se uma pessoa se deixar aprisionar em um desses destinos, onde os prazeres e alegrias são muitos e os sofrimentos mínimos, então é improvável que ela venha ser capaz de gerar a energia necessária para o aperfeiçoamento da sabedoria. Por isso, o bom meditador se torna proficiente nas absorções, (de forma que ele possa penetrá-las quando quiser e emergir quando quiser), sem no entanto apegar-se a elas. Mas deve-se notar que isso se aplica apenas ao meditador habilidoso que já conquistou as absorções. Se alguém ainda não alcançou esses níveis, então a aspiração ardente, não o desapego, será a atitude correta.
Depois que essas absorções tenham sido alcançadas, elas podem ser examinadas como impermanentes, insatisfatórias e desprovidas de um eu ou alma, (aniccam, dukkham, anatta), nesse momento o desapego em relação às absorções irá surgir naturalmente e o insight, (vipassana), será experimentado. As absorções, (e os poderes que podem surgir em conexão com elas), são portanto, no método Budista de treinamento, nunca um fim em si mesmas mas são sempre usadas para promover o insight e a sabedoria que surgem quando a mente concentrada toma a tarefa de examinar a mente e o corpo para conhecer de forma completa as suas características.
Uma história que exprime o significado desta perfeição é a vida de Kuddalamuni. O seu nome significa o sábio do Alvião e ele era assim chamado devido à dificuldade que tinha para livrar-se do seu apego ao seu alvião. Em muitas ocasiões ao deixar a sua casa com a intenção de meditar na floresta, ele era arrastado de volta pela memória do seu alvião e da sua antiga ocupação de agricultor. Um dia, refletindo acerca da inconstância com a qual ele se dedicava à meditação, ele tomou o seu alvião e girando-o sobre a sua cabeça o arremessou nas profundezas do Ganges. Tendo feito isso, ele explodiu com um grande grito de alegria. O rajá local, que estava passando por ali com o seu exército, enviou um homem para investigar porque aquele agricultor estava tão feliz, o sábio replicou relatando a sua experiência. O rajá e muitos outros ficaram muito impressionados com a resposta e alguns o seguiram para se dedicar à vida meditativa na floresta, depois do que, nos contam, todos faleceram para experimentar a vida no reino da matéria sutil. O sábio do alvião que não era outro que Gotama em uma vida passada, exibindo um outro aspecto da perfeição da meditação: a habilidade para treinar outros na meditação após ele mesmo ter obtido proficiência nela.
Por fim, podemos acrescentar algumas notas resumidas sobre alguns dos perigos da prática de meditação.
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Perigos na Meditação
Enquanto a quantidade de formas que podem fazer com que um meditador se desvie do caminho são muitas, as mencionadas abaixo merecem atenção especial devido à sua ocorrência frequente. Primeiro, um perigo que nunca é demais enfatizar é a falta da motivação correta para a prática de meditação. Ao descrever o Nobre Caminho Óctuplo, na sua seção de "sabedoria", imediatamente em seguida ao entendimento (inicialmente) intelectual correto, vem a motivação (ou pensamento) correta, dessa forma enfatizando que as raízes emocionais por trás da prática do Caminho devem ser hábeis: aquelas conectadas com a renúncia (ausência de cobiça), amor bondade (ausência de raiva) e não violência são mencionadas. Se alguém começar a praticar a meditação Budista sem o entendimento correto de dukkha e a sua cessação e sem a motivação correta, então a meditação estará sujeita a seguir por caminhos completamente errados.
Existem aqueles, por exemplo, que iniciaram a prática de meditação como forma de obter poderes, para que pudessem facilmente influenciar ou hipnotizar os discípulos. Outros a viram como uma maneira rápida de obter tanto discípulos como riquezas. A fama também pode ser um motivo torpe. Tudo isso tomado como motivação para a meditação, pode facilmente conduzir aquele que é descuidado à enfermidade e às vezes ao desequilíbrio mental. Não existe nada pior na meditação Budista, onde a própria experiência pessoal é de suma importância, do que um discípulo cru que se apresenta como um mestre.
Isto obviamente conduz a um outro tipo de perigo - o orgulho, do qual existem várias formas. Uma delas é o orgulho da pessoa que viu manifestações de luz durante a meditação e supõe que esse seja um sinal que antecede a absorção mental. Depois existe o orgulho daquele que toca uma absorção mental apenas por um instante e como resultado assume que se tornou um dos Nobres e isso pode ser um poderoso fator para convencer a si mesmo e até mesmo aos outros. Pessoas comuns que se dedicam à meditação devem tomar cuidado com atitudes de exibição de virtudes superiores: "Eu faço o esforço, enquanto que você…" ou, "Eu medito todos os dias, enquanto que você…" O orgulho é um grande obstáculo a qualquer progresso e na medida que somente um Buda ou Arahant está totalmente livre disso, cada um deveria ter a atenção plena para manter o orgulho sob controle.
Relacionado a isso, existe o perigo para aquela pessoa que sempre está à procura do chamado progresso. Ela está segura que está fazendo "progresso" porque na meditação ela vê luzes, ouve sons, ou sente sensações estranhas. Ela se torna cada vez mais fascinada por essas ocorrências à medida que o tempo passa e gradualmente se esquece de que começou com a aspiração de encontrar o caminho para a Iluminação. A sua "meditação" então degenera para visões e ocorrências estranhas, conduzindo-a para as esferas do ocultismo e da magia. Não existe maneira mais segura do que esta para um meditador ficar confuso. A despeito de que tais manifestações possam ser fascinantes, elas devem ser eliminadas com vigor lançando-se mão da atenção plena, nunca permitindo que o pensamento discursivo a seu respeito surja e assim evitando essas distrações.
Entre as "visões" que podem ocorrer, quer sejam internas (produzidas pela própria mente) ou externas (produzidas por outros seres), alguns meditadores podem ter uma experiência atemorizante, tal como uma visão do próprio corpo reduzido a ossos ou inchado como um cadáver em decomposição. Se ocorrer uma experiência dessas, ou outras semelhantes, a pessoa deve arrancar a mente da visão imediatamente, na hipótese de que ela não possua um mestre. Visões atemorizantes que algumas pessoa experimentam podem ser muito úteis se utilizadas da forma correta, mas sem a orientação de um mestre elas devem ser evitadas.
Um outro perigo é tentar meditar enquanto a pessoa ainda está insegura emocionalmente, desequilibrada ou imatura. Compreender o valor de ações meritórias ou habilidosas pode ser muito útil nesses casos. Como o mérito purifica a mente, é uma base excelente para o desenvolvimento da mente e, ambos, a facilidade com que as absorções são alcançadas e a facilidade com que o insight surge estão até certo ponto na dependência do mérito. Ações meritórias não são difíceis de serem encontradas na vida. Elas são o núcleo da boa vida Budista: donativos e generosidade, seguir os preceitos, ajudar e prestar serviços aos outros, reverência, ouvir o Dhamma de todo coração, fazer com que o entendimento do Dhamma seja correto, todas essas e muitas outras são ações meritórias que trazem a felicidade e maturidade emocional. O Mérito, a pessoa deve se lembrar sempre, abre portas em todos os lugares. Cria possibilidades, gera oportunidades. Ter uma mente que está todo o tempo focada em realizar mérito é ter uma mente que poderá ser treinada no desenvolvimento das absorções e do insight.
Obviamente que tentar praticar a meditação e ao mesmo tempo continuar mantendo os antigos desejos, gostos e desgostos, é, no mínimo, dificultar o caminho, se não torná-lo perigoso. A meditação implica em renúncia, e nenhuma prática terá êxito a não ser que a pessoa esteja, no mínimo, preparada para fazer esforços para refrear a cobiça e a raiva, controlar a luxúria e entender quando a delusão estiver obscurecendo o coração. Até que ponto a renúncia é adotada e se isso envolve mudanças externas (tal como tornar-se um monge ou monja), depende muito da pessoa e das suas circunstâncias, mas uma coisa é certa: a renúncia interna, caracterizada pela atitude de desistência dos eventos mentais inábeis e prejudiciais e da entrega aos prazeres corporais, são absolutamente essenciais.
Com freqüência, conectado aos perigos acima, existe um outro que é encontrado quando uma pessoa, repentinamente, tem uma oportunidade para se dedicar a um período mais longo de meditação. Ela senta com uma firme resolução, "Agora irei meditar", e apesar da sua energia nunca ter estado tão boa e apesar de ela sentar e sentar, caminhar e caminhar, ainda assim a sua mente continua perturbada e sem paz. Pode muito bem ser que o seu intenso esforço tenha muito a ver com as suas distrações. Além disso, ela tem que aprender que é necessário meditar conhecendo as limitações do seu caráter. Da mesma forma como um trabalhador conhece os limites da sua força e toma cuidado para não se exaurir, o mesmo cuidado possui o meditador habilidoso. Através da atenção plena a pessoa deve saber quais são os extremos da preguiça e do esforço que devem ser evitados.
É provocando tensão ou forçando a prática da meditação que muitos estados emocionais perturbados surgem. Explosões repentinas de raiva intensa por questões insignificantes, desejos e luxúria intensos, delusões estranhas e fantasias ainda mais peculiares podem ser produzidas pela prática árdua sem inteligência.
Com todos esses perigos, o que mais se necessita é um mestre para dar conselhos, de forma que essas e outras direções erradas sejam evitadas e a pessoa se mantenha no caminho para Nibbana. Aqueles que não possuem um mestre deveriam prosseguir com o máximo de cautela, assegurando que o desenvolvimento da atenção plena seja realmente muito bom. Se tiverem atenção plena e virem que apesar dos seus esforços, a sua prática de meditação não está produzindo nenhuma diferença efetiva nas suas vidas em termos de uma maior paz interior, ou externamente em relação aos outros, então é evidente que algo está errado. A meditação pode ser deixada de lado durante algum tempo enquanto se faz um esforço para contactar uma fonte de informação genuína, de preferência um mestre de meditação, enquanto isso, deve-se atentar para problemas morais não resolvidos, pois até que eles sejam solucionados não permitirão que a mente se desenvolva; e fazer um grande esforço para viver de acordo com os padrões Budistas. Quando assuntos tão básicos desse tipo são negligenciados, a pessoa não pode esperar realizar muito progresso na prática do Caminho do Meio.
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Apêndice
40 Exercícios de Meditação
conforme relacionado no Caminho da Purificação (Visuddhimagga)
Se a pessoa não tem um mestre de meditação de quem possa solicitar um objeto de meditação, então ela terá que contar com o seu próprio conhecimento sobre o seu caráter para prescrever uma meditação adequada para si mesma. Existem quarenta exercícios de meditação (kammatthana) registrados pelo eminente mestre Buddhaghosa como sendo adequados para certos tipos de caráter. Para efeitos de meditação, ele considera seis tipos de caráter: fiéis, inteligentes e especulativos (aqueles em que as raízes hábeis e benéficas da ausência de cobiça, ausência de raiva e não delusão são dominantes de formas variadas); e cobiçosos, raivosos e deludidos (em que as raízes inábeis e prejudiciais da cobiça, raiva e delusão são dominantes). Existem dois problemas com essa classificação: primeiro, tipos "puros" são raramente encontrados, sendo que a maioria das pessoas são mesclas de dois ou mais tipos - e além disso uma mescla em constante mutação; e segundo, é particularmente difícil julgar a qual classe pertence o caráter de uma pessoa já que a sua delusão e o orgulho são capazes de nublar a sua capacidade de julgamento. Esse é um assunto aparentemente sem importância no qual o valor de um mestre de meditação pode ser enxergado com facilidade. No entanto, a pessoa pode aprender muito sobre si mesma, ao estar plenamente atenta no momento em que algum evento inesperado ocorra. Nesse momento a pessoa pode identificar a sua reação e as contaminações que estão presentes na mente. Julgamentos subseqüentes não valem muito já que nesse momento a mente já estará convencida com as suas próprias justificativas e outros tipos de distorções acerca do evento original.
Abaixo encontra-se a lista dos quarenta exercícios de meditação com algumas notas sobre a sua prática, os tipos de caráter que se beneficiam e os tipos de contaminações que são combatidas por cada um. Os exercícios de meditação usados com mais freqüência estão indicados com um asterisco (*).
Dez Kasinas (esferas, lit: totalidades)
1. terra
2. água
3. fogo
4. ar
5. azul
6. amarelo
7. vermelho
8. branco
9. luz *
10. Espaço limitado
5-8 recomendados para a prática de personalidades enraivecidas devido às suas cores puras e agradáveis.
Exceto pelos itens 5-8, nenhuma mácula moral em particular é contraposta por estas dez kasinas. Como elas devem ser desenvolvidas através do olho, elas não são adequadas para quem tenha a visão débil (de acordo com Buddhaghosa).
A única das dez kasinas que parece ser muito praticada atualmente é a kasina da luz, que algumas pessoas descobrem surgir com bastante naturalidade ao começar concentrar a mente. Apesar de que as explicações de Acariya Buddhaghosa no Caminho da Purificação tendem a enfatizar a importância de se usar recursos externos para a prática (como fazer a kasina da terra é descrito em grande detalhe), sempre que o autor ouviu sobre o seu emprego (na Tailândia), elas foram sempre sob a forma de visões (nimitta) que surgem internamente e são desenvolvidas a partir dessa base. Parece que a contemplação de uma kasina externa é desconhecida na Tailândia.
Dez Tipos de Objetos Repulsivos (asubha)
11. O (cadáver) inchado contrapondo o deleite com a beleza das proporções
12. O lívido ... beleza das complexões
13. O supurado ... odores e perfumes
14. O esquartejado ... totalidade ou solidez
15. O consumido ... corpo bem provido de carnes
16. O disperso ... graça dos membros
17. O picado e disperso ... graça do corpo como um todo
18. O sangrento ... ornamentos e jóias
19. O infestado pelos vermes ... posse do corpo
20. O esqueleto ... ter ossos e dentes belos
11-20 recomendados para personalidades cobiçosas.
Estas e outras listas semelhantes no Satipatthana Sutta refletem uma época em que era comum se desfazer dos cadáveres em cemitérios a céu aberto. Agora, no entanto, mesmo nos países Budistas eles são difíceis de ser encontrados, sem falar nos países do Ocidente. Atualmente, na Tailândia, os mestres enfatizam que o próprio corpo deve ser visto dessas formas, como uma visão (nimitta), durante o processo de desenvolvimento da mente. Como essas visões podem ser atemorizantes, a pessoa deve ter a orientação de um mestre hábil para lidar com tais visões, quando então elas poderão ser de grande benefício. Deve ser enfatizado aqui que não existe nada de mórbido na contemplação de visões como essas, interiores ou exteriores. A decomposição do corpo é algo natural, mas normalmente não é visto assim porque as pessoas não gostam de admitir isso. Ao invés de encarar a decomposição do corpo e mostrá-la abertamente, os cadáveres são até mesmo preparados para parecerem atrativos por embalsamadores e maquiadores e quando isso não pode ser feito, eles são arrumados em bonitos caixões com flores resplandecentes, etc. O treinamento Budista faz com que a pessoa olhe diretamente para esses aspectos da vida que normalmente (isto é, com cobiça) não são considerados "bons", e faz com que a pessoa calmamente os encare em relação à sua própria mente e corpo.
Dez Contemplações (anussati)
21. sobre o Buda *
22. " o Dhamma
23. " a Sangha
24. " virtude (sila) ..... {contrapõe a contaminação (kilesa) da má conduta (duccarita)}
25. " generosidade ..... {contrapõe a mesquinhez (macchariya)}
26. " celestiais ..... {contrapõe a dúvida (vicikiccha)}
27. " morte ..... {contrapõe a preguiça}
28. " corpo * ..... {contrapõe a cobiça e a sensualidade (kama-raga)}
29. " respiração * ..... {contrapõe a delusão, preocupação}
30. " paz ..... {contrapõe a perturbação}
21-26 recomendado para os tipos de personalidade baseadas na fé
27 " " personalidades inteligentes
28 " " personalidades cobiçosas
29 " " personalidades deludidas/especulativas
30 " " personalidades inteligentes
Este grupo de dez possui características mais variadas do que os dois grupos anteriores. Ao praticar as três primeiras contemplações (21-23) a pessoa recita as listas das qualidades de cada um. Ou, se a mente não ficar concentrada dessa forma, a pessoa escolhe uma qualidade em particular para recitá-la silenciosamente e continuamente (tal como "Buddho" ou "Araham"). Rosários são usados em alguns lugares em conexão com este tipo de prática. As contemplações sobre virtude e generosidade são particularmente boas de serem cultivadas durante a velhice. A pessoa revê todas as ações meritórias (puñña) praticadas ao longo da vida e ao recordá-las a mente fica tranqüila e satisfeita, e tendo esse estado mental no momento da morte irá assegurar um renascimento em condições muito favoráveis. A menos que tenha visto algum, a pessoa somente poderá refletir sobre seres celestiais (deva) baseado na sua fama. Este tipo de prática é adequada para aquelas pessoas que incrementaram o alcance das suas mentes e dessa forma fizeram contato com outros seres mais sutis. A contemplação sobre a morte pode ser feita por personalidades inteligentes já que elas não ficarão atemorizadas pelas possibilidades que este tipo de prática revela. É um grande incentivo praticar agora sabendo que não existe certeza se daqui a um segundo a pessoa ainda estará viva. A contemplação vinte oito - sobre o corpo - é para personalidades cobiçosas, que precisam desenvolver desapego em relação ao corpo. Isto é alcançado através da análise do corpo em trinta e duas partes desprovidas de beleza e depois através da seleção de uma ou mais dessas partes e o seu exame. No entanto, esta prática atinge a sua perfeição quando através do insight o corpo é iluminado e os seus vários componentes são vistos com clareza e a sua natureza é compreendida. A atenção plena na respiração é recomendada para acalmar e aclarar a mente e pessoas de quase todos os tipos de temperamento podem praticá-la com benefício, embora muito cuidado seja necessário nos níveis mais sutis desse exercício. A respiração nunca é forçada mas observada constantemente com atenção plena, sendo que o ponto para a concentração em geral é a ponta do nariz ou narinas. No entanto existem variações entre mestres distintos. A contemplação sobre a paz, diz o grande Acariya, somente beneficia quem já experimentou Nibbana, tal como aqueles que já entraram na correnteza (sotapanna); mas outras pessoas podem obter alguma calma através da contemplação da tranqüilidade. A paz mencionada nesse caso é na verdade Nibbana, e como uma pessoa não pode se recordar daquilo que não conheceu, que é o caso de uma pessoa mundana (puthujjana), esta é uma prática para os Nobres (ariya).
Quatro Moradas Divinas (Brahma-vihara)
31. amor bondade * ..... {contrapõe a impureza da raiva, má vontade}
32. compaixão ..... {contrapõe a indiferença insensível}
33. alegria altruísta ..... {contrapõe a inveja}
34. equanimidade ..... {contrapõe a preocupação}
31 recomendado para personalidades enraivecidas
Quatro Estados sem forma (arupa-bhava)
35. esfera do espaço infinito
36. " " consciência infinita
37. " " nada
38. " " nem percepção, nem não percepção
Estas absorções sem forma não podem ser desenvolvidas exceto se as quatro absorções da forma já tiverem sido aperfeiçoadas. Diz-se que este grupo de quatro pode ser explorado com base na quarta absorção (jhana). Como existe a possibilidade de que muito poucas pessoas experimentem isto, seguimos adiante para:
Percepção do aspecto repulsivo da Comida
39. Enquanto isto é essencial para o bhikkhu que depende de alimentos esmolados (que algumas vezes são bons outras não), as pessoas leigas também podem se beneficiar com esta prática, que Acariya Buddhaghosa observou ser para personalidades inteligentes, e que está projetada para diminuir e conduzir à destruição da cobiça e da gula.
Definição dos Quatro Grandes Elementos
40. Eles são a terra (solidez), água (coesão), fogo (temperatura), e ar (movimento), os quais caracterizam os nossos corpos físicos. Esses elementos podem ser percebidos através de uma análise baseada no uso da atenção plena. Se diz que esta prática é particularmente aconselhada para as personalidades inteligentes.
Aquelas práticas que não fazem menção a um tipo de personalidade são adequadas para todas. Como todas essas práticas possuem como objetivo o enfraquecimento e por fim a destruição das contaminações (kilesa), a pessoa pode avaliar o quão importantes elas são consideradas no treinamento Budista. Onde as contaminações são encontradas, ali a penumbra da ignorância tem domínio, mas onde elas não são encontradas, ali brilha a sabedoria e compaixão da Iluminação.
Bhikkhu Khantipalo
Conteúdo:
Prefácio
Duas Correntes de Meditação
Conselhos Práticos para Meditadores
As Moradas Divinas e seu Aperfeiçoamento
A Paciência e seu Aperfeiçoamento
A Energia e seu Aperfeiçoamento
A Concentração e seu Aperfeiçoamento
Perigos na Meditação
Apêndice: 40 Exercícios de Meditação
Notas
Prefácio
As páginas que seguem, inicialmente, foram escritas para compor as novas seções a serem adicionadas na segunda edição do meu livro introdutório sobre o Dhamma, O Que é o Budismo (What is Buddhism?).
No entanto, como muitas pessoas possuem um grande interesse na prática de meditação mas estão distantes das fontes onde se encontram as tradições vivas, espero que o texto que segue produza benefícios, mesmo estando separado das seções do livro às quais serve de complemento.
Quando pensamos em meditação, nunca é demasiado enfatizar a importância de termos as razões corretas ao adotarmos a sua prática. Meditação,ou, a melhor tradução de samadhi - concentração - é somente um aspecto da prática Budista, e deve, para ser bem sucedida, andar de mãos dadas com outras práticas tais como a generosidade, nobreza, não violência, paciência, contentamento e humildade.
Se essas genuínas qualidades do Dhamma, inicialmente, não existirem na pessoa, nem se desenvolverem através da prática, então existe algo de muito errado e somente uma pessoa muito tola tentaria prosseguir.
A prática da concentração se apóia sobre uma sólida base de virtude (sila) e não será bem sucedida se a pessoa não fizer um esforço verdadeiro para seguir os preceitos de maneira rigorosa. Os sinais de "progresso" na concentração não são visões estranhas, sensações peculiares ou outras coisas do gênero (embora seja concebível que elas também possam surgir nos casos em que o progresso é realizado), mas, particularmente, um crescimento abrangente e harmonioso no caminho do Dhamma.
Se alguém não possui um mestre, deve estar duplamente vigilante, pois de outra forma, não terá consciência se alguma das distrações de Mara estiver prestes a ter êxito, ou, se na verdade está avançando na prática do Caminho do Meio.
Este ensaio é uma síntese de Buddhism Explained, a segunda edição (revisada e ampliada) do livro anteriormente conhecido como What is Buddhism? publicado por The Social Science Press of Thailand, Phya Thai Road, Chula Soi 2, Bangkok.
Bhikkhu Khantipalo
Duas Correntes de Meditação
Duas correntes de meditação Budista, aparentemente distintas, podem ser distinguidas, embora elas sejam vistas como complementares quando a meditação estiver estabelecida.
Pode ser produtivo para algumas pessoas, cujas mentes são muito ativas e que sofrem com a distração, acompanhar com atenção plena as acrobacias da mente traquinas. Como a mente é na verdade uma série de eventos mentais que surgem e desaparecem com incrível rapidez, sendo que, cada um desses eventos é uma mente completa com os seus fatores mentais de apoio, no início este tipo de atenção plena é na verdade uma mente "plenamente atenta" observando outras "mentes" (que logicamente estão todas dentro do próprio contínuo mental da pessoa).
Através disso a pessoa desenvolve a habilidade de olhar para a mente e ver para onde ela está indo. Ela foi para o passado, presente ou futuro ? Foi para a materialidade, ou para as sensações, ou talvez para as percepções, para as atividades volitivas, ou ela foi para a consciência? Através deste método, "Para onde ela foi”?, a mente distraída, pouco a pouco, irá se encontrar sob a vigilância da mente plenamente atenta, até que a atenção plena crie uma base sólida para desenvolvimentos adicionais.
Importante, embora mundana, a clareza mental é ao mesmo tempo necessária e desenvolvida através desta prática, que no entanto deve ser equilibrada pela tranqüilidade das absorções (jhanas). Quando a mente tiver se acalmado, a pessoa deve começar a praticar a concentração (jhanas), que será por seu lado a base para o surgimento do verdadeiro insight. Este método é denominado "a sabedoria que conduz à tranqüilidade".
Outro método, adequado para aquelas pessoas cujas mentes no início não são tão perturbadas, inclui os tradicionais quarenta objetos de meditação (veja o Apêndice); e esses envolvem o uso de um objeto esepcifico para a concentração. Esse objeto pode ser o próprio corpo ou uma parte dele, uma cor ou um desenho, uma palavra ou uma frase, ou a contemplação abstrata e assim por diante. Todos esses métodos envolvem um tanto de disciplina mental, firme porém gentil, em que cada vez que a mente começar a vagar, ela precisa ser trazida de volta gentilmente (com a atenção plena, é lógico), para se concentrar novamente no objeto escolhido.
Algumas pessoas possuem a idéia equivocada de que esse tipo de prática deve necessariamente conduzir à tranqüilidade, praticamente de imediato. Elas poderão se surpreender ao iniciar a prática, visto que, de fato experimentarão mais problemas do que tinham antes. Isso ocorre, primeiro, porque elas na verdade nunca olharam antes dentro da própria mente para saber o estado em que ela sempre esteve; e segundo, porque ao disciplinar a mente, é como se a pessoa agitasse um lago estagnado com uma vara , ou cutucasse com uma vara um fogo latente sob as cinzas.
O elefante selvagem da mente, há muito tempo acostumado a vagar pela floresta dos desejos, não aceita a domesticação de bom grado, ou ser amarrado ao poste da prática com as correias da atenção plena. No entanto, a diligência e o zelo irão finalmente assegurar os frutos da tranqüilidade.
Todos os quarenta objetos fazem parte do segundo método em que a calma obtida com a prática é então usada para despertar a sabedoria. Por isso eles são chamados de métodos da "tranqüilidade que conduz à sabedoria" e são muito importantes nos tempos atuais de distrações. A sua explicação completa pode ser encontrada no Path of Purification (Visuddhi-magga), embora nem mesmo o grande ensinamento contido nesse livro possa substituir o contato pessoal com um mestre.
Conselhos Práticos para Meditadores
Mudando do aspecto psicológico para o prático, a meditação para pessoas leigas pode ser dividida em duas categorias: aquela que é feita de forma intensiva e aquela que é praticada em conjunto com os demais afazeres da vida diária. A meditação intensiva também é de dois tipos: meditação sentada diária e a prática ocasional em retiros.
Meditação Sentada Diária
Primeiro discutiremos o período diário regular de prática intensiva que deveria, sempre que possível, ocorrer todos os dias na mesma hora. A pessoa deve evitar que isto se torne apenas um ritual, encarando a prática com seriedade e permanecendo intensamente consciente da razão por que medita. As sugestões a seguir também podem ajudar.
Quanto às condições físicas, o lugar para meditar deveria ser bem silencioso. Se tiver um pequeno quarto que possa ser usado para esse propósito, tanto melhor, e de todos os modos é melhor meditar só, exceto se outros membros da casa também meditarem. Quando esse for o caso a pessoa deve garantir a pureza da sua mente em relação aos outros, pois de outra forma a cobiça, a raiva e todo o resto da quadrilha de ladrões, com certeza, irão roubar os frutos da meditação.
O silêncio pode ser conseguido despertando cedo, antes que os demais despertem; e essa também é a ocasião em que a mente está clara e o corpo descansado. Portanto, o meditador sincero observa os horários, pois ele sabe como é importante ter horas de sono em quantidade suficiente para despertar renovado.
Após despertar e lavar-se a pessoa deve sentar-se com roupas limpas e confortáveis no local de meditação. A pessoa pode ter um pequeno altar com objetos Budistas, mas isso não é essencial. Algumas pessoas consideram benéfico começar fazendo oferendas de flores, incenso e velas, refletindo com cuidado enquanto fazem isso. É muito comum nos países Budistas prefaciar a meditação silenciosa com um cântico suave para si mesmo, "Namo tassa bhagavato arahato samma-sambuddhassa," com os Refúgios e Preceitos. Se a pessoa conhece as passagens em Pali em homenagem ao Buda, Dhamma e Sangha, elas também podem ser usadas nesse momento.
Uma outra prática preliminar proveitosa é uma reflexão, uma recitação discursiva, sobre algumas verdades do Dhamma, tal como o trecho sugerido a seguir:
"Obtendo esta preciosa oportunidade de um nascimento humano, tenho duas responsabilidades no Dhamma: o meu próprio benefício e o benefício dos outros. Todos os demais seres, quer sejam humanos ou não humanos, visíveis ou invisíveis, grandes ou pequenos, próximos ou distantes, todos esses seres eu tratarei com nobreza e desejarei que eles vivam em paz. Que eles possam ser felizes…Que eles possam ser felizes…Que eles possam ser felizes…! Eu os ajudarei quando estiverem sofrendo e compartirei das suas alegrias quando estiverem felizes. Que eu possa também desenvolver a incomparável equanimidade, a mente em perfeito equilíbrio que nunca está perturbada!
"Ao me preocupar com o bem estar dos outros, eu não me esquecerei do meu próprio progresso no caminho do Dhamma. Que eu venha a entender, realmente, como, empurrado aqui e ali pelos ventos do kamma, sofri uma infinidade de vidas em todos os planos de existência! Eu também devo voltar a minha mente para o quão curta e passageira é esta vida. Que a mente e o corpo estão mudando constantemente, surgindo e desaparecendo momento a momento. Que nem a mente nem o corpo me pertencem, nenhum deles é meu. Eu também devo voltar a minha mente para tomar em consideração o quanto esta breve vida é importunada por problemas. Tendo sido gerado pelo desejo e nascido da ignorância, preciso compreender que não há como escapar da morte, que o envelhecimento e a enfermidade são acontecimentos naturais da minha condição. Preciso me esforçar para entender, por meu próprio benefício e benefício de outros, que esta pessoa chamada 'eu' é um complexo de mente e materialidade em que nenhuma entidade permanente, tal como uma alma ou eu, pode ser encontrado.
"Que eu possa através desta prática experimentar o insight da impermanência, sofrimento e não-eu! Que eu possa ser um dos que permanece no Vazio! E tendo entendido essa verdade sublime que eu possa mostrar o caminho para outros!"
Ao sentar para meditar, deve-se tomar cuidado para que o corpo permaneça ereto, porém relaxado. Não deve haver tensão, mas, tampouco a cabeça deve baixar e nem a região lombar ceder. O corpo deve ser sentido aprumado e equilibrado. Embora a posição com as pernas cruzadas (tal como a postura de lótus) seja a ideal se o meditador estiver sentado sobre um tapete suficientemente macio, uma cadeira pode ser usada por aqueles desabituados com a postura de lótus ou então incapazes de treinar para sentar nessa posição. Sentar na postura em lótus ou meio lótus será muito mais fácil se uma almofada mais firme for usada para levantar as nádegas. Dessa forma os joelhos irão tocar o solo e uma firme posição sentada apoiada sobre três pontos (dois joelhos e as nádegas) será obtida.
O tempo de meditação deve ser o mesmo todos os dias até que, tendo mais habilidade em concentrar a mente, automaticamente a pessoa irá ter vontade de ampliar a prática. Um método amplamente usado para medir o período de meditação é meditar durante o tempo que leva para consumir uma vareta de incenso. Tendo colocado as mãos relaxadas sobre o regaço em posição para a meditação, os olhos podem ser cerrados ou deixados semi abertos de acordo com o que for mais confortável.
Os métodos usados para auxiliar na concentração da mente são muitos e as duas principais vertentes na meditação clássica foram brevemente comentadas na seção acima. Outros métodos que podem ajudar incluem a repetição de uma palavra ou frase, quiçá com o uso de um rosário. Se a pessoa praticar a atenção plena focada na respiração pode ser que considere bom o uso de uma palavra como "Buddho," ou "Araham" para acalmar a mente. A primeira sílaba é repetida silenciosamente ao inspirar e a pessoa se concentra na segunda sílaba ao expirar. A contagem da respiração também (em geral não acima de dez para evitar que a mente vagueie) é usada como um auxílio para a concentração. Mas todos esses auxílios devem ser abandonados quando a concentração se tornar aprimorada. Quando a meditação se utiliza de apenas uma frase, um rosário pode ser usado em conjunto, cada repetição marcada por uma conta.
A meditação estará se desenvolvendo bem se a pessoa se der conta de que a mente está cada vez mais absorvida no objeto de meditação escolhido, mas a pessoa não deve deduzir que a meditação é inútil apenas porque por um período longo ou curto não forem experimentadas muito mais do que sonolência e distrações. Esses obstáculos devem ser enfrentados; e se eles surgirem, não será através da irritação ou desespero, mas através da observação calma, com atenção plena, que eles poderão ser superados. Para obter-se êxito, é necessário uma grande persistência e esforço equilibrado.
O período de meditação pode ser encerrado com alguma recitação, cujo objeto normalmente é o bem-estar e a distribuição dos méritos para outras pessoas. Uma tradução, ou o original em Pali, do Karaniya Metta Sutta (O Discurso do Amor Bondade) pode ser recitado nesse momento e como não é um texto muito longo, pode ser memorizado facilmente. Como os métodos de recitação podem variar, pode ser útil obter-se gravações feitas por bhikkhus dos trechos que a pessoa queira aprender.
Aproveitando o tema de recitação, é muito útil conhecer alguns discursos do Buda em algum dos idiomas clássicos do Budismo e de usá-los para unificar a mente se houver alguma ocasião em que nenhuma concentração possa ser obtida. Nessas ocasiões o meditador não deve se sentir deprimido mas deve continuar sentado, recitando suavemente para si mesmo. Isso é o que os monges Budistas fazem duas vezes por dia como parte do seu desenvolvimento mental e é também útil para estimular uma abordagem mais devocional, necessária, como contrapeso para os indivíduos com inclinações intelectuais. Um outro método proveitoso para a superação da distração é a meditação andando, que pode ser feita em qualquer corredor da casa ou em uma área isolada no jardim. Uma distância de vinte ou trinta passos será suficiente, pois se for mais longa, a mente tenderá a vagar e se for mais curta, a distração poderá aumentar. A pessoa pode caminhar no rítmo que for natural, com as mãos juntas e os braços relaxados na frente do corpo. Ao final da caminhada a pessoa deve fazer a volta na direção horária.[1]
Talvez seja adequado mencionar algumas palavras sobre devoção, pois ela é muito importante na prática de meditação. Ninguém que não seja um Budista devoto adotaria a meditação Budista, pela simples razão de que ele não teria os ideais Budistas presentes no seu coração. Tomar com seriedade o Refúgio Tríplice e a compreensão da Jóia Tríplice está intimamente ligado com a meditação Budista. Um Budista realmente devoto, que dedica toda sua vida ao Dhamma, não enfrentará dificuldades insuperáveis na prática de meditação. Quaisquer obstáculos que ele encontre, ele irá superá-los, sustentado pela devoção. Ele está preparado para um caminho longo e difícil, pois ele compreende que ele é quem o fez assim. Se ele encontrar o seu caminho bloqueado, a sua meditação não progredindo e ele próprio sem um mestre, ele não vacilará ou hesitará no caminho. Ele pensa, "Eu estou agora experimentando os resultados de ações intencionais (kamma) praticadas por mim no passado". E ele se recorda das últimas palavras do Buda: "Dessa forma, bhikkhus, eu os encorajo: todas as coisas condicionadas estão sujeitas à dissolução. Esforçem-se pelo objetivo com diligência". Todas as dificuldades são coisas condicionadas e por fim irão mudar; enquanto isso, muito pode ser realizado com atenção plena, energia e devoção.
Se a pessoa não se sentir demasiado cansada após o trabalho e se houver uma oportunidade à noite, um outro período de meditação poderá ser feito. De qualquer modo, antes de dormir, praticar meditação é um hábito sábio, mesmo que sejam apenas alguns minutos, de forma a purificar a mente antes de deitar. A pessoa pode pensar da seguinte forma: "Não existe certeza, ao me deitar, que irei despertar". Uma pessoa pode, portanto, estar se deitando para morrer e essa é uma boa reflexão para estimular estados mentais hábeis e benéficos e banir estados inábeis e prejudiciais. Se a pessoa praticar dessa forma, "deitar-se pronta para morrer", será uma excelente preparação para o acontecimento real, que irá ocorrer de qualquer forma em algum momento no futuro. Pode até mesmo gerar as condições adequadas para o surgimento do insight que permite à pessoa "morrer", soltando-se do apego às coisas que não lhe pertencem, isto é, a mente e o corpo. A repetição de uma frase ou palavra do Dhamma também pode ser usada até que a pessoa adormeça. Dessa forma o dia se inicia e se encerra com a prática dos ensinamentos Budistas. E além da dedicação o dia inteiro a eles, o que poderia ser melhor?
Retiros
Com relação à segunda divisão da prática intensiva, isto é, quando feita em retiro, muito irá depender das facilidades disponíveis para o estudante sério. Existem alguns lugares no Ocidente em que se pode buscar instruções de meditação. A coisa mais importante é ter contato direto com um mestre de meditação capaz (livros servem no início, pois até mesmo um mestre pode, mais tarde, se mostrar deficiente de alguma forma). Após satisfazer essa condição, uma outra se faz necessária: a pessoa tem que se esforçar com diligência para praticar e realizar os ensinamentos. Se essas duas condições forem satisfeitas, então essa pessoa será uma das mais afortunadas entre os seres humanos.
Muitos não terão acesso a um mestre e alguns podem querer tentar um período de meditação solitária em alguma parte remota do seu país. Isso deveria ser tentado apenas se a pessoa já desenvolveu um bom poder de atenção plena. De outra forma, aquilo que se intencionava como estímulo para a meditação pode se transformar num período inútil e até mesmo acompanhado pela aparente intensificação das contaminações mentais.
Vida Diária
Quanto ao outro tipo de prática meditativa que é feita na vida diária, embora muito possa ser escrito a respeito, as seguintes breves palavras podem servir como um guia. Primeiro, a pessoa não deve enganar a si mesma com relação à concentração da mente. Não faz nenhum sentido enganar a si mesmo ou aos outros de que a vida diária é meditação - a não ser é claro que alguém já possua grandes poderes de concentração. Somente uma pessoa muito experiente, com freqüência alguém que tenha praticado durante muitos anos observando a disciplina monástica é capaz de perceber a vida do dia a dia como meditação; e é muito improvável que tal pessoa contasse para os outros esse fato. Recusando-se a dar ao orgulho uma oportunidade para distorcer a verdadeira situação do seu estado mental, a pessoa deveria ser leal para consigo mesma e admitir as suas próprias limitações. Isso já seria um grande passo adiante. A pessoa leiga que já se considera um Arahant criou de maneira muito eficaz um bloqueio para o verdadeiro progresso; enquanto que a pessoa honesta tem pelo menos a sabedoria de ser humilde.
Muito pode ser alcançado com a atenção plena, enquanto que sem ela não existe nenhuma esperança de meditação na vida diária. Como eventos comuns podem ser transformados em meditação? Por meio da atenção plena que, para começar, pode ser definida como consciência daquilo que se está fazendo no presente momento. Inicialmente, é necessário um grande esforço para que uma pessoa mantenha a atenção plena naquilo que supostamente ela estiver fazendo, nem ela deve esperar que essa atenção plena seja sempre agradável. Para escapar de uma tarefa ou situação tediosa ou que não seja apreciada, tendemos a apelar para mundos de fantasia, esperanças ou então para memórias, que são respectivamente as fugas delusas para o presente, futuro ou passado. Mas para alguém que esteja realmente interessado em conhecer a si mesmo, nenhuma dessas alternativas é muito recompensadora, já que elas são compostas de delusão com vários ingredientes tais como medo, desejo e ignorância. Enquanto que na prática estrita de meditação a atenção plena irá seguir todas as perambulações da mente, na vida diária é melhor que a mente retorne constantemente para a tarefa a ser realizada. A pessoa não deve "mandar" a mente para nenhum lugar, nem para um mundo de sonhos nem para o passado, nem para o futuro. O Buda comparou esses períodos de tempo da seguinte forma:
"O passado é como um sonho,
o futuro como uma miragem,
enquanto que o presente é como as nuvens."
Esse símile pode ser útil ao ilustrar a mente que se movimenta rapidamente entre sonhos, miragens e nuvens, todos sem substância, embora o presente em constante mutação, tal como as nuvens no céu, seja o único aspecto do tempo que pode ser comparado a coisas de maior realidade. A pessoa também pode considerar a meditação como sendo o exercício de atenção plena que mantém a mente "dentro" deste corpo, isto é, sempre focada em alguma das suas facetas. É claro que somente os meditadores mais sinceros, que percebem nisso uma vantagem maior do que qualquer prazer oferecido pelo mundo, é que provavelmente praticarão dessa forma, já que isso corta não somente o interesse por objetos externos mas também o entretenimento com idéias agradáveis e intrigantes.
De fato, com um trabalho que seja realmente interessante, o caminho da atenção plena é o único meio de transformar o seu dia em algo que vale a pena. Os dias passam e nos aproximam cada vez mais da morte e de um renascimento desconhecido, enquanto que agora é que existe a oportunidade de praticar o Dhamma. Ao invés de reagir com aversão ou fantasias deludidas em relação ao que não se gosta (ou em outras situações se entregando à cobiça), o Caminho da Atenção Plena constitui a Prática do Caminho do Meio que transcende esses padrões arcaicos de reação. Não existe necessidade de ser governado pela cobiça ou pela raiva, nem de ser dominado pela delusão; mas somente a atenção plena pode mostrar o caminho para superá-los.
Trazer a mente constantemente de volta e soltá-la dos seus enredos é a prática básica na vida do dia a dia. É sábio, também, aproveitar aqueles momentos inesperados que surgem durante um trabalho, enquanto se está aguardando para fazer algo, para encontrar alguém, ou esperando um ônibus ou trem, ou a qualquer momento em que se esteja sozinho por alguns minutos. Ao invés de pegar um jornal como distração, o celular ou uma outra pessoa para fofocar, é mais produtivo fazer um "retiro interior". Desligando a atenção dos objetos exteriores, coloque a atenção na respiração, ou na repetição de alguma frase do Dhamma, ou numa palavra importante tal como "Buddho" ou "Arahant," fazendo isso até que novamente tenha que dar atenção à sua tarefa. Voltar para dentro de si sempre que possível será muito benéfico, fortalecerá a prática sentada da mesma forma que, por sua vez, fortalecerá a habilidade de fazer os retiros interiores.
A atenção plena na respiração é particularmente boa como um método de concentração para uso durante viagens e durante os períodos em que se está esperando impacientemente por um ônibus ou trem. Porque ficar agitado ou impaciente? Um pouco de atenção plena na respiração é a prática adequada para esses momentos, já que ela acalma os movimentos exaltados da mente e os movimentos inquietos do corpo. A pessoa não precisa fitar a paisagem sem propósito enquanto viaja! Porque ser um escravo do "domínio do olho" quando um pouco de prática proveitosa pode tomar o seu lugar? A pessoa não precisa ouvir a conversa fútil dos outros, então porque ser um escravo do "domínio do ouvido"? Não se pode fechar os ouvidos, mas qualquer um pode de certa forma controlar a sua atenção ao praticar a atenção plena na respiração.
É a atenção plena, também, que auxilia a colocar o foco em contemplações neutralizadoras. A luxúria, por exemplo, é rapidamente dissipada com o pensamento de um corpo em decomposição. Os olhares concedidos a lindas garotas (ou homens bonitos) parecem ridículos quando se pensa que velhas senhoras e igualmente homens anciãos nunca atraem esse tipo de atenção cheia de desejo. Somente quando se vê como a cobiça incendeia aquele que a ela se entrega é que parece valer a pena abandoná-la.
Igualmente com a gula, que mesmo de uma forma suave, pode ser demolida ao contemplarmos os processos corporais associados à comida. A comida mastigada tem uma aparência muito menos palatável do que aquela que, ainda não misturada com a saliva, é servida bem apresentada no prato. O vômito é exatamente a mesma substância em processo de mudança, mas não estimula exatamente o desejo. O excremento, mesmo se colocado no mais fino prato de ouro, não será atrativo - no entanto, esse é o remanescente da comida que foi devorada com tanta avidez! Quando houver contemplado a comida nesses três estágios, a cobiça terá desaparecido completamente e a comida será tomada como se fosse um medicamento para conservar o corpo.
A atenção plena também é responsável por tornar-nos suficientemente conscientes num momento de raiva para que dirijamos a mente para outros objetos ou pessoas. É a atenção plena que nos adverte sobre uma situação em que a raiva poderá surgir, e é ela que possibilita que evitemos essa situação e permaneçamos com equanimidade, ou com amor bondade (metta) quando as Moradas Divinas estiverem bem desenvolvidas.
Quando a inveja mostra a sua cara feia, a atenção plena proporciona presença de espírito para saber que "a inveja surgiu" e se o esforço para despertar a alegria com a felicidade dos outros falhar, será a atenção plena que irá ajudar a permanecer com equanimidade, ou se tudo falhar, ajudará a desviar a atenção para outros objetos.
O Buda verdadeiramente disse, "A atenção plena, eu declaro, ajuda em todas as situações."
As implicações sociais da meditação deveriam ser óbvias pelo que foi dito acima. Aqueles que possuem a delusão peculiar de que o Budismo é uma religião de isolamento meditativo, que não oferece nenhum benefício social para a sociedade, devem compreender que um Budista acredita que a sociedade só pode ser mudada para melhor e com algum grau de permanência, começando o trabalho consigo mesmo. Os ideais Budistas de sociedade estão expressos num grande número de importantes discursos dirigidos pelo Buda a pessoas leigas e neles o desenvolvimento do individuo é sempre enfatizado como um fator necessário. As vantagens de uma sociedade em que existe um grande número de pessoas vivendo em paz consigo mesmas não precisam ser enfatizadas. O desenvolvimento de sabedoria e compaixão em uma pessoa tem o efeito de fermentar toda a 'massa de pão' materialista que se encontra à sua volta. O chamado Budista, portanto, consiste em primeiro conquistar a paz no próprio coração, quando então surgirá, muito naturalmente, a paz no mundo. Tentar obter a paz pelo caminho contrário não será prático, nem irá produzir uma paz duradoura, pois as raízes da cobiça, raiva e delusão ainda terão o pulso firme sobre o coração das pessoas. Impraticável? Apenas para aqueles que não praticam. Aqueles que se dedicam ao cultivo da atenção plena acabam descobrindo por si mesmos como ela ajuda a solucionar os problemas da vida.
Embora muitas viagens a lugares remotos e atrativos sejam agora realizadas com facilidade, o caminho que conduz a Nibbana ainda requer esforço. Mas se o caminho às vezes é sombrio tendo como única luz guia a atenção plena, pelo menos através da reflexão saberemos que o objetivo é glorioso e de grande valor, não somente para si mesmo mas para os outros também.
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As Moradas Divinas e o seu Aperfeiçoamento
(Brahma-vihara)
O caminho em direção ao objetivo passa pelo que chamamos de Moradas Divinas, onde as emoções profundamente enraizadas são transformadas de inábeis e prejudiciais em hábeis e benéficas de acordo com o Dhamma. Como já foi enfatizado acima, o objetivo de uma pessoa, bem como de todos os seres, é conquistar condições que produzam a felicidade. Portanto, a pessoa deve agir de tal forma que a felicidade resulte das suas ações. A pessoa deveria, nesse caso, tratar os outros da maneira como ela gostaria de ser tratada, pois cada ser vivo tem muita estima por si mesmo e deseja o seu próprio bem-estar e felicidade. A pessoa não pode esperar ter uma felicidade isolada que surja sem uma causa ou que não surja de si mesma, nem a felicidade pode ser esperada se alguém maltrata outros seres, humanos ou não. Todos os seres desejam a vida e temem a morte, sendo isso verdadeiro tanto para nós como para as outras criaturas.
Somente uma pessoa, que conduz a sua vida com dignidade e compaixão constantemente, tem realmente estima por si mesma, pois ela pratica ações que produzem grandes benefícios, grande felicidade. Outras pessoas, embora pensem que têm estima por si mesmas, são na verdade os seus piores inimigos, pois elas fazem para si mesmas aquilo que apenas um inimigo lhes desejaria.
A boa conduta depende de uma mente bem treinada que gradualmente se libertou das garras da cobiça, da raiva e da delusão. Ter tanta estima pelo próximo quanto verdadeiramente se tem por si mesmo é fácil de falar mas difícil de fazer. É um mérito particular dos ensinamentos do Buda sempre indicar como um método deve ser traduzido em experiência, o método neste caso é o treinamento da mente nas Moradas Divinas. Quando mencionamos "mente", essa palavra deve ser compreendida não no sentido restrito dos processos intelectuais, mas, particularmente, ela deve incluir o escopo completo da mente-coração, intelecto e emoções.
Existem quatro estados que pertencem às Moradas Divinas: amor bondade, compaixão, alegria altruísta e equanimidade. Esses, e especialmente o primeiro, são objetos de meditação muito populares nos países Budistas. O que segue é uma breve explicação de cada um.
Amor bondade (metta) é um amor altruísta estendido a todos. Isto se torna fácil quando as absorções (jhanas) são conquistadas e só então a qualidade do amor bondade se torna uma parte integral do caráter da pessoa. Da forma como as coisas normalmente são, as pessoas apenas "amam" aquelas poucas pessoas às quais estão especialmente ligadas por laços de família, etc. Esse é o tipo de amor com apego sensual, um amor limitado, e aqueles que se encontram fora desse amor ou são ignorados ou não se gosta deles. O amor sensual, portanto, não somente está ligado ao apego (cobiça) mas também à raiva e à delusão, de forma que a pessoa que está satisfeita com esse amor paga um alto preço por ele. Um amor sem apego dificilmente pode ser concebido por muitas pessoas, mas esse tipo de amor é muito superior ao anterior, não tendo apego ele pode se tornar infinito e não precisa estar confinado a este ou aquele grupo de seres. Como ele pode se tornar infinito, sem deixar ninguém de fora, não surge a questão das três raízes inábeis e prejudiciais estarem vinculadas a ele.
O amor bondade pode ser desenvolvido gradualmente a cada dia como parte da prática de meditação, mas para ser realmente eficaz ele precisa se mostrar na vida diária da pessoa. Ele torna a vida mais fácil transformando as pessoas que antes eram antipáticas e odiadas em indiferentes, inicialmente, mas depois, à medida que a prática vai se fortalecendo, em objetos para o surgimento do amor bondade. É o remédio do Buda para a enfermidade da raiva e da antipatia. Finalmente, o amor bondade tem dois inimigos: o"próximo", que é o apego sensual, com freqüência denominado de "amor" de forma incorreta, enquanto que o inimigo "distante" do seu desenvolvimento é a má vontade. No desenvolvimento do amor bondade é necessário tomar cuidado com os dois.
Compaixão (karuna) é sensibilizar-se em relação aos sofrimentos de outros seres no mundo. A compaixão supera a indiferença insensível para com os infortúnios dos seres que sofrem, humanos ou não. Da mesma forma, mostra-se na vida diária de uma pesssoa através da vontade de sair da sua rotina para proporcionar ajuda aonde for possível e de auxiliar aqueles que se encontram em aflição. Tem a vantagem de reduzir o próprio egoísmo pela compreensão dos sofrimentos dos outros. É o remédio do Buda para a crueldade, pois como alguém pode causar dano aos outros tendo visto o quanto eles estão sofrendo? A compaixão também tem dois inimigos: o "próximo" que é a simples pena ou dó; enquanto que o inimigo "distante" é a crueldade.
Alegria altruísta (mudita) é alegrar-se com os outros pelos seus êxitos, ganhos e felicidade. A alegria altruísta supera a atitude de rancor em relação aos outros e a inveja que pode surgir ao saber da alegria dos outros. Mostra-se na vida de uma pessoa como uma alegria espontânea no momento exato em que ela toma conhecimento de que outras pessoas obtiveram algum tipo de ganho, material ou imaterial. Tem a vantagem de fazer com que a pessoa seja franca com as demais e elimina a dissimulação. Uma pessoa que desenvolve a alegria altruísta atrai muitos amigos que lhe são devotados e com eles e os demais ela vive em harmonia. É o remédio do Buda para a inveja e o ciúme que podem ser completamente inibidos. Os dois inimigos da alegria altruísta são a simples alegria pessoal ao refletir sobre os próprios ganhos - esse é o inimigo "próximo"; enquanto que o "distante" é a aversão ou o descontentamento.
Equanimidade (upekkha) deve ser desenvolvida para lidarmos com situações difíceis cuja mudança, deveríamos admitir, está acima das nossas forças. A equanimidade supera a preocupação e a distração inúteis em relação a assuntos que, ou não dizem respeito à pessoa, ou não podem ser mudados por ela. Deve aparecer na vida diária da pessoa como uma habilidade para enfrentar situações difíceis com tranqüilidade e paz mental imperturbável. A vantagem no seu desenvolvimento é que simplifica a vida com o desligamento de atividades inúteis. É o medicamento do Buda para a distração e a preocupação e os seus inimigos são a pura indiferença, que é o inimigo "próximo"; enquanto que a cobiça e o seu parceiro ressentimento, que envolvem a pessoa de maneira inábil em tantos assuntos, são os seus inimigos "distantes".
A mente que praticou bem essas quatro virtudes e depois treinou bem o seu uso na vida diária, já conquistou muito.
Três das perfeições (parami), ou qualidades, praticadas por muitos Budistas que aspiram à Iluminação também podem ser esboçadas a seguir, já que elas também possuem uma influência profunda na prática da meditação.
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A Paciência e seu Aperfeiçoamento
(Khanti-parami)
A paciência é uma excelente qualidade, muito elogiada nas escrituras Budistas. Ela pode ser desenvolvida com facilidade apenas se a inquietação e a raiva já estiverem subjugadas na mente, tal como é feito na prática de meditação. A impaciência, que tem a tendência de fazer com que a pessoa se apresse muito e por isso perca muitas oportunidades boas, resulta da inabilidade em ficar parado e permitir que as coisas se resolvam por si mesmas - o que algumas vezes pode ocorrer sem que alguém tenha que intervir. A pessoa paciente acaba obtendo muitas coisas de graça que não são obtidas pela pessoa empreendedora. Uma delas é uma mente tranqüila, pois a impaciência agita a mente e traz consigo as conhecidas enfermidades decorrentes da ansiedade do mundo moderno dos negócios. A paciência tolera em silêncio - é essa qualidade que faz com que ela seja tão valiosa no treinamento mental e particularmente na meditação. Não há motivo para esperar a iluminação instantânea depois de cinco minutos de prática. O café pode ser instantâneo, mas a meditação não é e só haverá dano ao tentar apressá-la. Ao longo dos anos o lixo foi se acumulando, uma pilha enorme de lixo mental, e então quando alguém começa a removê-lo com uma pequena colher de chá, com que rapidez pode-se esperar que ele irá desaparecer? A paciência é a resposta acompanhada pela energia decidida. O meditador paciente realmente obtém resultados duradouros; aquele que busca "métodos rápidos" ou "iluminação instantânea" está condenado por sua própria atitude a um grande desapontamento. De fato, em pouco tempo deve ficar claro para qualquer um que investigue o Dhamma, que esses ensinamentos não servem para as pessoas impacientes. Um Budista enxerga a sua vida atual como algo breve, talvez com uma duração de oitenta anos, mais ou menos, e a última das inúmeras vidas vividas até agora. Tendo isto em mente, ele determina fazer o máximo que possa nesta vida para alcançar a Iluminação. Mas ele não superestima a sua capacidade; ele calmamente e pacientemente segue vivendo o Dhamma no dia a dia. Precipitar-se em direção à Iluminação (ou àquilo que a pessoa pensa ser), é como um touro em uma loja de cristais, ele não irá fazer muito progresso, isto é, exceto se a pessoa for de uma natureza excepcional que seja capaz de suportar esse tipo de tratamento e, o mais importante, que seja dedicada a um mestre de meditação bastante habilidoso. Com paciência a pessoa não irá se magoar, mas irá seguir pelo caminho de maneira cuidadosa, passo a passo. Aprendemos que um Bodisatva está bem consciente disso e que ele cultiva a sua mente com essa perfeição de forma que ele não seja perturbado por nenhuma das ocorrências desagradáveis comuns neste mundo. Ele decide que será paciente com as condições externas - não se perturbando se o sol estiver demasiado quente ou o clima demasiado frio. Ele não ficará agitado se outros seres atacarem o seu corpo, tal como insetos e mosquitos. Nem ficará perturbado quando as pessoas disserem palavras grosseiras, mentiras ou insultos a seu respeito, quer seja diretamente ou pelas costas. A sua paciência não se abala nem mesmo quando o seu corpo for submetido ao sofrimento, golpes, paus e pedras, torturas e até mesmo a própria morte; ele irá suportar tudo isso firmemente, tão inabalável é a sua paciência. Aos monges Budistas se recomenda praticar da mesma forma.
Na tradição Budista a perfeição da paciência é particularmente mais conhecida do que as outras. Isso se deve ao exemplo dado em uma extraordinária História de Nascimento (Jataka). A História do Nascimento de Khantivadi (O Mestre da Paciência)[2] deve ser lida com freqüência e ser objeto de profunda e freqüente reflexão. Somente uma pessoa excepcionalmente nobre, neste caso Gotama, em uma das suas vidas anteriores, quando ele era chamado de o Mestre da Paciência, chegou a exortar um monarca enraivecido e bêbado que devido à sua raiva enciumada vagarosamente esquartejava o seu corpo. O Bodisatva possuía esse tipo de nobreza e essa nobreza, tolerância constante e benevolência, é exigida de todos que tentam alcançar o objetivo da Iluminação.
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A Energia e o seu Aperfeiçoamento
(Viriya-parami)
Assim como é inconcebível a Iluminação se a pessoa não tiver paciência, a Iluminação também não pode ser alcançada sem esforço. O Dhamma nunca encoraja a doutrina do fatalismo e os verdadeiros Budistas nunca pensam que os eventos sejam rigidamente predeterminados. Esse tipo de fatalismo é combatido pela própria atenção plena e pela própria energia. Esta perfeição é a contrapartida da anterior e é equilibrada pela prática, ambas asseguram que o Budista sincero nem aceitará passivamente aquilo que ele deve combater, nem se precipitará perturbando a si mesmo e aos outros quando ele deveria ter paciência. Deveria ser mencionado aqui, como aviso, que no mundo Budista podem ser encontrados um grande número de "métodos" que aparentam prometer as riquezas do Dhamma num piscar de olhos. A pessoa ouve comentários do tipo, "Qual a utilidade de livros e estudo?" Ou mesmo, "O desenvolvimento da concentração é uma perda de tempo! A pessoa deveria apenas praticar vipassana." Esse tipo de abordagem tendenciosa não reflete a sabedoria do Buda, que sempre ensinava a necessidade de um desenvolvimento equilibrado da mente. Livros e o seu estudo são úteis para algumas pessoas que desejam obter uma boa base daquilo que o Buda realmente disse, antes de adotar uma prática mais intensiva. Quanto à outra afirmação, nenhum insight verdadeiro (apenas idéias deludidas) irão surgir na pessoa cuja mente não experimenta a concentração. Idéias como essas, que usualmente estão baseadas em alguma experiência peculiar dos "mestres" que as originam, são capazes de enganar a muitos, já que o desejo por resultados rápidos, combinado com a antipatia pelo trabalho duro necessário, são facilmente estimulados. Tem que haver paciência para aceitar que as condições requeridas para obter sucesso na meditação (tal como descrito aqui) têm que ser satisfeitas e que o único resultado, se assim não for feito, será desviar-se do Caminho. O meditador se dedica com firmeza a qualquer tarefa que tenha que desempenhar e ao concluí-la, não se sente cansado mas imediatamente toma um novo objetivo.
Com respeito a isso, é interessante que há dois tipos de cansaço: aquele relativo à exaustão física e o outro tipo que é induzido mentalmente e que envolve os fatores inábeis e prejudiciais da preguiça e do torpor. Enquanto que o primeiro é obviamente inevitável, o último ocorre apenas quando a raiz inábil e prejudicial da delusão (ou embotamento) se torna predominante na mente. Isso ocorre quando há uma situação que é desagradável para "mim", não desejada e da qual "eu" quero escapar. As pessoas se queixam que ficam muito mais cansadas ao praticar meditação sentada intensamente do que quando por exemplo se dedicam a uma leitura pesada. Quando o eu se sente ameaçado por um evento que poderá revelá-lo, então esse eu, enraizado na ignorância, cria uma densa névoa de torpor que tem sua origem na delusão. Por outro lado, muitos que têm praticado muita meditação observam que já não precisam dormir tanto quanto antes, enquanto que a energia, quando se torna uma perfeição tal como praticada pelo Bodisatva, é totalmente natural e não forçada.
Esta perfeição é ilustrada pela história do líder de uma caravana que salvou os mercadores, homens e animais confiados ao seus cuidados, através da ação vigorosa. Quando outros teriam se entregado à morte, já que a caravana havia tomado um caminho errado no deserto e todos os suprimentos estavam exauridos, o líder forçou um deles a que cavasse em busca de água, que foi encontrada. Dessa forma, em uma vida passada Gotama, como o líder da caravana, fez esforço não somente pela sua própria vida mas também pelo bem estar dos outros. Os monges também são chamados de "líderes de caravana" em muitos textos das escrituras em Pali, mostrando que não é somente o Buda ou um Bodisatva que é capaz de guiar outros. Se conduzirmos o nosso treinamento com energia então nós também teremos energia para o progresso dos outros. Muitas outras histórias como essa podem ser encontradas nos textos Budistas mostrando o quão necessária é a energia, da qual nascem a persistência e a determinação para ver aquilo que é verdadeiramente real, Nibbana.
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A Concentração e o seu Aperfeiçoamento
(Samadhi-parami)
Tomando em conta os significados dessa palavra em conjunto com outros termos especializados como desenvolvimento da mente (bhavana), absorções (jhana), insight (vipassana), unicidade da mente em um só ponto (ekaggata) e exercício de meditação (kammatthana), poderemos agora examinar o que constitui a concentração perfeita. O que distingue particularmente a boa prática Budista, quer seja de um Bodisatva ou não, daquela de um meditador comum, (de qualquer religião), é que este último irá muito provavelmente se apegar firmemente aos prazeres que ocorrem nos níveis superiores do reino da esfera sensual, ou aos puros prazeres do reino da matéria sutil e, como resultado, irá renascer em um desses estados divinos. Se uma pessoa se deixar aprisionar em um desses destinos, onde os prazeres e alegrias são muitos e os sofrimentos mínimos, então é improvável que ela venha ser capaz de gerar a energia necessária para o aperfeiçoamento da sabedoria. Por isso, o bom meditador se torna proficiente nas absorções, (de forma que ele possa penetrá-las quando quiser e emergir quando quiser), sem no entanto apegar-se a elas. Mas deve-se notar que isso se aplica apenas ao meditador habilidoso que já conquistou as absorções. Se alguém ainda não alcançou esses níveis, então a aspiração ardente, não o desapego, será a atitude correta.
Depois que essas absorções tenham sido alcançadas, elas podem ser examinadas como impermanentes, insatisfatórias e desprovidas de um eu ou alma, (aniccam, dukkham, anatta), nesse momento o desapego em relação às absorções irá surgir naturalmente e o insight, (vipassana), será experimentado. As absorções, (e os poderes que podem surgir em conexão com elas), são portanto, no método Budista de treinamento, nunca um fim em si mesmas mas são sempre usadas para promover o insight e a sabedoria que surgem quando a mente concentrada toma a tarefa de examinar a mente e o corpo para conhecer de forma completa as suas características.
Uma história que exprime o significado desta perfeição é a vida de Kuddalamuni. O seu nome significa o sábio do Alvião e ele era assim chamado devido à dificuldade que tinha para livrar-se do seu apego ao seu alvião. Em muitas ocasiões ao deixar a sua casa com a intenção de meditar na floresta, ele era arrastado de volta pela memória do seu alvião e da sua antiga ocupação de agricultor. Um dia, refletindo acerca da inconstância com a qual ele se dedicava à meditação, ele tomou o seu alvião e girando-o sobre a sua cabeça o arremessou nas profundezas do Ganges. Tendo feito isso, ele explodiu com um grande grito de alegria. O rajá local, que estava passando por ali com o seu exército, enviou um homem para investigar porque aquele agricultor estava tão feliz, o sábio replicou relatando a sua experiência. O rajá e muitos outros ficaram muito impressionados com a resposta e alguns o seguiram para se dedicar à vida meditativa na floresta, depois do que, nos contam, todos faleceram para experimentar a vida no reino da matéria sutil. O sábio do alvião que não era outro que Gotama em uma vida passada, exibindo um outro aspecto da perfeição da meditação: a habilidade para treinar outros na meditação após ele mesmo ter obtido proficiência nela.
Por fim, podemos acrescentar algumas notas resumidas sobre alguns dos perigos da prática de meditação.
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Perigos na Meditação
Enquanto a quantidade de formas que podem fazer com que um meditador se desvie do caminho são muitas, as mencionadas abaixo merecem atenção especial devido à sua ocorrência frequente. Primeiro, um perigo que nunca é demais enfatizar é a falta da motivação correta para a prática de meditação. Ao descrever o Nobre Caminho Óctuplo, na sua seção de "sabedoria", imediatamente em seguida ao entendimento (inicialmente) intelectual correto, vem a motivação (ou pensamento) correta, dessa forma enfatizando que as raízes emocionais por trás da prática do Caminho devem ser hábeis: aquelas conectadas com a renúncia (ausência de cobiça), amor bondade (ausência de raiva) e não violência são mencionadas. Se alguém começar a praticar a meditação Budista sem o entendimento correto de dukkha e a sua cessação e sem a motivação correta, então a meditação estará sujeita a seguir por caminhos completamente errados.
Existem aqueles, por exemplo, que iniciaram a prática de meditação como forma de obter poderes, para que pudessem facilmente influenciar ou hipnotizar os discípulos. Outros a viram como uma maneira rápida de obter tanto discípulos como riquezas. A fama também pode ser um motivo torpe. Tudo isso tomado como motivação para a meditação, pode facilmente conduzir aquele que é descuidado à enfermidade e às vezes ao desequilíbrio mental. Não existe nada pior na meditação Budista, onde a própria experiência pessoal é de suma importância, do que um discípulo cru que se apresenta como um mestre.
Isto obviamente conduz a um outro tipo de perigo - o orgulho, do qual existem várias formas. Uma delas é o orgulho da pessoa que viu manifestações de luz durante a meditação e supõe que esse seja um sinal que antecede a absorção mental. Depois existe o orgulho daquele que toca uma absorção mental apenas por um instante e como resultado assume que se tornou um dos Nobres e isso pode ser um poderoso fator para convencer a si mesmo e até mesmo aos outros. Pessoas comuns que se dedicam à meditação devem tomar cuidado com atitudes de exibição de virtudes superiores: "Eu faço o esforço, enquanto que você…" ou, "Eu medito todos os dias, enquanto que você…" O orgulho é um grande obstáculo a qualquer progresso e na medida que somente um Buda ou Arahant está totalmente livre disso, cada um deveria ter a atenção plena para manter o orgulho sob controle.
Relacionado a isso, existe o perigo para aquela pessoa que sempre está à procura do chamado progresso. Ela está segura que está fazendo "progresso" porque na meditação ela vê luzes, ouve sons, ou sente sensações estranhas. Ela se torna cada vez mais fascinada por essas ocorrências à medida que o tempo passa e gradualmente se esquece de que começou com a aspiração de encontrar o caminho para a Iluminação. A sua "meditação" então degenera para visões e ocorrências estranhas, conduzindo-a para as esferas do ocultismo e da magia. Não existe maneira mais segura do que esta para um meditador ficar confuso. A despeito de que tais manifestações possam ser fascinantes, elas devem ser eliminadas com vigor lançando-se mão da atenção plena, nunca permitindo que o pensamento discursivo a seu respeito surja e assim evitando essas distrações.
Entre as "visões" que podem ocorrer, quer sejam internas (produzidas pela própria mente) ou externas (produzidas por outros seres), alguns meditadores podem ter uma experiência atemorizante, tal como uma visão do próprio corpo reduzido a ossos ou inchado como um cadáver em decomposição. Se ocorrer uma experiência dessas, ou outras semelhantes, a pessoa deve arrancar a mente da visão imediatamente, na hipótese de que ela não possua um mestre. Visões atemorizantes que algumas pessoa experimentam podem ser muito úteis se utilizadas da forma correta, mas sem a orientação de um mestre elas devem ser evitadas.
Um outro perigo é tentar meditar enquanto a pessoa ainda está insegura emocionalmente, desequilibrada ou imatura. Compreender o valor de ações meritórias ou habilidosas pode ser muito útil nesses casos. Como o mérito purifica a mente, é uma base excelente para o desenvolvimento da mente e, ambos, a facilidade com que as absorções são alcançadas e a facilidade com que o insight surge estão até certo ponto na dependência do mérito. Ações meritórias não são difíceis de serem encontradas na vida. Elas são o núcleo da boa vida Budista: donativos e generosidade, seguir os preceitos, ajudar e prestar serviços aos outros, reverência, ouvir o Dhamma de todo coração, fazer com que o entendimento do Dhamma seja correto, todas essas e muitas outras são ações meritórias que trazem a felicidade e maturidade emocional. O Mérito, a pessoa deve se lembrar sempre, abre portas em todos os lugares. Cria possibilidades, gera oportunidades. Ter uma mente que está todo o tempo focada em realizar mérito é ter uma mente que poderá ser treinada no desenvolvimento das absorções e do insight.
Obviamente que tentar praticar a meditação e ao mesmo tempo continuar mantendo os antigos desejos, gostos e desgostos, é, no mínimo, dificultar o caminho, se não torná-lo perigoso. A meditação implica em renúncia, e nenhuma prática terá êxito a não ser que a pessoa esteja, no mínimo, preparada para fazer esforços para refrear a cobiça e a raiva, controlar a luxúria e entender quando a delusão estiver obscurecendo o coração. Até que ponto a renúncia é adotada e se isso envolve mudanças externas (tal como tornar-se um monge ou monja), depende muito da pessoa e das suas circunstâncias, mas uma coisa é certa: a renúncia interna, caracterizada pela atitude de desistência dos eventos mentais inábeis e prejudiciais e da entrega aos prazeres corporais, são absolutamente essenciais.
Com freqüência, conectado aos perigos acima, existe um outro que é encontrado quando uma pessoa, repentinamente, tem uma oportunidade para se dedicar a um período mais longo de meditação. Ela senta com uma firme resolução, "Agora irei meditar", e apesar da sua energia nunca ter estado tão boa e apesar de ela sentar e sentar, caminhar e caminhar, ainda assim a sua mente continua perturbada e sem paz. Pode muito bem ser que o seu intenso esforço tenha muito a ver com as suas distrações. Além disso, ela tem que aprender que é necessário meditar conhecendo as limitações do seu caráter. Da mesma forma como um trabalhador conhece os limites da sua força e toma cuidado para não se exaurir, o mesmo cuidado possui o meditador habilidoso. Através da atenção plena a pessoa deve saber quais são os extremos da preguiça e do esforço que devem ser evitados.
É provocando tensão ou forçando a prática da meditação que muitos estados emocionais perturbados surgem. Explosões repentinas de raiva intensa por questões insignificantes, desejos e luxúria intensos, delusões estranhas e fantasias ainda mais peculiares podem ser produzidas pela prática árdua sem inteligência.
Com todos esses perigos, o que mais se necessita é um mestre para dar conselhos, de forma que essas e outras direções erradas sejam evitadas e a pessoa se mantenha no caminho para Nibbana. Aqueles que não possuem um mestre deveriam prosseguir com o máximo de cautela, assegurando que o desenvolvimento da atenção plena seja realmente muito bom. Se tiverem atenção plena e virem que apesar dos seus esforços, a sua prática de meditação não está produzindo nenhuma diferença efetiva nas suas vidas em termos de uma maior paz interior, ou externamente em relação aos outros, então é evidente que algo está errado. A meditação pode ser deixada de lado durante algum tempo enquanto se faz um esforço para contactar uma fonte de informação genuína, de preferência um mestre de meditação, enquanto isso, deve-se atentar para problemas morais não resolvidos, pois até que eles sejam solucionados não permitirão que a mente se desenvolva; e fazer um grande esforço para viver de acordo com os padrões Budistas. Quando assuntos tão básicos desse tipo são negligenciados, a pessoa não pode esperar realizar muito progresso na prática do Caminho do Meio.
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Apêndice
40 Exercícios de Meditação
conforme relacionado no Caminho da Purificação (Visuddhimagga)
Se a pessoa não tem um mestre de meditação de quem possa solicitar um objeto de meditação, então ela terá que contar com o seu próprio conhecimento sobre o seu caráter para prescrever uma meditação adequada para si mesma. Existem quarenta exercícios de meditação (kammatthana) registrados pelo eminente mestre Buddhaghosa como sendo adequados para certos tipos de caráter. Para efeitos de meditação, ele considera seis tipos de caráter: fiéis, inteligentes e especulativos (aqueles em que as raízes hábeis e benéficas da ausência de cobiça, ausência de raiva e não delusão são dominantes de formas variadas); e cobiçosos, raivosos e deludidos (em que as raízes inábeis e prejudiciais da cobiça, raiva e delusão são dominantes). Existem dois problemas com essa classificação: primeiro, tipos "puros" são raramente encontrados, sendo que a maioria das pessoas são mesclas de dois ou mais tipos - e além disso uma mescla em constante mutação; e segundo, é particularmente difícil julgar a qual classe pertence o caráter de uma pessoa já que a sua delusão e o orgulho são capazes de nublar a sua capacidade de julgamento. Esse é um assunto aparentemente sem importância no qual o valor de um mestre de meditação pode ser enxergado com facilidade. No entanto, a pessoa pode aprender muito sobre si mesma, ao estar plenamente atenta no momento em que algum evento inesperado ocorra. Nesse momento a pessoa pode identificar a sua reação e as contaminações que estão presentes na mente. Julgamentos subseqüentes não valem muito já que nesse momento a mente já estará convencida com as suas próprias justificativas e outros tipos de distorções acerca do evento original.
Abaixo encontra-se a lista dos quarenta exercícios de meditação com algumas notas sobre a sua prática, os tipos de caráter que se beneficiam e os tipos de contaminações que são combatidas por cada um. Os exercícios de meditação usados com mais freqüência estão indicados com um asterisco (*).
Dez Kasinas (esferas, lit: totalidades)
1. terra
2. água
3. fogo
4. ar
5. azul
6. amarelo
7. vermelho
8. branco
9. luz *
10. Espaço limitado
5-8 recomendados para a prática de personalidades enraivecidas devido às suas cores puras e agradáveis.
Exceto pelos itens 5-8, nenhuma mácula moral em particular é contraposta por estas dez kasinas. Como elas devem ser desenvolvidas através do olho, elas não são adequadas para quem tenha a visão débil (de acordo com Buddhaghosa).
A única das dez kasinas que parece ser muito praticada atualmente é a kasina da luz, que algumas pessoas descobrem surgir com bastante naturalidade ao começar concentrar a mente. Apesar de que as explicações de Acariya Buddhaghosa no Caminho da Purificação tendem a enfatizar a importância de se usar recursos externos para a prática (como fazer a kasina da terra é descrito em grande detalhe), sempre que o autor ouviu sobre o seu emprego (na Tailândia), elas foram sempre sob a forma de visões (nimitta) que surgem internamente e são desenvolvidas a partir dessa base. Parece que a contemplação de uma kasina externa é desconhecida na Tailândia.
Dez Tipos de Objetos Repulsivos (asubha)
11. O (cadáver) inchado contrapondo o deleite com a beleza das proporções
12. O lívido ... beleza das complexões
13. O supurado ... odores e perfumes
14. O esquartejado ... totalidade ou solidez
15. O consumido ... corpo bem provido de carnes
16. O disperso ... graça dos membros
17. O picado e disperso ... graça do corpo como um todo
18. O sangrento ... ornamentos e jóias
19. O infestado pelos vermes ... posse do corpo
20. O esqueleto ... ter ossos e dentes belos
11-20 recomendados para personalidades cobiçosas.
Estas e outras listas semelhantes no Satipatthana Sutta refletem uma época em que era comum se desfazer dos cadáveres em cemitérios a céu aberto. Agora, no entanto, mesmo nos países Budistas eles são difíceis de ser encontrados, sem falar nos países do Ocidente. Atualmente, na Tailândia, os mestres enfatizam que o próprio corpo deve ser visto dessas formas, como uma visão (nimitta), durante o processo de desenvolvimento da mente. Como essas visões podem ser atemorizantes, a pessoa deve ter a orientação de um mestre hábil para lidar com tais visões, quando então elas poderão ser de grande benefício. Deve ser enfatizado aqui que não existe nada de mórbido na contemplação de visões como essas, interiores ou exteriores. A decomposição do corpo é algo natural, mas normalmente não é visto assim porque as pessoas não gostam de admitir isso. Ao invés de encarar a decomposição do corpo e mostrá-la abertamente, os cadáveres são até mesmo preparados para parecerem atrativos por embalsamadores e maquiadores e quando isso não pode ser feito, eles são arrumados em bonitos caixões com flores resplandecentes, etc. O treinamento Budista faz com que a pessoa olhe diretamente para esses aspectos da vida que normalmente (isto é, com cobiça) não são considerados "bons", e faz com que a pessoa calmamente os encare em relação à sua própria mente e corpo.
Dez Contemplações (anussati)
21. sobre o Buda *
22. " o Dhamma
23. " a Sangha
24. " virtude (sila) ..... {contrapõe a contaminação (kilesa) da má conduta (duccarita)}
25. " generosidade ..... {contrapõe a mesquinhez (macchariya)}
26. " celestiais ..... {contrapõe a dúvida (vicikiccha)}
27. " morte ..... {contrapõe a preguiça}
28. " corpo * ..... {contrapõe a cobiça e a sensualidade (kama-raga)}
29. " respiração * ..... {contrapõe a delusão, preocupação}
30. " paz ..... {contrapõe a perturbação}
21-26 recomendado para os tipos de personalidade baseadas na fé
27 " " personalidades inteligentes
28 " " personalidades cobiçosas
29 " " personalidades deludidas/especulativas
30 " " personalidades inteligentes
Este grupo de dez possui características mais variadas do que os dois grupos anteriores. Ao praticar as três primeiras contemplações (21-23) a pessoa recita as listas das qualidades de cada um. Ou, se a mente não ficar concentrada dessa forma, a pessoa escolhe uma qualidade em particular para recitá-la silenciosamente e continuamente (tal como "Buddho" ou "Araham"). Rosários são usados em alguns lugares em conexão com este tipo de prática. As contemplações sobre virtude e generosidade são particularmente boas de serem cultivadas durante a velhice. A pessoa revê todas as ações meritórias (puñña) praticadas ao longo da vida e ao recordá-las a mente fica tranqüila e satisfeita, e tendo esse estado mental no momento da morte irá assegurar um renascimento em condições muito favoráveis. A menos que tenha visto algum, a pessoa somente poderá refletir sobre seres celestiais (deva) baseado na sua fama. Este tipo de prática é adequada para aquelas pessoas que incrementaram o alcance das suas mentes e dessa forma fizeram contato com outros seres mais sutis. A contemplação sobre a morte pode ser feita por personalidades inteligentes já que elas não ficarão atemorizadas pelas possibilidades que este tipo de prática revela. É um grande incentivo praticar agora sabendo que não existe certeza se daqui a um segundo a pessoa ainda estará viva. A contemplação vinte oito - sobre o corpo - é para personalidades cobiçosas, que precisam desenvolver desapego em relação ao corpo. Isto é alcançado através da análise do corpo em trinta e duas partes desprovidas de beleza e depois através da seleção de uma ou mais dessas partes e o seu exame. No entanto, esta prática atinge a sua perfeição quando através do insight o corpo é iluminado e os seus vários componentes são vistos com clareza e a sua natureza é compreendida. A atenção plena na respiração é recomendada para acalmar e aclarar a mente e pessoas de quase todos os tipos de temperamento podem praticá-la com benefício, embora muito cuidado seja necessário nos níveis mais sutis desse exercício. A respiração nunca é forçada mas observada constantemente com atenção plena, sendo que o ponto para a concentração em geral é a ponta do nariz ou narinas. No entanto existem variações entre mestres distintos. A contemplação sobre a paz, diz o grande Acariya, somente beneficia quem já experimentou Nibbana, tal como aqueles que já entraram na correnteza (sotapanna); mas outras pessoas podem obter alguma calma através da contemplação da tranqüilidade. A paz mencionada nesse caso é na verdade Nibbana, e como uma pessoa não pode se recordar daquilo que não conheceu, que é o caso de uma pessoa mundana (puthujjana), esta é uma prática para os Nobres (ariya).
Quatro Moradas Divinas (Brahma-vihara)
31. amor bondade * ..... {contrapõe a impureza da raiva, má vontade}
32. compaixão ..... {contrapõe a indiferença insensível}
33. alegria altruísta ..... {contrapõe a inveja}
34. equanimidade ..... {contrapõe a preocupação}
31 recomendado para personalidades enraivecidas
Quatro Estados sem forma (arupa-bhava)
35. esfera do espaço infinito
36. " " consciência infinita
37. " " nada
38. " " nem percepção, nem não percepção
Estas absorções sem forma não podem ser desenvolvidas exceto se as quatro absorções da forma já tiverem sido aperfeiçoadas. Diz-se que este grupo de quatro pode ser explorado com base na quarta absorção (jhana). Como existe a possibilidade de que muito poucas pessoas experimentem isto, seguimos adiante para:
Percepção do aspecto repulsivo da Comida
39. Enquanto isto é essencial para o bhikkhu que depende de alimentos esmolados (que algumas vezes são bons outras não), as pessoas leigas também podem se beneficiar com esta prática, que Acariya Buddhaghosa observou ser para personalidades inteligentes, e que está projetada para diminuir e conduzir à destruição da cobiça e da gula.
Definição dos Quatro Grandes Elementos
40. Eles são a terra (solidez), água (coesão), fogo (temperatura), e ar (movimento), os quais caracterizam os nossos corpos físicos. Esses elementos podem ser percebidos através de uma análise baseada no uso da atenção plena. Se diz que esta prática é particularmente aconselhada para as personalidades inteligentes.
Aquelas práticas que não fazem menção a um tipo de personalidade são adequadas para todas. Como todas essas práticas possuem como objetivo o enfraquecimento e por fim a destruição das contaminações (kilesa), a pessoa pode avaliar o quão importantes elas são consideradas no treinamento Budista. Onde as contaminações são encontradas, ali a penumbra da ignorância tem domínio, mas onde elas não são encontradas, ali brilha a sabedoria e compaixão da Iluminação.
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